Pedra-de-paciência - Syngué Sabour

    Atiq Rahimi

    Teorema
    2008
    113 páginas
    3h 46m
    ISBN-13: 9789726957843
    Português

    "O amor e o ódio, a guerra e a paz e a vida e a morte, pela voz de uma mulher afegã que tem a dimensão e a universalidade de uma figura de tragédia grega. Ao contrário do que acontecia nos seus livros anteriores, Atiq Rahimi, no mesmo tom elíptico e poético, que já caracterizavam os seus livros anteriores, descreve o dia-a-dia de uma mulher que trata rotineiramente do seu marido, um combatente que, com uma bala enfiada na nuca, se encontra em estado de coma. Como tal, não vê, não ouve, não fala nem reage a qualquer estímulo. A mulher foge com as filhas para a casa de uma tia para a pôr a salvo, mas volta sempre para a sua cabeceira. O homem transformou-se na sua "pedra-de-paciência". Um dia a pedra racha e com ela desaparecem os segredos, as misérias e as dores confessadas. Mas a libertação é apenas ilusória e o livro acaba numa tragédia de uma violência inaudita."

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    Larissa Leal03/08/2012Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Até que a pedra estoure

    O preço da liberdade para um indivíduo oprimido pela sua própria cultura em seus gestos, seus desejos e até em seus pensamentos pode ser muito alto. Mas, embora essa seja uma conclusão possível, não é nisso que nos detemos ao deparamo-nos com a opressão em que se debate a escrita de Atiq Rahimi em direção a libertação da voz feminina de sua Syngué Sabour. A verdadeira voz, não mais limitada, simbólica, profunda porque não-nominada de uma mulher que se encontra, pela primeira vez, diante de si mesma e com o poder das próprias escolhas: ela cuida do marido, em coma com uma bala alojada na nuca, absolutamente só, no meio de violentos conflitos religiosos cotidianos. A sua libertação se dá pela fala, não pelo pensamento, porque este só aparece quando externalizado e aos poucos deixando de limitar-se pelos medos e tabus, inclusive impostos na própria língua processo pelo qual Rahimi também diz ter passado: ao perceber que seu ouvinte, que noutro momento seria seu maior opressor, transformou-se na sua pedra-de-paciência particular. Nesse processo, somos nós mesmos transformados em syngué sabour. Dessa mulher só vemos os gestos dentro de um quarto limitado especialmente por uma cortina estampada de pássaros migratórios, ouvimos seus segredos nos intervalos dos tiros e na cadência da respiração do SEU homem, na qual ela aprendeu a contar o tempo e nós tentamos nos situar. Tudo isso porque o narrador, numa escrita cinematográfica, também está preso no quarto, não nos permitindo conhecer nada além do que se mostra/ouve naquele espaço físico. Nos exercita, assim, a paciência que estamos resignados a ser, até a explosão. O mundo árabe aparece em sua contemporaneidade cruel de violência, de vida sufocada por uma opressão cada vez mais consciente, porém, também renasce em sua magia de Mil e uma Noites pelos ecos das histórias que a mulher conta ao marido, ouvidas das mulheres de sua família, raízes de sua busca pela dolorosa libertação. E, como na reflexão ouvida do sogro de uma dessas histórias, para que seja possível um final feliz alguém precisa ser sacrificado, resta-nos apenas escolher quem o será.

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