Esse foi meu primeiro contato com o autor e ainda não estava familiarizada com suas ideias. Vou procurar ser sincera quanto às minhas impressões, mas minha perspectiva é apenas a do leitor leigo curioso, ok?
Quando comecei o livro tive dificuldade de entender o conceito principal e uma coisa me incomodava:
Porque Byung-Chul Han estava criticando o conceito de transparência? Como eu trabalhei anos com o serviço público, entendo a transparência como uma perspectiva democrática e humanista, importante no processo de redemocratização do Brasil e prática saudável dos governos.
No entanto, eu sabia que estava olhando para o livro pelo viés errado. Sabia que a discussão ocorria num espaço outro, o da filosofia. E que o conceito de transparência ultrapassava a questão das políticas públicas. Mesmo assim, no começo não conseguia entender o que motivava o autor. Isso me instigou: pensei que alguma coisa me escapava e eu não sabia reconhecer o que.
No decorrer da leitura fui entendendo o alerta que o autor estava fazendo. E sim, ele tem razão, e é uma perspectiva assustadora dos nossos tempos. Mesmo assim, só fui entender a motivação de Byung-Chul Han no último capítulo, quando ele mencionou brevemente o nome e a teoria de David Brin. Fui pesquisar no google quem é o sujeito e aí tudo ficou um pouco mais claro pra mim.
Brin é um escritor de ficção científica premiado, e também cientista e acadêmico, um influente e poderoso consultor em assuntos de tecnologia e investimentos futuros. Han, no livro, o descreve apenas como futurista.
Acontece que, em 1998, Brin publicou o livro The Transparent Society: Will Technology Force Us to Choose Between Freedom and Privacy. A meu ver, essa pequena obra de Han é sua resposta contundente ao livro de Brin.
Brin argumenta que diante das novas tecnologias e da internet, e consequentemente com o fim da privacidade, a solução para evitar o controle autoritário do Estado e das grandes corporações está no controle exercido pelo cidadão. Para ele, quando o indivíduo passa também a vigiar, a transparência mútua pode equilibrar o poder.
Han discorda totalmente dessa ideia. O que ele faz neste livro é mostrar que a sociedade da transparência esvazia nossa humanidade. Precisamos em nossas vidas de uma certa distância, de espaço, de privacidade, de máscaras, de mistério, de teatro. Precisamos de negatividade para que exista o público e a convivência coletiva. Quando estamos na bolha confortável, nos coletivos amigáveis, não estamos encarando o debate, o diálogo, ou vivenciando o que de fato é público. A transparência, segundo ele, não encara as diferenças, mas as padroniza. A transparência é autoritária, e mesmo que o cidadão possa fiscalizar, o que ele faz é monitorar a si mesmo, cobrar de si mesmo ou de seus pares. E faz isso com a ilusão de liberdade, quando na verdade está trabalhando para o capital, para o poder.
Descrevi tudo de forma simplista, Han embasa seus argumentos em grandes pensadores e desenvolve a ideia, passo a passo, com um olhar aguçado e certeiro tanto para a história quanto para a contemporaneidade. Mas não espere respostas, saídas, caminhos... Aqui existe reflexão, filosofia e análise, não é auto ajuda.
Achei que esse fosse um livro menor do autor e me surpreendi. O livro é essencial, pertinente e relevante, fiquei curiosa para conhecer mais de suas teorias.