Bartleby ... desenvolve-se em torno do diário de um narrador, que é um caderno de notas de pé de página à volta de escritores que deixaram de escrever , essa "literatura do não"...
Bartleby & Companhia -
Enrique Vila-Matas
A Literatura Do Não
“A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever.” (Jean de La Bruyère) De Enrique Vila-Matas, Bartleby E Companhia é um livro sem começo nem fim, sem desenvolvimento de personagens nem enredo. Trata-se de um longo ensaio, ou melhor, 86 notas de rodapé numeradas de um texto invisível que abordam obras literárias reais ou imaginárias cujos autores nunca escreveram, juraram não escrever novamente, sofreram bloqueio criativo, ou são extremamente reservados. Portanto, o livro gira ao redor do silêncio na literatura, a impossibilidade e esgotamento que coloca em risco seu futuro, e quem o assunto leva à pauta é Marcelo, um corcunda recluso e misógino que chega a perder o emprego em virtude da obsessão pela ideia. Esta “literatura do não” reporta ao título do livro que leva o nome do protagonista de um conto Herman Melville: Bartleby, Um Escrivão. Ele é um jovem amanuense judicial que, cansado do trabalho burocrático, “decide adotar a negativa como lema e o nada como estilo de vida”. Por sinal, “Eu preferia não fazer”, repetida inúmeras vezes pela personagem, transformou-se num símbolo da desobediência através da revolta passiva que expõe o contrassenso entre poder e livre arbítrio. Por sinal, deixo a sugestão da prévia leitura ou releitura da narrativa antes deste ensaio. Cabe registrar a surpreendente a bagagem literária de Vila-Matas, representada por uma longa lista de nomes bastante conhecidos e outros pouco conhecidos, ao menos em nosso país, como Daniele Del Giudice, Joseph Joubert e Marcel Maniere. Por sinal, um desconhecimento que creio ser recíproco, pois o escritor espanhol não menciona o brasileiro Raduan Nassar, renomado autor de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, que em 1984 largou a literatura para ser fazendeiro no interior de São Paulo. Enfim, Bartleby e Companhia é um livro incomum, capaz de provocar estranheza e, ao mesmo tempo, fascinar o leitor, a despeito de arrastar-se em alguns momentos. Recomendo para quem mantém uma estreita relação com a literatura e, tal como eu, questiona seus caminhos. “Há alguns homens misteriosos que só podem ser grandes. E por quê? Nem eles mesmos sabem. Por acaso quem os enviou sabe disso? Têm na pupila uma visão terrível que nunca os abandona. Viram o oceano como Homero, o Cáucaso como Ésquilo, Roma como Juvenal, o inferno como Dante, o paraíso como Milton, o homem como Shakespeare. Ébrios de sonho e intuição em sua marcha quase inconsciente sobre as águas do abismo, atravessaram o raio estranho do ideal, e este os penetrou para sempre… Um pálido sudário de luz cobre-lhes o rosto. A alma lhes sai pelos poros. Que alma? Deus”. Quem envia esses homens? Não sei. Tudo muda, exceto Deus. “Em seis meses, até a morte muda de figurino”, dizia Paul Morand. Mas Deus jamais muda, digo a mim mesmo. É bem sabido que Deus se cala, é um mestre do silêncio, ouve todos os pianos do mundo, é um consumado escritor do Não, por isso é transcendente. Não posso estar mais de acordo com Marius Ambrosinus, que disse: “Em minha opinião, Deus é uma pessoa excepcional”. (Página 23) Nota: Adquiri o e-book e recomendo.
Estatísticas
Avaliações
4 / 240- 5 estrelas35%
- 4 estrelas37%
- 3 estrelas23%
- 2 estrelas4%
- 1 estrelas2%






