Atualmente, este texto merece um mar quase infinito de elogios, recomendações, odes e demais gestos de engrandecimento da vaidade autoral, muito merecida por sinal. Escrito na década de 20, este ensaio com toque jornalístico e sabor de antropologia amadora, trata da questão dos judeus do Leste Europeu, sua identidade, costumes, ritos, religiosidade e assim por diante. Reflete sobre a condição judaica nessa dimensão mais pobre da Europa, pouco lembrada nessas "críticas" pouco trabalhadas dos progressismos moles daqui e dali. Discute, igualmente, qual a condição do judeu do Leste Europeu nos países ocidentais, onde mesmo seus fraternos foram já "europeizados", tornando-se antissemitas ou pelo menos preiconceituosos para com judeus "mais judeus". Política, sociologia e história se une num movimento concentrado a partir do qual Roth questiona e problematiza a figura do judeu no continente europeu. Contudo, sutilmente, se esconde na prosa delicada - ainda que direta - do autor um questionamento de tipo genuinamente filosófico a respeito do judeu enquanto tal, do que significa ser judeu em sua essência. A resposta: nômade. O judeu é o exilado desde tempos imemoriais, o primeiro individualista (que inclusive incinde sobre sua estrutura de pensamento largamente aburguesada) da história universal humana, os preceptores do mundo sem fronteiras cuja moral prevalecente é aquela instituída por Deus para todos os homens, eternos hóspedes nestas terras - ou seja, eternos exilados. É uma ilusão tomar a terra por sua, ela é o repasto de todos, a dádiva de Deus. Sou recordado da fala de uma personagem judia do filme A Vida é Bela: "Para trabalhar como garçom, você deve servir sem ser um servente. Como Deus, que serve, mas não é nosso servente". Esta ordem de questionamento leva Roth a inferir uma corrupção do espírito judeu no sionismo nacionalista, infelizmente necessário numa época em que, ou se torna um Estado-nação, ou perece. No fio da navalha, o judeu se vê transitando entre o desejo de possuir um lar onde não será maltratado, esnobado, ofendido e o apego à sua essência universalista que se vê indigna de tomar posse de terras. Donde seu anti-belicismo majestoso, sua recusa inexorável do serviço militar a favor de bárbaros em busca se sangue. Para que matar outra pessoa, outro homem, um irmão?, indaga o judeu e não encontra resposta. Para quê? Antes a dor, o sacrifício físico e moral (consultem a descrição do autor a respeito das estratégias utilizadas pelos judeus a fim de evitar o recrutamento) à ignomínia do assassinato legalizado. Nestas situações complicadas às quais estão sujeitos, a resposta judaica varia dependendo do tempo e do lugar. Alguns se submetem, passando a venerar o Estado hospedeiro - como os judeus na França -, outros se tornam nacionalistas convictos (e portanto criticados por Roth, que enxerga neles a mesma sina do europeu que invade terras estrangeiras em nome de alguma pátria, apesar dessas críticas serem sempre atenuadas pela condição mesma de judeu do autor; e que na época era de todo modo compreensível visto ser a questão do sionismo algo ainda insólito) e outros mais se vêem adeptos do comunismo, não exatamente por um processo de politização e organização, mas pelo sentimento de opressão contínua. Sobra, sempre e em todo caso, a essência íntima do povo judaico, esta essência de uma moral futura, intransigente, pouco afeita às loucuras genocidas dos mortais, cristãos ou não.
Como se pode constatar, é um texto quase perfeito. Quase. Por não ser de profissão, o método - para não dizer a falta de método - antropológico de Joseph Roth é terrivelmente egocêntrico e ocidental, qualidade aliás constantemente denunciada pelo próprio. Sua explicação dos hábitos e rituais judaicos se fia numa perspectiva fechada, explicativa na qual racionaliza os processos a deslindarem diante de si. O significado simbólico cede espaço à explicação semiótica, algo totalmente inadequado em sociedades cujo registro da produção mitológica é outro, distinto da confortável civilização antisséptica, nas palavras do próprio Roth. Em dado momento, ele requisita de mão fechada a presença de um rabino cotado para o mestre de cerimônias impedindo o avanço das pessoas. Depois de ser negado, ele insiste e mesmo ultrapassa os limites sociais daquela comunidade com o intuito de conseguir a entrevista desejada com o rabino. Ora, francamente, senhor Roth! Não está o senhor a agir exatamente como esses homens fardados tão duramente censurados em suas cortantes palavras? Sua posição de socialista, igualmente, acaba comprometendo a objetividade epistêmica e a compreensão antropológica. É venerável, não me entendam mal, e sua solução dialética para as mazelas dos judeus é magnifíca, digna de ser estudada por nossos acadêmicos de Hegel, Marx, Engels e demais filósofos da história. Entretanto, é esta posição que termina por reduzir o objeto visado às soluções pressupostas já nas falsas perguntas. Não estou defendendo, aqui, um ideal de objetividade máxima, abstrata - isto não existe. Porém, o compromisso com a estrutura de compreensão, oposta à estrutura de explicação, deve ser sempre preservada no limite do possível. Que não haja dúvidas, por mais judeu que Joseph Roth fosse, ele ainda era um estrangeiro; ele mesmo um judeu ocidental e, em seu caso, americano, vivendo o miasma da civilização do século XX.
Enfim, ainda que percalços sejam inevitáveis, é impossível condenar este texto. Com uma linguagem sintética, sem adornos desnecessários, comovente, melancólica e engajada, Judeus em Exílio te faz balouçar nessa barca desoladora na qual estava às vésperas da maior tragédia jamais presenciada pela humanidade. É neste instante, nesta triste realização, que os momentos mais radiantes do livro se tornam pura angústia, elegia do que não foi: da justiça inalcançada, da revolução não concluída, da alegria solapada. Depois, na década de 30, Roth escreveria sobre o regime nazista, nas formas do prefácio e do posfácio. Nada disso bastou, ninguém poderia prever ou retratar fielmente o que se seguiu.