Os Mortos (A Arte da Novela) -

    James Joyce

    Grua
    2014
    80 páginas
    2h 40m
    ISBN-13: 9788561578428
    Português Brasileiro

    Os Mortos fecha o volume de histórias Dublinenses, publicado em 1914. Mary Jane mora com suas tias Julia e Kate Morkan, as três solteiras e professoras de música. As senhoritas recebem os amigos para um baile na época do Natal. Como de costume, é um sobrinho de Julia e Kate, Gabriel Conroy, quem fatia o ganso a ser servido como prato principal e quem faz o discurso agradecendo a hospitalidade das tias. Os tipos dublinenses se entrelaçam em diálogos e situações aparentemente banais: a repreensão nacionalista que Gabriel recebe de uma das convidadas, as danças, as taças de vinho, as galochas que usa no Continente, as conversas sobre música ou sobre a neve que fazia tanto tempo que não cobria a Irlanda daquela maneira. No fim da noite, Gabriel sente um renovado encantamento por sua mulher Gretta, uma silhueta que ele vê na escada a ouvir uma música tocada no salão. É quase de manhã quando vão embora, como em todos os anos. Dá-se, então, uma revelação. E sua pujança não está apenas na revelação em si, mas na reação a ela.

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    Régis Maz04/12/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O passado que revela o peso da vida

    Ainda não sei se é uma novela ou um conto, mas pelo tamanho vou chamar de novela. A atmosfera da narrativa é bem vívida, devo dizer que até quase documental, faz parecer que estamos assistindo à rotina que se desenrola lentamente diante de nossos olhos, como um filme da vida real. Os personagens interagem e o foco passa por cada um deles, mas se fixa em Gabriel, e aí sim podemos ver, de forma clara, o autor retratando a sociedade como ela lhe parecia. Mais para o final, todo um sentido de peso sentimental acaba nos abraçando, o que torna os trechos em que Gabriel descobre algo do passado de sua esposa muito intensos. Ainda mais quando, junto com o personagem, acabamos nos dando conta de que o passado nunca morre, ele nos persegue pela vida, nos mantendo nas sombras e vindo à luz apenas em momentos cruciais, fazendo-nos sentir todo o peso do que adoraríamos ignorar. O trecho final, em que tem a citação em que ele diz “Gabriel sentiu a alma desfalecer aos poucos enquanto ouvia a neve que caía suave por todo o universo e suave caía, como a descida ao derradeiro fim, sobre todos os vivos e os mortos.”, me marcou profundamente. Fiquei tanto tempo refletindo sobre esse trecho que perdi a noção das horas. Ao apagar as diferenças, Joyce nos lembra que todos caminhamos para a mesma dissolução no tempo. Talvez eu não tenha compreendido por inteiro tudo o que Joyce quis transmitir nessa novela, mas senti intensamente o peso do passado e o contraste entre vida e morte presentes em meio à celebração natalina, quando o passado e a morte se insinuam como uma lembrança silenciosa da finitude de tudo. Sei que essa novela faz parte do livro Dublinenses, mas foi bom encontrá-la separada para ter uma breve amostra da escrita do autor e descobrir se me identifico ou não com ela. O que posso dizer? Tive uma boa impressão de Joyce e estou tremendamente inclinada a ler outros livros do autor. Tenho planos de adquirir Ulisses, e essa amostra que tive com “Os Mortos” me deixou ainda mais curiosa para seguir com meus planos de ler esse calhamaço.

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