Em O amor, esse obstáculo, Micheliny Verunschk encerra sua trilogia sobre a ditadura militar brasileira com um romance intenso, perturbador e profundamente humano. A obra articula memória pessoal e memória coletiva para investigar como a violência de Estado continua a reverberar dentro das famílias, dos corpos e das relações afetivas.
A narrativa é conduzida por Laura, filha de um delegado que atuou como torturador durante a ditadura, conhecido pelo codinome de Capitão Garrote. A morte suspeita do pai funciona como ponto de partida para uma jornada de retorno — à cidade natal, à casa da infância e, sobretudo, ao passado que foi silenciado. Ao tentar compreender os crimes políticos cometidos pelo pai, Laura também revisita a violência doméstica, o feminicídio e os abusos normalizados dentro do espaço familiar.
Um dos grandes méritos do romance está no cruzamento entre repressão política e violência de gênero. Verunschk mostra que essas violências não são paralelas, mas estruturalmente conectadas, sobrevivendo ao fim formal da ditadura. A casa, símbolo tradicional de abrigo, surge como espaço de horror — uma “casa-canibal” — onde o autoritarismo se manifesta em sua forma mais íntima.
A linguagem da autora é densa, poética e fragmentada, refletindo o próprio funcionamento da memória. O romance incorpora documentos, listas de mortos e desaparecidos políticos, referências literárias e depoimentos, aproximando-se, em certos momentos, de um relatório de comissão da verdade. Esse recurso reforça o compromisso ético da obra com o resgate da história e com a recusa ao esquecimento.
O título do livro sintetiza um de seus eixos centrais: o amor como obstáculo. Amor que cega, que silencia, que aprisiona — seja no âmbito familiar, seja na tentativa de conciliação nacional que evitou a responsabilização dos crimes da ditadura. Ao questionar esse amor, o romance propõe a memória, a verdade e a justiça como caminhos possíveis de enfrentamento.
O amor, esse obstáculo é uma leitura exigente, mas necessária. Mais do que revisitar o passado, o livro confronta o presente, lembrando que a história não resolvida continua a cobrar seus custos. Trata-se de uma obra poderosa da literatura brasileira contemporânea, que transforma dor em reflexão e memória em resistência.