O livro fala sobre o Laboratório de Leitura/Laboratório de Humanidades que iniciou de maneira quase informal com encontros entre o professor Dante Gallian e alunos universitários para discutir alguma leitura desde artigos jornalísticos até textos filosóficos. Depois a discussão passou a ser sobre literatura de ficção e se tornou uma atividade de extensão dentro da universidade e projeto aplicado até em corporações como a Natura.
Ao longo do livro o professor de História e idealizador do projeto mostra com sua pesquisa o efeito humanizador da literatura de ficção clássica. Também são transcritos relatos marcantes de participantes dos encontros, um que me tocou foi o relato a seguir:
“Venho de uma família muito simples. Meu pai era um homem muito simples, mal chegou a completar os estudos, mas valorizava muito o conhecimento e a cultura. Era muito trabalhador e não deixava faltar nada em casa. Procurou sempre que estudássemos nos melhores colégios que ele podia pagar e, principalmente, todo dinheiro que sobrava ele investia na compra de livros, livros bons, principalmente clássicos. E assim, conforme meus irmãos e eu íamos crescendo, víamos a biblioteca da sala ir aumentando. Quase todo dia meu pai chegava com um livro novo e colocava na estante, dizendo: ‘Mais um pra coleção de vocês!?’ Nós olhávamos aquilo e não dávamos muita bola. Ele mesmo não lia, dizia que não tinha condições suficientes para ler aquilo, mas que sabia que era muito bom e que nós um dia iríamos ler. E assim a estante foi se enchendo de livros. De vez em quando eu dava uma olhada. Tinham muitos daqueles clássicos da Editora Abril, de capa dura, vermelha...Eu então olhava os nomes dos autores - nomes difíceis, estrangeiros - o título dos livros e tudo me parecia algo tão difícil, tão distante...Folheava aqueles volumes grossos, com aquelas páginas que não acabavam mais...Meu Deus, quanta letra, quantas palavras! Sabia que havia algo de muito importante e sério lá, mas quando tentava de fato ler algum daqueles livros quase não entendia nada...Me dava um sono, ou então um desespero...Com o tempo fui deixando de lado aquilo tudo; fui desistindo. Imagino o quão doloroso deve ter sido para meu pai, pois nenhum de nós, de seus filhos, se interessou por aquela biblioteca. Ele até que tentava, incentivando, pedindo, mas nós estávamos interessados em outras coisas...E assim, a biblioteca foi ficando como uma simples peça de decoração na sala. As pessoas que iam nos visitar se espantavam de ver tantos livros e nos perguntavam sobre o que falavam, mas a gente nem tinha o que responder, porque nenhum de nós tinha lido nenhum daqueles livros, pelo menos não um inteiro...
“Quando meu pai morreu minha mãe quis doar todos aqueles livros - ‘Nunca ninguém nem mexe nesses livros, fica só juntando pó’, disse ela - mas nós não deixamos; era como se estivéssemos desrespeitando a memória de nosso pai. E depois, eu ainda tinha esperança que algum dia eu mesma iria começar a ler aqueles livros; não sei, alguma coisa me dizia que era pra deixar os livros lá...E assim foi ficando e assim foi passando o tempo, até que um belo dia uma amiga veio me falar que estava participando de um grupo de leitura e que estava adorando, que estava transformando a vida dela. Ela estava tão animada e falava tanto desse tal de Laboratório! Ela me dizia que já tinha lido uns quatro livros maravilhosos e que os encontros eram fantásticos e que ela ia começar a ler um livro do Dostoiévski. Na hora lembrei desse nome e disse pra ela que eu tinha esse livro em casa. Ela então me disse: ‘Por que você então não aproveita e vem também? Vem, você vai ver que é demais!?’ Eu então respondi que aquilo não era para mim, que eu não conseguia ler um livro daqueles tão grosso e tão difícil. Mas ela insistiu tanto que eu acabei indo. Fui na primeira reunião, das Histórias de Leitura, sem obviamente ter lido nada. Trazia apenas o livro do Dostoiévski embaixo do braço.
“Qual não foi minha surpresa ao encontrar lá não apenas pessoas cultas, estudadas, mas também gente ‘normal’, gente comum assim como eu que estava lendo Dostoiévski pela primeira vez e que falava sem vergonha das dificuldades que estava tendo e também das surpresas; que não era assim tão difícil como parecia e que estavam até gostando! Isso me animou muito! E então, depois o coordenador também deu umas dicas muito boas e passou um número bastante razoável de capítulos pra gente ler até a semana seguinte. Saí de lá tão animada que já comecei a ler o livro no metrô, voltando pra casa. A partir daí não parei mais. Aquele encontro foi não só um incentivo, mas acho até que uma libertação - não era preciso que eu entendesse tudo e caso tivesse alguma dúvida podia trazer no próximo encontro, sem medo, sem vergonha.
“Nossa, que descoberta! Descobri que eu sabia, que eu podia ler aqueles livros todos; que aquilo tudo não estava escrito para pessoas de outro nível de inteligência, mas para gente normal e meio ignorante como eu! Ah meu Deus, como fiquei emocionada só de imaginar meu pai! Finalmente eu estava realizando o sonho dele. Finalmente um de seus filhos estava usando aquela biblioteca, lendo aqueles livros...E tudo isso por causa do Laboratório de Leitura...Hoje não fico um dia sem ler um par de páginas que seja. Se não leio algo parece que falta alguma coisa. É quase como se fosse passar um dia sem comer ou sem beber água. E aquela estante, aquela biblioteca do meu pai, deixou de ser uma peça de decoração; ela ganhou vida, os livros ganharam vida! E agora sou eu quem está comprando livros e fazendo aquela biblioteca crescer. O Laboratório de Leitura me transformou numa leitora. E isso quando eu menos esperava. Ah, como meu pai, esteja onde estiver, deve estar contente com isso!”
A leitura me deixou com vontade de participar de um projeto assim, um grupo de leitores que dividem suas experiências de leitura de maneira franca. Foi uma leitura interessante e me inspirou a ler mais e melhor.