Eduardo Galeano foi um homem feito de ideias. A cabeça inquietante desse uruguaio que infelizmente não está mais conosco tinha uma habilidade extraordinária de coletar os pormenores que cercavam seu olhar. Este O livro dos abraços é uma prova admirável disso.
Ele foi um escritor sul-americano privilegiado, mas de uma maneira diferente à de outros mestres, como Vargas Llosa e García Marquez. Galeano optava muitas vezes pela brevidade do texto, mesmo que sua percepção sobre os temas em nada fosse breve. Canhoto de ideias por convicção, ele viveu uma vida repleta de histórias, fossem elas boas ou ruins. Galeano foi um homem do século 20 e viveu colhendo amizades das mais diversas, desde guerrilheiros até militares. É desse universo que tirou a maior parte de sua produção e é com ela que se comunica como poucos com tanta propriedade e profundidade. A beleza que ele alcança em suas palavras ao falar do amor, da esperança, da desilusão ou da política atinge níveis difíceis de explicar dentro de nosso imaginário latino. A leitura de Galeano não é feita, é sentida. Suas histórias não se imaginam, elas nos tocam.
Em O livro dos abraços a viagem pode ser rápida, mas não espere indiferença ou comodidade. Galeano não foi feito para ser efêmero. Galeano fica conosco, ainda que fisicamente não seja mais possível vê-lo e agora possamos apenas imaginá-lo, assim como ele fazia com suas histórias. Talvez ele seja feito exatamente disso: de sentimentos tangíveis.