Húmus -

    Raul Brandão

    Dom Quixote
    2010
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9789722023894
    Português

    Publicado pela primeira vez em 1917 e escrito durante a primeira Grande Guerra (1914-1918), “Húmus” é a primeira obra portuguesa de caráter existencialista – um movimento tornado popular durante o século XX em plena convulsão das guerras mundiais, como maneira de reafirmar a importância da liberdade e individualidade humana, em abordagens sobre a angústia existencial, a existência de Deus, a vida e a consciência. O título da obra, “Húmus” – o composto de detritos vegetais e animais, a parte fértil do solo, onde todos apodrecem “juntos na mesma terra misturada e revolvida”, como o próprio autor o refere – é o ponto de partida para uma análise temática sobre a morte e a regeneração da vida, numa perpétua continuidade. Temas muito próprios do existencialismo que se debruça sobre o sentido da existência da humanidade, ao mesmo tempo que a define. Quando saiu, a obra foi veementemente rejeitada tanto pelo público como pelos críticos literários da altura. Foi definida por muitos como sendo desnecessariamente complexa, sem uma estrutura narrativa concreta e impossível de catalogar. Realmente, o “Húmus”, não tendo os pressupostos necessários para ser um verdadeiro romance, também não é um ensaio nem é um diário embora esteja escrito nesse formato. Houve alguém que a definisse com “um poema contínuo” por ser quase um texto lírico, com questões filosóficas, mas escrito em prosa. Apesar da má recepção do público a obra teve um grande impacto nos meios literários, tanto que Raul Brandão passaria a ser apelidado como “o autor do Húmus”, apesar de escrever outras obras de grande aclamação e sucesso literário. Nada faria prever na altura que essa mesma obra era apenas o começo de um novo movimento literário e que influenciaria toda uma geração de novos escritores como Agustina Bessa Luís, Virgílio Ferreira, António Lobo Antunes ou José Saramago. O poeta e ensaísta David Mourão-Ferreira escreveria sobre o Húmus, anos mais tarde: “Acabo de reler o ‘Húmus’, de um fôlego, numa só noite, e dessa leitura saio, ao mesmo tempo, sufocado e eufórico, impregnado até aos ossos de uma sensação física de ‘mixórdia’ e de espanto.”

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    Denise Maria Souza João17/07/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Confesso que este livro não foi uma escolha imediata: eu adoro a Carambaia e volta e meia eu entro no site para ver as novidades. Húmus estava lá desde as minhas primeiras visitas, mas não me fisgava. Um dia mudei de ideia. Isto já revela um pouco sobre mim: eu não tenho ideias absolutas, eu mudo o tempo todo. Então tenho que escolher o próximo livro, Húmus está bem visível na estante, uma de minhas últimas aquisições. Faço o que não é costume: abro numa página aleatória e leio isto: "Para não ver, para não ouvir, é que nos curvamos sobre a mesa de jogo. Para te não ouvires a ti mesmo, para não veres o que te gasta a todos os minutos e a todas as horas, usura imensa que não sentes e que te vai levar para o escantilhão sôfrego, que te vai mergulhar no silêncio profundo. Usura de todos os instantes. Gasta-nos, desgasta-nos. E todos os dias acordamos mais velhos, todos os dias acordamos mais inúteis. Todos os dias acordamos com mais fel. E todos os dias com mesuras, sem gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de jogo, não vendo, fingindo que não existe, o espanto que está ao nosso lado, o espanto pior que trazemos conosco. Chama-se a isto o cotidiano. Isto não tem importância nenhuma. Com isso enchemos a vida até chegar a morte. (...)" Pronto, me ganhou! Descobri que Húmus é como eu... rs... um turbilhão de emoções, sensações e pensamentos que se confundem, às vezes de forma coerente, às vezes não; às vezes são tantas reflexões ao mesmo tempo que elas jorram aos borbotões sem filtro, é preciso atenção. Noutras, os personagens são tão palpáveis que é como se estivessem ao meu lado. É uma leitura difícil pela forma narrativa, mas ao mesmo tempo tão fácil pelos conflitos que apresenta! A vila - e suas figuras femininas - é o ponto de partida, o cenário para as reflexões do autor, mas não há uma história: é um verdadeiro fluxo - e refluxo - de consciência. Se não quer quebrar a cabeça, não leia este livro.

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