Vestido de preto da cabeça aos pés e com a aparência de alguém sempre pronto para ir a um velório, Jeremy Marsh reflete em seu estilo uma forte vocação para encarar a vida de uma forma racional. Badalado pela mídia, respeitado pela comunidade científica, aos 37 anos o jornalista assina uma coluna na prestigiosa revista Scientific American - sem, contudo, emplacar um relacionamento feliz. A saída que Jeremy encontra para exorcizar o fantasma de um casamento desfeito é negar a existência de outros tipos de fantasmas: aqueles que arrastam correntes e aparecem sob lençóis. Seu trabalho como freelancer já o fez viajar pelo mundo à cata de lendas urbanas como a do monstro de Losh Ness. Por isso, não se surpreende ao receber a carta de Dori McClellan, uma senhora com poderes divinatórios que o convida a investigar as misteriosas luzes de Cedar Creek, um antigo cemitério de escravos que teria sido alvo de uma maldição. Acionando seu agente e um cameraman tatuado e beberrão, Jeremy deixa Nova Iorque e parte em direção ao sul dos Estados Unidos. Essa é a terra da sofrida Lexie Darnell - alguém que longe de ser uma mocinha ingênua do interior, se mostra vacinada contra os avanços de qualquer conquistador da cidade grande. Mas será que um forte sentimento pode ultrapassar as fronteiras que separam a fé da descrença?
O Milagre -
Nicholas Sparks
O Milagre foi minha primeira leitura de Nicholas Sparks. Apesar de haver assistido a quase todos os filmes que foram adaptados a partir de suas obras e de ter A Última Música e Querido John há meses em minha estante, escolhi a mais recente publicação da editora Agir como minha companheira de viagem. O livro conta a história do nova-iorquino Jeremy Marsh, jornalista bonitão que trabalha como colunista para a revista de ciências Scientific American. Atuando como um verdadeiro mith buster (um caçador de mitos, como no programa homônimo do Discovery Channel), ele decifra salafrários, supostos videntes, sensitivos farsantes e diversos mistérios envolvendo o sobrenatural. Para ele, a vida segue um caminho lógico, racionalmente demonstrável, onde tudo possui uma justificativa. Após o estrondoso sucesso na tevê pela ocasião de desmitificar um falso médium, Jeremy parte para mais uma missão: investigar a aparição de luzes fantasmagóricas no cemitério da pequena cidade sulista de Boone Creek, lugar perto de onde Judas Perdeu as Botas e depois de Onde o Vento Faz a Curva. Milagre mesmo foi ter persistido na leitura, porque sinceramente nada acontece na história. Trata-se resumidamente de um garoto encontra garota em uma cidade pequena. Após três dias juntos, já existem juras de amor e Jeremy já se imagina velhinho ao lado de Lexie Darnell. Amor eterno a jato, é esse resumo do livro. Para um personagem apresentado como um homem decididamente cético, Jeremy apresenta alguns probleminhas. Na verdade, este não chega a ser o problema central do livro, mas sim a forma como Nicholas Sparks desenvolve a paixão entre o casal protagonista. A bibliotecária Lexie tem medo de se apaixonar, ser abandonada e acabarem seus dias sozinha. Abandonada por dois ex-namorados que nem ao menos se deram ao trabalho de correr atrás dela tentando reatar o romance, ela tem o coração ferido e não quer se envolver com um homem que tem data marcada para retornar à cidade grande. Mesmo assim, tã dã, ela se envolve com Jeremy e depois cai na infantil estratégia de dar um gelo no homem. Muito maduro para uma mulher com mais de 30 anos. Já Jeremy esconde um divórcio amargo e se sente romanticamente inferior a qualquer mulher que cruze seu caminho. Mesmo assim, ele cai de amores pela nossa protagonista interiorana: ela é bonita, ela é misteriosa, ela é intrigante e o faz rir. Por que não abandonar a vida na cidade em troca de um grande amor? Junte dois com dois e você terá quatro: é a história de amor impossível mais óbvia do ano, e talvez a mais rapidamente solucionada (meia página). Outro detalhe que chamou minha atenção é que a capa brasileira do livro não possui relação com a história: Lexie é descrita como tendo cabelos castanhos que batiam levemente nos ombros, além de ter a pele morena, com um leve toque de oliva. Alguém me explica a loira platinada da capa? De qualquer modo, o livro melhora consideravelmente quando aborda os personagens secundários da trama, em uma divertida e bastante convincente descrição dos tipos mais comuns em cidades pequenas norte-americanas, como a garçonete um tanto oferecida (Rachel), o policial mal encarado que no fundo é uma manteiga derretida (Rodney), o tipo caladão (Jed) e o prefeito puxa-saco (Gherkin). A avó de Lexie, Doris, exerce um papel fundamental na história e é o grande motor do livro. Ela é o perfeito arquétipo da vovó boazinha e é impossível não cair de amores por ela. O final, que não possui absolutamente nada a ver com o mistério das luzes do cemitério da cidade, é doce e bastante encantador. O verdadeiro milagre de O Milagre passou despercebido por mim ao longo do livro, mas conseguiu cativar um sorriso quando encerrei a leitura e finalmente fechei o livro.
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