Esse não é um livro que toca apenas em questões teóricas. De certa forma, Safatle está incomodado com os horizontes políticos da nossa sociedade e certa incapacidade de trabalhar efetivamente questões do contemporâneo a partir de uma perspectiva prática. Para elaborar tal plano de ação ele primeiramente nos coloca diante do nosso cenário ideológico, com o medo sendo entendido como afeto primordial de gerenciamento de massas. O autor utiliza então Hobbes para começar a pensar como o medo se impõe dentro do espectro político e propõe o "desamparo" como uma espécie de afeto substituto, um afeto que, apesar de à primeira vista parecer triste, na verdade seria absolutamente positivo, no sentido de abrir possibilidades de desenvolvimento que fujam para uma lógica de determinação neoliberal já posta.
A segunda parte do livro trabalha com Hegel e Marx de forma mais aprofundada, usando os teóricos para se pensar uma perspectiva de temporalidade que não exclui o campo do impossível, pelo contrário, encontra nessa perspectiva a dimensão do aberto em que transformações se impõem e podem de fato ocorrer. É só através de uma temporalidade revisitada que o sujeito contemporâneo pode enfim produzir significantes novos para movimentar-se de fato dentro do tecido social.
Na última parte do livro Safatle fala sobre a teoria de reconhecimento proposta por Honneth. A ideia é criticar tal tradição político-teórica que trabalha com o reconhecimento como condição de emancipação. Honneth seria insuficiente por abordar o conceito a partir de um viés limitado, que delimita deliberadamente a discussão do reconhecimento dentro de um horizonte Winnicottiano que trabalha a relação mãe-bebê como ideal e lugar fundamental de segurança, mas sem mencionar as questões propriamente angustiantes dessa relação intersubjetiva, permeada por movimentos de despossessão e inconformidade do bebê em relação à normatividade imposta pela mãe. O reconhecimento de Honneth é muito paradisíaco, e Safatle propõe assim um resgate da lógica lacaniana de reconhecimento para propor soluções para esse impasse teórico.
A partir daí, Canguilhem é trabalhado no intuito de operar reflexões sobre uma filosofia que se ocupe da vida e consequentemente do corpo político dos sujeitos. Não existe política sem corpo e esse resgate seria interessante para desvincular essa instância de uma perspectiva biopolítica nos moldes estritamente foucaultianos, determinados estruturalmente por uma lógica normativa de (des)subjetivações.