Soldados de Salamina -

    Javier Cercas

    Edições Asa
    2002
    176 páginas
    5h 52m
    ISBN-13: 9789724131078
    Português

    Quando, nos últimos meses da Guerra Civil espanhola, as tropas republicanas retiram em direcção à fronteira francesa, a caminho do exílio, alguém toma a decisão de fuzilar um grupo de presos franquistas. Entre eles, encontra-se Rafael Sánchez Mazas, fundador e ideólogo da Falange, talvez um dos responsáveis directos por esse conflito fratricida. Mas Sánchez Mazas não só consegue escapar a esse fuzilamento colectivo, como depois, quando o procuram, é encurralado por um miliciano anónimo que inexplicavelmente lhe perdoa a vida. Viverá então emboscado, protegido por um grupo de camponeses da região, e recordará para sempre aquele miliciano de olhar estranho que, no momento fatal, não o denunciou. O narrador desta aventura de guerra é um jovem jornalista que se propõe reconstruir o relato real dos factos ocorridos e descobrir o segredo dos seus enigmáticos protagonistas. Mas que acabará confrontado com realidades bem diferentes das que seria lógico esperar…

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    Alexandre Figueiredo11/01/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    A arte de tornar o passado presente

    Um romance político que exige um leitor atento. Assim defino "Soldados de Salamina", livro dotado de uma narrativa eloquente e ágil. Javier Cercas parte de uma premissa instigante: o que leva alguém numa guerra a deixar de matar o inimigo? É a partir desse ponto que somos convidados a uma busca por respostas através de uma voz narrativa que conduz com competência nossos movimentos, pensamentos e elucubrações. Cercas está interessado, assim como seu compatriota Javier Marías, em refletir sobre a difícil distinção entre realidade e imaginação. E, assim como nosso João Ubaldo, que dedicou um épico esforço para construir sua obra-prima, "Viva o povo brasileiro", Cercas questiona a importância daquilo que é reportado ou ensinado como história e o que podemos realmente chamar de verdade. E a pergunta do autor é clara nesse sentido: o que faz de alguém um herói, ainda mais numa guerra? Cercas deixa algumas pistas como respostas nas linhas de algumas personagens. Mas o livro está muito além da política, pois o autor propõe uma meditação sobre a linguagem. Cercas testa estilisticamente o texto com o leitor. Há um livro dentro do livro. Há uma mescla, em determinados momentos, de reportagem e ficção, tornando-se uma espécie de thriller político, uma “narrativa real”. Nosso narrador, em uma das três partes, chama-se Javier Cercas e personagens reais são inseridos a favor da ficção, como o fascista espanhol Rafael Sánchez Mazas e até o escritor chileno Roberto Bolaño. São os jogos que movimentam a trama (e nossos olhos). O terço final é uma espécie de recompensa aos leitores. Afinal, ao chegarmos na última página da narrativa semi-ficcional de Cercas, concluímos o que minha epígrafe preferida profetizou para a eternidade, que "O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias." E Cercas entendeu muito bem isso.

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