A principal rival filosófica do estoicismo de Zenão na Grécia era a escola epicurista, também do século III A.C. Ambas, por sua vez, rivalizavam com a tradição dominante da filosofia socrática - representada pelas figuras de Platão e Aristóteles - embora também representassem um rescaldo do mestre ateniense. Epicuro notabilizou-se pelo seu jardim, uma espécie de comunidade filosófica localizada nos arredores de Atenas e que tinha como único princípio filosófico a vida virtuosa. Se para os estoicos a felicidade é seguir a natureza, para os epicuristas a felicidade é seguir a virtude.
O sofrimento, portanto, é um obstáculo para a felicidade e objeto de reflexão filosófica. Sob tal prisma, o sofrimento pode manifestar-se como doença, dor, inadequação em uma palavra, tudo aquilo que, na sua presença, anula o nosso prazer. Este é um dos preceitos mais fundamentais da reflexão epicurista sobre o sofrimento humano e sua superação. De fato, o prazer é mera ausência de dor e sofrimento. Tal definição negativa não impede-nos de compreender sua penetração filosófica. Vejamos: O sofrimento na carne não dura, aquele que é extremo só permanece por um tempo muito curto; aquele de intensidade média, que excede o prazer carnal, dura vários dias. Quanto às doenças de longa duração, elas permitem sentir mais o prazer do que sofrimento no corpo.
A dor física, essa na carne, se for intensa, não dura muito pois pertence a nossa fisiologia a fuga de tais padecimentos elas não são contínuas pois logo que elas surgem torna-se nossa prioridade seu expurgo: tais como as dores de dentes, enxaquecas, quebra de ossos, torções e ferimentos. Tais dores são suportáveis e não causam nosso perecimento. É sábio aquele que evita ao máximo tais dores, embora muitas delas não subordinem-se a nossas vontades: devemos, isso sim, saber que sua duração não impede a vida virtuosa.
Já as doenças de longa duração, mais mortais, não impedem, na visão de Epicuro, uma vida prazerosa, pois embora ponham nossa vida em risco, não nos impedem de fruí-la. Não podemos esquecer que prazer é ausência de dor. Nesse sentido, tais sofrimentos não impedem uma vida virtuosa, que busque mais momentos de prazer que de dor. Essa equação nos favorece, pois se um vida feliz é aquela com mais momentos de prazer do que de dor e sofrimento, então a nossa felicidade depende de nossa capacidade de fugir dos momentos que implicam sofrimento e fruir os momentos de prazer.
Devemos, isto sim, preencher cada momento da nossa vida com prazeres. Tal afirmação não confunde-se com um hedonismo ou consumismo. Pelo contrário. Devemos nos orientar mais pela fuga da dor e pela satisfação das necessidades do que pela posse de bens materiais. Diz Epicuro: Nenhum prazer é em si um mal; mas aquilo que produz alguns deles provoca perturbações maiores do que os prazeres. Ou seja, muitos dos aparentes prazeres que se nos apresentam são, de fato, sofrimento futuro. Desses também devemos fugir. Um momento de prazer, nesse sentido, é aquele em que não há perturbação da alma, ou seja, em que a dor não está presente. Como apontamos, se uma dor atinge o corpo, toda nossa energia deve orientar-se para superá-la e, a partir de então, maximizar esses momentos de prazer.
De fato, a noção de prazer é muito simples além de ser a ausência de dor: satisfação dos desejos naturais. Tais desejos estão inscritos em nossa natureza íntima, bastar cultivarmos a sabedoria para escutar sua simplicidade em vez submetermos a desejos irrealizáveis. Para Epicuro, o nosso corpo grita pelo que é mais fundamental. A voz da carne: não passar fome, nem sede, nem frio; aquele que dispõe disso e tem segurança de permanecer dispondo pode também disputar a felicidade. Prazer, portanto, é livrar-se das privações do corpo, perdurar em tal condição através da segurança que a torna possível, haja vista que segurança é previsibilidade de condições. A partir disso, estamos aptos para uma vida feliz. No contexto filosófico ateniense em que Epicuro estava inserido, havia a escola hedonista, que preconizava uma vida de prazer a partir do transbordamento dos sentidos. É evidente que essa não é a posição epicurista, muito mais naturalista e filosófica.
