As coisas que perdemos no fogo -

    Mariana Enriquez

    Intrínseca
    2017
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9788551001448
    Português Brasileiro

    Macabro, perturbador e emocionante, As coisas que perdemos no fogo reúne contos que usam o medo e o terror para explorar várias dimensões da vida contemporânea. Em um primeiro olhar, as doze narrativas do livro parecem surreais. No entanto, depois de poucas frases, elas se mostram estranhamente familiares: é o cotidiano transformado em pesadelo. Personagens e lugares aparentemente comuns ocultam um universo insólito: um menino assassino, uma garota que arranca as unhas e os cílios na sala de aula, adolescentes que fazem pactos sombrios, amigos que parecem destinados à morte, mulheres que ateiam fogo em si mesmas como forma de protesto, casas abandonadas, magia negra, mitos e superstições. Uma das escritoras mais corajosas e surpreendentes do século XXI, Mariana Enriquez dá voz à geração nascida durante a ditadura militar na Argentina. Neste livro, ela cria um universo povoado por pessoas comuns e seres socialmente invisíveis, cujas existências sucumbem ao peso da culpa, da compaixão, da crueldade e da simples convivência. O resultado é uma obra ao mesmo tempo estranha e familiar, que questiona de forma penetrante e indelével o mundo em que vivemos.

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    Tatianne Dantas picture
    Tatianne Dantas11/09/2017Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Os contos desse livro se encaixam perfeitamente no que Freud chamou de "Unheimlich", o estranho que inquieta por ter algo de muito familiar. A sensação de medo que tive ao ler o que Mariana escreveu foi essa, de algum medo muito primário, infantil até - mas não são essas as sensações mais assustadoras? São pequenas histórias independentes entre si mas que guardam muitas semelhanças e algumas obsessões da autora: casas assombradas, crianças deformadas, lugares insalubres, corpos magros e desnutridos, loucura. Como todo bom livro pode ser lido com várias chaves e, além do terror, destacaria a política. Li em algum lugar que os contos de Mariana trazem à tona uma Argentina diferente da que estamos acostumadas a ver nos escritores mais conhecidos e tive também essa sensação. Ela escolheu lugares fora dos grandes centros para ambientar suas histórias e traz dentro da sua escrita todo o peso de esquecimento social que esses cantos carregam. Meus contos favoritos: A casa de Adela, O quintal do vizinho, Sob a água negra e o conto que dá origem ao nome do livro, As coisas que perdemos no fogo - um conto doído mas interessantíssimo para pensar o feminicídio. Aliás, a maioria dos contos traz personagens mulheres como protagonistas e a violência presente nos papéis que elas ocupam também é uma chave de leitura para ser levada em conta. Sem condescendência e sem transformar essa violência em fetiche como é o caso de outras narrativas. Os primeiros contos me lembraram um pouco o Cortázar na estranheza dos finais principalmente. Eles acabam literalmente do nada e com aquele gostinho de tem muita coisa por trás aí que eu vou precisar pensar bastante para começar a entender. Mas do meio pro fim as pequenas obsessões que falei anteriormente ganham um corpo que, pelo menos a meu ver, carregam uma assinatura muito própria da Mariana.

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