Pós-extrativismo e decrescimento (Alternativas) - Saídas do labirinto capitalista

    Alberto Acosta, Ulrich Brand

    Elefante
    2018
    224 páginas
    7h 28m
    ISBN-13: 9788593115196
    Português Brasileiro

    Acosta nasceu em um pequeno país da América do Sul rico em recursos naturais e dono de uma das maiores biodiversidades do planeta. Brand vem da nação mais poderosa da Europa, reconhecida pelas indústrias de alta tecnologia. As distâncias não impediram, porém, que se juntassem para pensar alternativas complementares para o velho e o novo mundo. “O pós-extrativismo e o decrescimento são duas faces da mesma moeda”, escrevem. Como se verá neste livro, o pós-extrativismo surge da resistência centenária dos povos latino-americanos, sobretudo das populações indígenas. Sem ceder a romantismos, os autores veem nos modos de vida tradicionais andinos e amazônicos exemplos de como deter o progresso e o desenvolvimento — que, como sabemos, destroem o meio ambiente, concentram renda e promovem desigualdade. O decrescimento se origina na Europa, contrariando a ideia de que o crescimento econômico infinito é um caminho viável para melhorar a vida das pessoas. Típico do regime capitalista, este raciocínio desconsidera os impactos sociais e ecológicos do crescimento; seus defensores parecem esquecer que a evolução tecnológica dos países desenvolvidos depende da exploração de matérias-primas no mundo subdesenvolvido. Pós-extrativismo e decrescimento contrariam radicalmente tais princípios. Até porque já não há dúvidas de que estamos depredando a Natureza em uma escala muito maior do que sua capacidade de regeneração. Além disso, a úlima crise do capitalismo não parece arrefecer: pelo contrário, continua avançando sobre direitos sociais e ecossistemas. Na Europa — e, agora, também na América Latina — as políticas de austeridade estão fazendo com que a pobreza e a desigualdade voltem a aumentar: o Estado de bem-estar social sucumbe diante do mercado financeiro, enquanto novas fronteiras petrolíferas, mineiras e agropecuárias engolem a vegetação nativa, atropelando os Direitos Humanos e os Direitos da Natureza. Acosta e Brand são categóricos: não existe justiça social sem justiça ambiental, e vice-versa. No momento em que a chamada “onda progressista” abandona a América Latina, e que a extrema-direita cresce em todas as partes, os autores apontam a necessidade urgente de alternativas que superem — e aperfeiçoem — a modernidade. Se nem as experiências socialistas nem as progressistas conseguiram romper com as ideias de progresso, desenvolvimento e crescimento, é preciso apurar a reflexão. O pós-extrativismo e o decrescimento atacam o cerne do capitalismo. Para Acosta e Brand, o freio à exploração maciça dos recursos naturais na periferia do sistema deve aliar-se a uma reversão — não apenas a uma interrupção — do crescimento nos países centrais do capitalismo. “Estas discussões se nutrem da imperiosa necessidade de promover uma vida harmoniosa entre os seres humanos e entre os seres humanos e a Natureza. Este é, definitivamente, um grande desafio para a Humanidade — e implica ter em mente uma mudança de eras.” Eis uma tarefa extremamente complexa e repleta de percalços, que os autores — renomados intelectuais críticos — não deixam de apontar. A começar pelo próprio nome: haveria maneira mais eficaz de expor as visões de mundo propostas pelo pós-extrativismo e pelo decrescimento? Seria melhor falar em Bem Viver, mas a saída do labirinto capitalista não é apenas uma questão terminológica. Por isso, o debate não se encerra em nomenclaturas. Em tempos de desesperança, este livro surge como um convite a caminhar radicalizando a democracia. “Porque precisamos de sempre mais democracia, nunca menos.”

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    Jess Carmo08/01/2022Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O crescimento econômico permanente é impossível

    Os autores entendem que o extrativismo é um dos principais conceitos que ajudam a explicar a origem do capitalismo moderno. O extrativismo é a prática de explorar grandes volumes de recursos naturais. Essa prática promove grandes impactos econômicos, sociais e ambientais nos territórios em que esses recursos são retirados. Um conceito chave da obra é o de modo de vida imperial. Trata-se de ter automóveis, comer carne quase diariamente, possuir imóveis etc. Para os autores, esse modo existe desde a época colonial, porém era restrito às classes mais abastardas. Apenas e meados do século XX esse modo de vida se popularizou no cotidiano das pessoas do Norte global e mais tarde no Sul global. O problema é que esse modo de vida implica também o aumento de exploração de recursos naturais para financiá-las. Ou seja, implica o aumento de exploração de territórios, exploração de mão de obra barata e descarte de objetos, criando oceanos de lixo. Além disso, existe uma série de incentivos desse modo de vida, já que é ele que passa a sustentar a acumulação do capital. Entretanto, não se trata de uma crítica ingênua ao aumento do consumo. Não é uma obra que pretende mudar o estilo de vida das pessoas individualmente, até porque esse modo de vida imperial não é uma escolha individual, mas uma imposição do capitalismo. Dessa forma, não estamos falando apenas de um problema ambiental, mas de um problema econômico-social. Assim, a economia verde não é uma solução, já que continua a reproduzir os padrões de mercado do capital. Portanto, não poderemos resolver a crise ecológica se não questionarmos os padrões produtivos que a provocou. Segundo os autores, "pode parecer paradoxal, mas os rejeitos e o lixo são também objetos de acumulação do capital. Os negócios possibilitados pela reciclagem e pelo reuso de matérias-primas [...] são enormes. Tais negócios se multiplicam, e pouco têm a ver com o aproveitamento sustentável do desperdício. Além disso, frequentemente submetem os seres humanos e os territórios a condições de extremas precariedade" (p. 86). Os autores entendem que o mundo não é um reservatório inesgotável de recursos naturais e que sem justiça social nunca haverá justiça ecológica, já que não é a natureza que está em crise, mas as formas sociais que organizam como as pessoas se apropriam da natureza. Precisamos entender que a natureza não é externa à sociedade. Um dos principais motivos que levam a essa crise social é o entendimento de crescimento econômico. Só seria possível crescer gradualmente todo ano se os recursos naturais fossem, de fato, ilimitados. Como não são, para que um país possa crescer é necessário subjugar outro e disputar os recursos naturais. A pressão pela redução dos direitos trabalhistas também se torna fundamental para a sustentação de crescimento econômico. Precisamos, portanto, reestruturar nossa organização social-econômica. Os autores apostam na ideia de decrescimento, a saber, "um projeto multifacetado que pretende mobilizar apoio para uma mudança de rumos, tanto no nível macro das instituições econômicas e políticas, quanto no nível micro dos valores e das aspirações individuais. Neste caminho, muitas pessoas verão sua renda e suas comodidades materiais diminuírem, mas o objetivo é que não encarem esta redução como uma perda de bem-estar" (p. 117). Para isso, é necessário apostar também em novos "princípios normativos como a cooperação, a reciprocidade, a solidariedade e a justiça social" (ibid). Além disso, também é necessário colocar em xeque o próprio capitalismo.

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