Genial desde o prólogo, onde ele diz que não possui uma estética, mas algumas astúcias. Não é um livro de contos como "Ficções", clássico universal, é poesia, seu quinto livro de versos, mas que leva o leitor a se sentir dentro daquele mesmo universo, da biblioteca universal infinita, dos labirintos do tempo caótico e das palavras que nunca terminam de dizer o que querem.
A poesia de Borges é ao mesmo tempo autobiográfica e alheia. É o lugar onde o Eu trata de ser a humanidade inteira, e esta, brinca de ser Borges. Está sempre revelando traços de outras obras, de escritores passados e contemporâneos, reinventando e evocando a cultura universal. De Heráclito a Jesus, Quintana e James Joyce, de Cambridge a Buenos Aires, uma profusão de imagens prolixas, um elogio de sombras que simbolizam os significados difusos e a cegueira (em mais de um sentido) que o acometeu.
Meus poemas favoritos são "os gaúchos", de tom distópico, e "o guardião dos livros", que lembra aquele hermetismo dos contos, "Fragmentos de um Evangelho Apócrifo" também destaco como uma das releituras mais profundas do Sermão do Monte. Mas há poemas que não pude desfrutar. Às vezes é difícil abstrair a obra de um artista de suas ideias e comportamentos políticos errados, faço um esforço porque a vida é breve, a arte, escassa e os gênios tão poucos... Se vale a pena, sei que vai de cada um. Minha opinião sobre Borges é que vale muito sim.