Para atentarmos a essa regra de prolongar o estado de prazer, devemos diferenciar as três espécies de desejos que nos afetam: Dentre os desejos, alguns são naturais e necessários; outros naturais, mas não necessários, outros não são nem naturais nem necessários. Ora, os desejos naturais e necessários são aqueles sem os quais não a vida é impossível: beber, comer, reproduzir-se, proteção dos extremos climáticos tudo o que refere-se a continuidade do estado natural de equilíbrio do corpo e da alma. De fato, o prazer é a satisfação dos desejos necessários e naturais; em oposição a isso, a satisfação dos desejos naturais mas não-necessários é fraqueza. Temos que priorizar o que é natural e necessário, pois é a observância de tais desejos que nos conduzem a uma vida virtuosa.
Os desejos naturais mas não-necessários são aqueles provenientes da fantasia, cuja não-satisfação não nos aniquila enquanto indivíduos. São os caprichos produzidos pela nossa vontade. Na teoria epicurista, o desejo sexual, por exemplo, é um desejo natural mas não-necessário, uma vez que a não-satisfação de um desejo sexual não nos leva a morte. Devemos ter sempre em mente a diferenciação dos desejos que nos afetam. Muitas vezes ficamos tristes por não realizar algum desejo e não percebemos que é um desejo que não é primordial para uma vida virtuosa e feliz.
A terceira espécie de desejos são os nem naturais nem necessários: aqueles associados a opinião de terceiros, como o desejo de riqueza, glória e admiração. Em toda sociedade existe uma representação social do que significa ser feliz. As pessoas mais vulgares submetem-se às representações alheias e, portanto, sempre sofrem, pois tais desejos multiplicam-se a partir de si mesmos. Há, atualmente, a ilusão de que belos carros, mansões suntuosas, uma conta bancária recheada, viagens internacionais constantes, frequência em restaurantes chiques...que tudo isso é sinônimo de felicidade. Para Epicuro, tudo isso não passa de ilusão, meros desejos que não são nem naturais (pois são sociais) e nem necessários, uma vez que a não-satisfação de tais desejos não nos aniquila enquanto indivíduos.
Para o epicurista, tais coisas como riqueza, admiração e glória são decorrentes de sua vida virtuosa, não necessidades sem as quais ele não vive. Aquele que vive conforme a virtude tem muitas chance de ser admirado pelos que estão a sua volta, mas os seus atos não devem se orientar para esse objetivo de querer ser admirado. Essa é a grande diferença entre o virtuoso e o viciado: enquanto o primeiro parte da virtude para alcançar a felicidade, o segundo parte de uma representação pré-estabelecida da felicidade para, a partir disso, agir.
Desse modo, uma reflexão se impõe quanto a organização dos nossos desejos: Em relação a todos os desejos, façamos a seguinte pergunta: que acontecerá comigo se eu atingir aquilo que o desejo persegue e o que acontecerá se não atingir?. Devemos antecipar na imaginação os efeitos dos objetos de nossos desejos...pensar sempre na implicação de nossos atos, não duas vezes, mas uma única e correta vez, para percebermos que a maioria dos nossos desejos são fúteis e momentâneos, que não precisam ser efetivamente satisfeitos, que a sua não-satisfação não implica num sofrimento e que o verdadeiro sofrimento é a submissão aos desejos nem naturais e nem necessários.
Necessário mesmo para o epicurista, o que constitui a essência da vida prazerosa, é o pão e a água para o corpo, o ar para os pulmões e a virtude para a alma. Ingredientes infalíveis para uma vida feliz. Diz o filósofo: Não se dissipam as perturbações da mente e não se ganha uma alegria digna de estima nem por meio da riqueza, por maior que ela seja, nem pela glória e consideração que vêm da multidão, nem por qualquer outra coisa que esteja fora.
Existe uma equação, portanto, que remonta a Sócrates, entre a virtude e a felicidade. No mestre ateniense, contudo, virtude era ligada a sabedoria. Em Epicuro, virtude é viver prazeirosamente, pois de nada adianta um sábio virtuoso e melancólico. Diz Epicuro: Não é possível viver prazeirosamente sem viver com prudência, retidão e justiça; quando isso não ocorre, não é possível viver prazeirosamente. São premissas da virtude, desse modo, essas três características: a prudência, a retidão e a justiça. Que são?
