Salammbô foi tão inovador na obra de Flaubert e na literatura do seu tempo como cerca de um século mais tarde o seria A Sangue-Frio, de Truman Capote. Flaubert terminara Madame Bovary em 1856. No ano seguinte, o romance desencadeou um processo por «atentado aos bons costumes e à religião» e teve por isso um sucesso de vendas que não agradou ao autor. Flaubert chegou mesmo a dizer que todo aquele ruído era estranho à arte e que «la Bovary m’embête». Terá sido como reacção a um tal acontecimento que Flaubert se lançou a escrever um «romance cartaginês», com um novo método de escrita que passava pela acumulação prévia de «livros sobre livros, notas sobre notas» para «ressuscitar toda uma civilização sobre a qual nada possuímos». Em 1858, depois de um breve episódio de vida mundana em que conviveu com um pequeno clã de escritores (Goncourt, Sainte-Beuve, Baudelaire, Gautier, Renan e Feydeau) e em que esboçou o primeiro capítulo de Salammbô, Flaubert decidiu viajar para a Argélia e Cartago. Após dois meses de viagens em incómodas caravanas de mulas e de inúmeras notas, Flaubert regressou e alterou de modo radical o primeiro capítulo. «Era absurdo! Impossível, falso!», escreveu em 20 de Junho a Feydeau. Até final do ano completou três capítulos, começando com o famoso festim dos mercenários, fragmento inultrapassável na descrição da brutalidade e do desejo. Em poucas páginas, Flaubert constrói um monstruoso fogo-de-artifício da voracidade humana, não só pelas cenas e paixões que descreve, mas através da própria matéria das palavras. Em 1859, são redigidos os capítulos quarto e sexto de Salammbô e no final do ano entrou finalmente no «templo de Moloch». Em Julho do ano seguinte, Flaubert escreveu a Amélie Bosquet: «estou actualmente esmagado de fadiga, carrego aos ombros dois exércitos completos: trinta mil homens de um lado, onze mil do outro, sem contar com os elefantes com os seus condutores, os serventes e as bagagens». Ao longo do ano seguinte, encerrado em Croisset, Flaubert vai elaborando os restantes capítulos, inscrevendo a paixão de Mâtho e Salammbô num fundo de episódios guerreiros e religiosos. «Terminei finalmente, no domingo passado, às sete da manhã, o meu romance Salammbô», diz ele a Mlle. Leroyer de Chantepie, a 24 de Abril de 1862. O romance exigira-lhe cinco anos de trabalho. Colocado à venda a 24 de Novembro desse ano, o livro vende cerca de mil exemplares por dia e lança a moda cartaginesa. Flaubert responde às críticas de Sainte-Beuve numa carta reproduzida nesta edição. No ano seguinte, um elogioso artigo de George Sand a Salammbô marca o início da amizade e da correspondência entre os dois escritores.
Salammbô (Clássicos) -
Gustave Flaubert
A Cartago de Flaubert
Por volta de 1857, Gustave Flaubert começou a planejar o romance Cartago. Viajou até a África, visitando as ruínas da cidade, leu em torno de 100 volumes para embeber-se no tema - obras de História, Arte Militar, Patologia, Religião e outras. Em suas cartas, registrou o sofrimento que era dedicar-se à realização desse livro. "Que tema miserável! Eu passo alternadamente da ênfase mais extravagante à convenção mais acadêmica" escreveu ele ao escritor Ernest Feydeau em fins de 1857. Em 29-30 de novembro de 1859, ao mesmo amigo escrevia: "É preciso ser absolutamente louco para empreender livros semelhantes! A cada linha, a cada palavra, supero dificuldades de que ninguém terá idéia, e está certo talvez que delas não se faça idéia. Pois se meu sistema é falso, a obra estará fracassada." Salambô, como acabou por intitular-se o romance histórico sobre Cartago, é uma obra impressionante: páginas e páginas de descrições de ambientes, vestimentas, objetos, costumes, páginas descrevendo batalhas com vividez e crueza. O efeito da leitura é monumental, o que é curioso porque o livro em si é pequeno (168 páginas em letra miúda, margens apertadas, enfim, uma edição econômica; a edição mais volumosa que encontrei possui 216 páginas). Contudo, enquanto vamos lendo, Cartago ressurge - ainda que seja decerto a Cartago de Flaubert, não se trata de um feito desprezível - aos nossos olhos, majestosa, poderosa, soberba, despótica: sua riqueza entra-nos pelos olhos, apela a nossos outros sentidos (o tato: como se tocássemos seus tecidos finíssimos; o paladar: como se provássemos suas iguarias). Desde o primeiro capítulo, com o banquete dos mercenários durante o qual fica subentendido que não receberão seu soldo após a guerra, a leitura nos prende. À medida que o romance avança, acompanhamos a revolta dos mercenários, o encontro entre o soldado Matô e a filha de Amílcar, Salambô, o roubo da túnica do deus fenício Tanit, as batalhas entre os mercenários e os cartagineses, o cerco de Cartago, a fome e a sede, a captura e o destino horrendo dos prisioneiros de ambos os lados, tudo isso perpassado da mesma monumentalidade, da mesma impressão do grandioso. Flaubert era um grande escritor. A crítica considera Madame Bovary sua obra-prima. Pessoalmente, é no Flaubert experimental e satírico de Bouvard Pécuchet, no Flaubert escritor dedicado ao sacerdócio da Literatura nas Cartas, e agora nesse Flaubert meticuloso, fascinante e recriador de um mundo desaparecido em Salambô que encontro o gênio tantas vezes incensado; no escritor dessas últimas obras, encontro um escritor de minha predileção. Vale ainda observar: quantos, dentre os nossos pretensos teóricos e críticos literários, terão lido Salambô? Relembro os comentários de Boris Schnaiderman, impressionado com a brutalidade dos relatos de fome e loucura em Narrativa de Kolyma de Chalamov. É verdade: Chalamov descreve fatos, não ficção. Ainda assim, é difícil não crer nas descrições que Flaubert faz do cerco e dos esforços dos mercenários para tomar Cartago - a brutalidade dos combates, a chegada da fome que leva ao canibalismo, o desespero que leva à superstição: o sacrifício de crianças ao deus Moloque. Crueza. Horror. Recriação de um tempo e de uma cultura. Numa obra-prima de 1862.
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