A máquina de fazer espanhóis

A máquina de fazer espanhóis Valter Hugo Mãe
Valter Hugo Mãe




Resenhas - A Máquina de Fazer Espanhóis


65 encontrados | exibindo 61 a 65
1 | 2 | 3 | 4 | 5


Romeu.Silveira 18/07/2018

a humanidade que ainda não começou
Uma notícia marcou a minha leitura de A Máquina de Fazer Espanhóis: uma senhora foi abandonada na frente de um asilo, e como negaram o acolhimento por falta de vagas, ela foi transferida para uma delegacia de policia onde passou a noite_uma das mais frias do ano. Eu deveria estar no começo do livro quando isso aconteceu, então a minha primeira impressão foi a de que realmente os idosos são apenas ocupantes desses lugares, nada mais que ocupantes, como o sr. Silva repete algumas vezes no livro. Não, não é um livro feliz e positivo como O Filho de Mil Homens, é um livro cruel, pessimista, que expõe todas os dramas de um final de vida: as relações com os filhos, as lembranças das pessoas que amou, as experiências do passado, as novas relações com os novos amigos do asilo/casa de repouso. Enquanto esses idosos caminham para o fim, acompanhamos as histórias de cada um, com suas peculiaridades, seus últimos desejos, tudo na visão do sr. Silva. Não faltam discussões políticas sobre a ditadura portuguesa, e uma reflexão sobre o "fascismo dos homens de bem", sobre o moralismo, e um capítulo maravilhoso sobre religião. Não é meu preferido do Valter Hugo Mãe, mas isso não significa que foi uma leitura ruim, pelo contrário, me colocou diante de várias questões e feridas abertas durante a vida de uma pessoa. Valter Hugo Mãe, em algumas palestras, gosta de afirmar que a "humanidade ainda não começou", e diante da notícia que me acompanhou durante a leitura desse livro, só posso acreditar que estamos bem longe desse começo.
comentários(0)comente



Livrogram 21/10/2012

A Máquina de Fazer Espanhóis foi o último livro de tirar o fôlego e repensar a vida que li nos últimos meses. Como um tema tão pesado pode ser tratado com tamanha leveza? E talvez, ainda me pergunto, se a palavra é realmente leveza. O texto fala sobre um senhor que perdeu sua mulher e foi colocado pelos filhos em um asilo. Uma história que é extremamente triste. Já. Mas o texto transforma o processo de morte desses asilados em uma aventura metafísica de uma sutileza impressionante.

O humor é leve beirando o ácido, incomoda lá de dentro, não parece nunca partir das palavras o incômodo. As referências sobre Portugal são tão sinceras que me senti de novo lá. Comprei o livro em lisboa quando estava voltando para o Brasil e ele prolongou minha viagem por mais um mês pelo menos. E despertou de uma vez por todas o meu amor pela língua portuguesa e suas possibilidades.
comentários(0)comente



Aurea.Cristhina 24/09/2017

Um livro surpreendentemente belo.
Uma narrativa brilhante, pungente, pujante, que nos enleva, eleva e nos mergulha em profundas introspecções. Faz-nos voltar os olhos para fatos inexoráveis da vida para os quais nunca estamos preparados, como sobreviver a quem amamos, arrepender-se do irremediável e envelhecer.

A estória se passa num asilo para onde o narrador foi levado após a morte de sua esposa. Um local onde conviviam 93 pessoas, às voltas com seu próprio modo de enfrentar ou render-se à velhice, às vezes permeando os dias com a leveza das peraltices infantis, outros lidando com a doçura de uma experiência tardia(?) do amor tal como adolescentes ou enfrentando tudo anestesiados pela prostração e isolamento, cegando-se voluntariamente para o mundo ao redor com a “cegueira que não apura sentidos alternativos” como poeticamente bem descreve o autor.

Ser-se velho é estar às portas de não mais existir e a iminência da morte faz com que os personagens vivam em permanente alteridade entre o pavor e o fascínio, entre a amargura pelo fim e a ânsia pela libertação que isto representa.