A prudência está associada a moderação dos desejos, uma vez que o desejo é uma coisa absolutamente natural. Nada de errado há em desejar, o ser humano é um ser pulsional. Devemos, entretanto, ser cuidadosos na satisfação de nossos desejos e observar sempre, prioritariamente, os desejos naturais e necessários. Ora, como fazer isso? A segunda virtude, a retidão, é justamente essa capacidade de ser reto, incisivo na percepção do que é mais imediato em cada situação. Pensar não duas, mas uma única vez se o desejo que nos toma nesse exato momento é efetivamente natural e necessário. Esse simples pensamento, denominado de retidão, faz possível uma vida feliz, além de nos auxiliar a dispensar desejos fúteis.
A terceira virtude epicúrea é a justiça, como bom seguidor da tradição da filosofia grega, onde a justiça era o centro de grandes reflexões sobre a vida. A justiça para Epicuro, no entanto, não é mesma coisa que para Platão, na esteira de Sócrates, que associava a justiça com a vida coletiva e a harmonia da polis. A cosmovisão epicurista é mais atomista, materialista e não idealista. Justiça, portanto, nesse sentido, está ligada a harmonia psíquica do indivíduo, ao seu bem-estar em relação às suas necessidades.
Não devemos confundir, com efeito, essa cosmovisão com individualismo. Epicuro era, de fato, descrente da potência da polis em atender às necessidades das pessoas, além de cético em relação aos políticos atenienses, mais treinados em demagogia que em virtude. Tanto que o jardim de Epicuro era reconhecido no contexto grego - fortemente marcado pela reflexão política - como alienado.
Isso constitui uma visão equivocada do epicurismo, quase um preconceito, uma vez que a noção de comunidade tem uma função primordial no pensamento do filósofo. Comunidade que não se confunde com polis: é a comunidade dos filósofos, aqueles que vivem conforme a virtude. Apenas este estão aptos para a verdadeira amizade, outro conceito-chave no epicurismo. Diz ele: De tudo aquilo que a sabedoria nos proporciona para a felicidade de toda nossa vida, de longe o mais importante é a posse da amizade. É essa vida em comunidade que é a fonte da felicidade, que nos torna grandes enquanto indivíduos, pois a amizade nos torna mais potentes para enfrentar as dificuldades da vida, a ponto de ser uma via para a imortalidade. A grandeza de caráter torna-se plena através da sabedoria e da amizade; estas são bens intelectuais e imortais.
A vida comunitária, portanto, é a solução para os infortúnios do destino, pois muitos são mais forte que um. A vida comum entre pessoas virtuosas é o mais natural e necessário: tudo o mais é mediocridade e superficialidade. Uma vida sem esbanjar e sem privações, cultivando a virtude em distância as mesquinharias do poder. Epicuro desdenhava daqueles aristocratas que pensavam que uma vida cheia de riquezas é o caminho para a felicidade. Aristóteles chega a afirmar que uma das propriedades da felicidade é a prosperidade. Epicuro se opõe a tal percepção, pois uma vida livre não pode adquirir grandes riquezas, pois não é coisa fácil obtê-las sem servir à multidão ou aos poderosos.
Nesse sentido, a liberdade está associada a uma vida virtuosa, que foge tanto da privação quanto do transbordamento. Diz Epicuro: A pobreza medida pela finalidade da natureza é uma grande riqueza; a riqueza, se não limitada, é uma grande pobreza. Ora, um rico precisa de cada vez mais riqueza para não tornar-se pobre e perpetra todas as crueldades para multiplicar sua prosperidade; enquanto um pobre que apenas atente para os fins de sua natureza, que é a sobrevivência sob a égide da virtude é muito mais sábio. Como já apontado, observar a necessidade que toca nosso íntimo é o mais fundamental para a virtude, o prazer e a liberdade.
Por fim, a questão da morte, fonte de muito sofrimento tanto para os hedonistas, que veem nela o fim do reino de prazer dos sentidos, quanto para aqueles que só veem a vida atual como uma possibilidade de acumular riqueza. Para Epicuro, a morte é algo natural e necessário, portanto, não deve ser concebida como fonte de angústias. Diz ele: quando for tempo de irmos, cuspiremos com desdém na vida e naqueles inutilmente apegados a ela. Deixaremos a vida com uma canção de triunfo por termos vivido bem. Viver bem, desse modo, é a única coisa que importa!
Que nada ocorra em tua vida que te cause temor se descoberto pelo teu vizinho
Livremo-nos completamente dos maus hábitos como se eles fossem homens maldosos que durante longo tempo nos tivesses prejudicado muito