O livro é uma narrativa de como as situações políticas e sociais podem tomar um rumo sem volta.
Explico.
O narrador/protagonista, um niilista clássico, um p.rra louca que se torna com um tempo, um "Maria vai com as outras", em sua mentalidade e raciocínio de gado, "dançando conforme a música do momento". Professor universitário, hedonista, de meia idade, por volta dos seus 40 e poucos anos de vida, não se preocupa muito com política e a vida do seu país, a França. Suas preocupações são sexo, comida e vida acadêmica.
Eleições iminentes. A direita com seu candidato com extrema rejeição, mas com eleitorado fiel e uma esquerda fragilizada, clamando por eleitores que não têm. Uma terceira via se mostra viável e toma proporções gigantescas, o partido político do movimento muçulmano no país. Uma quase guerra civil irrompe no país, pouco antes do dia de votação, que é então postergado pelo governo.
O livro mostra como a tomada de poder de uma coalisão de partidos comandados por um muçulmano não radical, aos poucos muda a face e a vida do país e de seus habitantes. O novo regime vai comendo pelas beiradas o "bolo" até não sobrar mais nada. O "bolo" de princípios, garantias, liberdades, e até bens materiais. Nosso protagonista perde a cadeira na universidade onde era professor de literatura por motivos políticos e religiosos.
A narrativa demonstra o encadeamento de fatos e de trajetórias dos personagens, que ou se submetem, ou se alijam de suas antigas vidas, de seu país. Enfim, a liberdade é o primeiro bem a ser perdido. A democracia perde-se nesse interim. As mulheres são relegadas ao papel de esposa e mães tão somente, saindo da vida pública do país. O livro demonstra que desde o início do novo regime as professoras deveriam parar de lecionar e se dedicar ao lar.
Nosso protagonista se rendeu ao sistema. Submete-se, e com isso ganha as benesses do regime. Previsível.
De minha leitura, um livro atual, polêmico, incisivo, mas sobretudo instigante e reflexivo. Vale a leitura. Recomendo.