Para suportar a “feliz idade” - numa alusão à contradita do nome do asilo, António Silva, o narrador, usa seus contrariados primeiros dias no asilo a observar “um conjunto de abandonados a descontar pó ao invés de areia na ampulheta do parco tempo”.

“(...) éramos sempre noventa e três pessoas no feliz idade (...) como um universo perfeito, completo, que se alimenta dos restos de tempo que as pessoas têm. os nossos restos, todos juntos, fazem a vida dos funcionários, (...) onde nos habituávamos a ir fechando o mundo”

A decadência física é o fardo comum a todos os que o cercam, lutar contra o próprio corpo é desperdiçar as poucas forças que restam:

“(...) o nosso inimigo é o corpo. ser velho é viver contra o corpo até chegarmos a um momento em que a luz do sol nos parece uma dádiva inestimável e vale a pena viver apenas para fazermos a fotossíntese das tardes”

A perda da esposa é um sofrimento que o narrador se nega a abandonar. Revolta-se quando alguém busca resgatá-lo da dor

“(...) eu queria muito que a minha velhice não tivesse de ser a sobrevivente do casal, porque a laura, com o seu modo de resistência, saberia implodir melhor do que eu, mantendo intacta a estrutura exterior, atendendo sem falha aos apelos quotidianos dos nossos. eu queria ser o lado pragmático do casal. mas eu era o dos poemas, o lado burro e incompetente dos afetos.”

“(...) não passa, américo, não passa. a morte dela não passa”

“(...) eu queria ir ver o lugar onde ela estava e talvez desfazer-me em átomos por não o suportar”.

Quando a filha finalmente o leva ao túmulo ele pisoteia as flores com que amorosamente ela tenta homenagear a mãe, com a mais profunda indignação, numa narrativa absolutamente tocante, que me levou às lágrimas:

“(...) eu estava sobre o túmulo da laura como por direito próprio, a desfear as flores para que restassem por todo o lado punidas pela beleza que queriam trazer àquela morte. nenhuma beleza havia de se erguer levianamente diante de mim naquele lugar onde devia tanger o corpo da minha mulher. nenhuma beleza vestiria aquela brancura para me enganar do vazio da pedra, do frio da pedra, do modo como a pedra nem ouvia nem falava.

(...) estas flores não podem nada contra o que ela era, não são nada para a dignidade que ela tinha e para o amor que nos uniu.”

Para além das experiências da perda, da solidão e da velhice, a narrativa conduz ainda a uma análise reflexiva bastante interessante sobre a identidade do povo português e de Portugal e sua história.

Depois de demonstrar de muitos modos a familiaridade de Silva com a tradição poética portuguesa e com a arte da poesia, percebida e vivenciada de modo intenso e afetuoso, surge um personagem curioso que, em sua complexa relação com o narrador, suscita uma série de questionamentos sobre si mesmo, sua memória pessoal e social.

Trata-se de Esteves, o homem que, segundo a estória, teria inspirado um dos versos do poema Tabacaria de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa . Esteves seria o "homem sem metafísica" retratado no belíssimo poema.

“(...) também no lar da feliz idade havia mitologia viva e pronta a abrir bocarras de espanto. o esteves. o elegante e eterno esteves sem metafísica que vivia ainda, falando e contando as suas aventuras, como se os livros aumentassem. como se a tabacaria e o álvaro de campos e o fernando pessoa tivessem uma continuação.”

“(...) aquele homem é alguns dos melhores versos do fernando pessoa. aquele homem é a nossa poesia problematizada. e a longevidade dele foi uma demorada marcha contra a derrota (…)

“(...) o esteves foi um delírio, doutor bernardo, que estupidez a minha a de acreditar que fora personagem do pessoa, uma personagem tão fictícia quanto possível. era uma fantasia e eu caí nela porque queria tanto encontrar algo que me sustentasse diante do sol.”

