Mary Barton é o primeiro livro de Elizabeth Gaskell, mais conhecida pelo renomado Norte e Sul. Mais do que obra de estreia da autora, o livro é um dos pioneiros da época em fazer da protagonista a heroína do enredo.
Mary é filha de um operário e sonha em ascender socialmente por meio do casamento. Ela vê uma possibilidade disso acontecer ao começar a ser cortejada por Henry Carson, filho do dono da fábrica onde o pai da jovem trabalha. Contudo, o fato de sempre ter sido amada por Jem Wilson, amigo de infância, a coloca em um triângulo amoroso capaz de afetar o destino de cada um dos envolvidos.
Elizabeth Gaskell transporta o leitor desde as primeiras páginas para a Manchester dos operários de meados do século XIX. Nela, enxergamos as situações de extrema pobreza e fome, além dos constantes embates entre a classe trabalhadora e seus patrões. Contudo, como a autora pertencia à burguesia, o livro foi considerado subversivo na época de sua publicação pela maneira sensível com que Gaskell retrata essa parcela da população, o que a levou focar na trama romântica de Mary Barton para atender o gosto dos leitores vitorianos. Independentemente do foco da obra, a verdade é que a escrita da autora tem um notável caráter sentimental, chegando até mesmo a beirar um tom dramático em algumas passagens.
O interessante da obra é como a autora consegue aliar diversos conflitos e, assim, proporcionar diferentes interesses durante a leitura: há o aspecto romântico, há uma trama de assassinato, há o caráter dramático e, sem dúvidas, há a perspectiva social. Sobretudo, há o delineamento das personagens, demonstrando as difíceis escolhas que acabam por enfrentar em decorrência de suas situações de vida. Nesse ponto, a figura de John Barton, pai de Mary, é uma das mais relevantes.
Apesar de ter achado a composição de Mary Barton interessante, a leitura não foi tão prazerosa quanto esperei. Não consegui me envolver tanto com a narrativa, além de ter achado seu tom sentimental às vezes exagerado: em vez de me comover, me dava a sensação de ser forçado, teatralizado. Também, o fato do romance ser construído em cima dos ideais da época — muito distantes dos que enxergo atualmente — fez com que esse ponto da trama não me cativasse, de forma que não me convenci sobre o envolvimento amoroso.
De qualquer maneira, Mary Barton traz uma história de amor com pitadas de drama e suspense sem deixar de ser o retrato de um importante período histórico através dos olhos de uma escritora da época. Sua obra tanto aponta para as condições do contexto em que viveu quanto demonstra sua visão de mundo, especialmente no que diz respeito à fé cristã, uma vez que a autora era bastante religiosa e esse é um tema importante no livro como um todo.