O Zero e o Infinito (Catavento #59) - O retrato de uma nação é, principalmente, um retrato do indivíduo

    Arthur Koestler

    Globo
    1964
    202 páginas
    6h 44m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    "O zero e o infinito" é um livro de grande significado e importância; Quando apareceu, em 1941, esclareceu muitos dos processos por crime de traição, realizados em Moscou, bem como dá o significado das abjetas confissões, surpreendentes para a inteligência ocidental; Hoje, sua leitura é ainda mais imperiosa para quantos queiram compreender a ênfase com que os comunistas subordinam os meios aos fins. Livro curto, é um milagre de compreensão: transmite em forma dramática a essência de toda a filosofia marxista e as diferenças básicas entre as duas atitudes em conflito, para uma das quais o indivíduo tem uma importância suprema, enquanto para outra o fim mais almejado é a sua completa subordinação ao Estado.

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    Gabriel Carrara Vieira02/03/2009Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Ilusão do 'eu', realidade do 'nós'

    Quando decidiu criticar o regime soviético stalinista, o autor anglo-húngaro Arthur Koestler estava, já em 1940, revendo certas posturas da União Soviética. Quase 70 anos depois, parece natural e óbvio criticar um regime que matou algo em torno de 20 milhões de russos, boa parte durante Stalin; mas nos anos 40, e principalmente 50 e 60, soova burguês, anti-revolucionário e pró-imperialismo ianque. Koestler, contudo, estava longe de ser um pequeno burguês. Sua crítica é de alguém que esteve próximo aos Grandes Expurgos, que viu a própria URSS remodelar de modo assustador seu próprio passado. Seu protagonista, Rubashov, de acordo com George Orwell, "poderia ser chamado de Trotsky, Bukharin, Rakovsky". Embora seja uma tragédia anunciada desde a primeira página, "O Zero e o Infinito" não recorre a descrições de brutalidade e tortura gratuita. Sua grande virtude é não utilizar do choque fácil da dor física, mas descrever a requintada frieza de um pogrom silencioso. Rubashov, por ser um dos últimos a ser preso, sabe que não lhe será dado o perdão: "o horror que emanava do N.º 1 consistia, sobretudo, na possibilidade de que estivesse com a razão, e de que todos quantos matava tivessem de admitir, mesmo com a bala na nuca, que era concebível que estivesse com a razão" (p. 23). Com uma prosa direta e bem fluida, Koetler acerta a mão em um estilo quase "invisível", deixando seu objeto de crítica sob os holofotes, sem miçangas. A discussão do método soviético, que se segue por toda a obra, vale por uma aula de história, mas também aponta para questões de cunho filósofico: bendito seja o tradutor francês que optou por "Le Zéro et l'Infini" em detrimento do burocrático "Darkness at Noon". Após a leitura, repensar sobre a relação de valores entre Zero, Infinito e Um (não nomeado, mas é Stalin) toma proporções filosóficas bem mais amplas. Ponto para Koetler.

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