Através desse belo exercício de intertextualidade com a obra de Fernando Pessoa, o narrador é levado a refletir sobre sua história e a história de seu país. Em meio à essas divagações relê o poema e é relido por ele nos dando uma riqueza sem tamanho nas muitas ponderações que fez às voltas disso para, ao fim, concluir que o sistema que o formou e deformou é na verdade uma “máquina de tirar a metafísica às pessoas”

“(...) a ditatura, senhor silva, a ditadura é que foi uma terrível máquina de roubar a metafísica às pessoas”

“(...) somos cidadãos não praticantes”

“(...) e eu fiquei só a ver aquele rosto, o rosto de um homem com mais quinze anos do que eu, sorridente, aberto, limpo ao mesmo sol que nos cobria, e era como se o próprio maravilhoso genial lindo fernando pessoa ressuscitasse à minha frente, era como dar pele a um poema e trazê-lo à luz do dia, a tocar-me no quotidiano afinal mágico que nos é dado levar, era como se alice viesse do país da fantasia para nos contar como vivem os coelhos falantes e as aventuras de faz-de- conta”

Lamentei conhecer tão pouco a história de Portugal porque são abundantes os paralelos feitos a partir das reflexões do protagonista.

António Jorge da Silva nos ensina a reconhecer nossas fragilidades, nossas falhas, nossas omissões, a regenerar nossas crenças e fortalecer nosso poder de adaptação do corpo com o meio, da alma com o sofrimento.

Este livro fala sobretudo de amor. Sobre um homem que aos 84 anos ainda nutria um visceral e intenso amor pela sua esposa, mesmo depois de cinquenta anos de casados.

Alguém que, tomado de amargura pela morte do seu amor e profundamente magoado com sua filha por levá-lo ao asilo, ainda encontra forças para escolher o caminho sublime e sobremodo excelente do perdão. A grandeza do gesto foi reproduzida com igual grandeza na genial e emocionante narrativa desse momento:

“(...) levantei-me. fui ao gabinete do doutor bernardo e vi a minha elisa aterrada como ficava desde pequenina quando as situações eram maiores do que o seu pensamento e o seu coração não sabia como parar de sofrer. abracei-a e beijei-a. precisava ainda de mim aquela mulher de quarenta e nove anos. era ainda pequena, como acho que somos todos nós para as coisas mais tristes. o doutor bernardo deixou-nos sozinhos mas eu não quis mais conversar. quis só que ela ficasse com aquela espécie de breve perdão, o único que eu conseguia dar-lhe, era um perdão rápido e pequeno. como se também eu pudesse, num momento, usar um coração para sentir menos as coisas ou ser uma espécie qualquer de sovina. fazia-me lembrar de quando a Elisa andava de balouço e pedia que a empurrássemos para ir mais veloz e mais alto. e eu fazia-o também divertido com ela. pois, naquele dia, aquele abraço e aquele beijo eram um só único empurrão. significava que queria que ainda vivesse com alguma alegria e fosse ainda mais alto. mas as forças não me permitiam continuar naquilo a tarde inteira.”

Por fim, como não falar na forma da narrativa. Valter Hugo Mãe usa um expediente bastante original: o uso exclusivo de letras minúsculas e de uma pontuação que não divide, no discurso direto, as falas dos interlocutores nem diferencia as interrogações das afirmações ou das exclamações.

De início tive muita dificuldade com isso....não conseguia ganhar fluência na leitura, incomodava-me muito a inadequação.

Depois, ao perceber que poderia, sem o uso desses recursos pelo autor, como leitora ,dar minha própria cadência e ritmo ao texto, o exercício de leitura passou a ser muito prazeroso e bastante interessante.

Há ainda a cuidadosa escolha dos títulos dos vinte e dois capítulos que formam o livro. Muitos escritos como sentenças causam uma tensão expectante por vê-las desenvolvidas: “a brancura é um estágio para a desintegração final”; “o amor é uma estupidez intermitente, mas universal”;"deus é uma cobiça que temos dentro de nós"; “precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia”, são alguns.

