Prazer, Drummond
Certas coisas me deixam perplexo na vida. Uma dessas perplexidades aconteceu nos últimos anos ao ler este "Alguma poesia", primeiro livro publicado pelo gigante Carlos Drummond de Andrade. Sempre tive curiosidade de ler o poeta mineiro de verdade, fugir das armadilhas proporcionadas pela internet. Despretensiosamente comprei este livro. Entretanto, vocês não podem imaginar a minha surpresa ao descobrir que esta obra foi a carta de apresentação do poeta ao mundo. Nela estão, simplesmente, três dos principais poemas da língua portuguesa. Conversando com uma amiga minha que estimo muito, apontei que havia poucas resenhas ou comentários para este livro, o que chamou minha atenção. Em resposta, ela me disse: "poesia mexe com os sentimentos, talvez seja por isso". E é a mais pura verdade. Algo tão simples que eu nem tinha percebido... Em "Alguma poesia" os sentimentos são despertados em cada um de nós, mesmo que a conexão entre o poeta e os leitores seja fraca ou, pior ainda, não exista. A questão é que você vai ler algo que não há igual por aí. Aliás, este é um livro incrível para apresentar o que foi o movimento modernista do Brasil em todos os seus campos artísticos e, de quebra, mostrar a beleza que só a nossa poesia possui. Eu tenho problemas com versos livres, confesso. Entretanto, a maneira como Drummond dispõe seus versos no papel, a sua quebra brusca com os formalistas em alguns dos textos, é cativante. Além dos conhecidíssimos "Poema de sete faces", "No meio do caminho" e "Quadrilha", destacaria a ironia fina do eu lírico em "Também já fui brasileiro", "Política literária", "Cidadezinha qualquer" e "Explicação"; a melancolia presente em "Sentimental", "Nota social", "Poesia" e "Música"; e, por fim, não posso deixar de citar a precisão sobrenatural na escolha das palavras em "Cota zero" e "Quero me casar". Drummond lançou este livro em 1930 e, 90 anos depois, época em que escrevo minhas humildes impressões, é quase ensurdecedor perceber como ele estava à frente de seu tempo. Uma das leituras mais prazerosas que já fiz.