E ainda a capa... para além de linda a obra de Lourenço Mutarelli remete à várias passagens do livro quando o narrador, na madorna de várias noites, era perturbado pela sensação de estar rodeado de abutres a sobrevoarem seu leito. De início, a capa me parecia apenas uma arte abstrata, uma gravura de um marmorizado bonito. Foi de repente, no manuseio, que me surgiram mimetizados os abutres e isso me causou agradável surpresa e encantamento.

Por fim recomendo fortemente a leitura e ainda destaco a beleza de mais um verso da prosa poética maravilhosa do Valter Hugo Mãe presente em todo este livro.

"O ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas."
comentários(0)comente



LER ETERNO PRAZER 18/01/2018

Somos todos Silva neste país.
A máquina de fazer espanhóis - Valter Hugo Mãe.
Valter vai nos contar a história de Jorge António da Silva, um senhor de 84 anos.Tudo começa quando o Sr. Silva encontra-se no hospital aguardando notícias de sua esposa Laura. O tempo passa,quando o médico vem lhe informar que sua esposa veio a óbito (não é spoiler pois isso acontece nas primeiras paginas). A partir daí começa o drama do Sr. Silva além de perder o grande amor de sua vida, a primeira atitude de sua filha é coloca-lo em um lar para idosos. Triste com a morte de sua amada esposa e o abandono de sua filha ele vai para o lar "Idade Feliz". É no"Idade Feliz" que vamos acompanhar o drama do Sr. Silva.Valter Hugo Mãe vai nos mostrando nessa obra maravilhosa o dia-a- dia, as frustações o abandono, a melancolia que todos os idosos sentem ao serem colocados nesse lares. Hugo Mãe mostra que mesmo nos últimos anos de vida somos capazes de ter sentimentos de amizade,comoanheirismo, podemos perceber em cada página a maestria que Hugo Mãe nos transmite todo sentimento profundo contido nessa obra. Ao iniciar a leitura,pensei que o livro monótono e de difícil leitura mas a cada página que virava mais é mais me vinha a necessidade de absorver cada linha,cada palavra, uma leitura maravilhosa.????
comentários(0)comente



Jaime.Azevedo 15/06/2018

Semiárido
"a máquina de fazer espanhóis", de valter hugo mãe, é uma benção e uma maldição.

A temática humana (idosos em um asilo e suas histórias de vida, e as reflexões sobre a proximidade da morte) é universal, pungente e arrebatadora. As pequenas aventuras dos velhinhos mescladas às reflexões sobre a ditadura de Salazar e o próprio "ser português" são um prato cheio, transbordando de metafísica.

O que não ajuda é a forma. O texto em si é fluido, não é erudito ou excessivamente poético, mas todo escrito em minúsculas. Usando apenas vírgulas e pontos finais, o livro é artificialmente árido, difícil. O desafio maior deveria ser a profundidade das ideias, não sua leitura... Por mais brega ou selvagem que possa parecer essa sentença, eu PRECISAVA FALAR!

O protagonista, António, internado à força no asilo, vai se esvaziando no decorrer da trama - que poderia utilizar mais um pouco de tensão narrativa. As constantes interrupções do enredo para que o autor expresse suas opiniões no fluxo de consciência do personagem acabam quebrando ainda mais o ritmo. Incomoda um pouco a exposição ostensiva dos temas: quase nenhuma metáfora fica implícita em "a máquina de fazer espanhóis". O livro é rico em elementos extratextuais: a sociedade portuguesa e suas relações com a Espanha, futebol e Fernando Pessoa - referências astutas, extremamente bem utilizadas e instigantes que ajudam a formar um painel sobre a alma portuguesa. O texto brilha quando se permite narrar: as passagens cômicas são impagáveis e os coadjuvantes são cativantes.

Uma impressão, leviana, é que o livro parece ter sido feito através de engenharia reversa: formatado como a crítica literária gostaria que fosse. O que só escancara ainda mais seus méritos quando, mesmo assim, consegue cativar e fazer pensar sobre a morte e o autoritarismo.
comentários(0)comente



65 encontrados | exibindo 61 a 65
1 | 2 | 3 | 4 | 5