A Cabeça do Santo

A Cabeça do Santo Socorro Acioli




Resenhas - A Cabeça do Santo


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Cacau 17/02/2015

Um livro leve e alegre
O primeiro livro lido de 2015 (segundo na verdade li "O Pequeno Príncipe" para as minhas filhas), foi "A Cabeça do Santo" da autora Socorro Acioli, uma ótima surpresa e um ótimo começo pras leituras do ano.
Conheci a autora através desse vídeo no canal da Melina Souza e simpatizei com ela logo de cara, procurei e-books dela e o único que encontrei foi esse, veio pra minha pequena fila e como esse ano queria iniciar as leituras por uma autora e brasileira ela foi a escolha perfeita!

A leitura é super fluída e rápida, a narrativa me prendeu muito - do tipo de livro que você quer ler "só mais um capítulo" e quando viu já foi e por se tratar de um livro pequeno (176 páginas) ele acaba rápido mesmo e quanto a isso acho até que poderia ter se prolongado mais um pouco e mostrando os desfechos de alguns personagens que ficaram suspensos no ar.


Um livro bem humorado que retrata com fidelidade a simplicidade da vida no sertão aliado a personagens muito bem elaborados, mas que não abrem mão da leveza e ainda tem um "q" de mágica. Daria um belo filme e/ou série de TV.

Existe de verdade uma cidade do interior do Ceará chamada Caridade que tem um Santo Antônio sem cabeça gigantesco a história é um pouco diferente do livro, mas igualmente engraçada.

A escrita qualificada de Socorro Acioli me deixou admirada, com vontade de ler outros livros da autora e conhecer mais sobre ela.

site: http://retalhododia.blogspot.com.br/2015/02/eu-li-cabeca-do-santo-socorro-acioli.html
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Mariana Melo 31/10/2014

Um livro cheio de delicioso regionalismo Nordestino, este foi uma das melhores surpresas de 2014. Amei de cabo a rabo!!! Indico muito para quem gostou de O Alto da Compadecida! Ou pra quem só gosta de bons livros mesmo!
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Aline Memória 22/09/2014

Grata surpresa!
Um livro que me surpreendeu, em vários aspectos. Quis ler primeiramente por causa da ligação do livro com o Gabriel Garcia Marquez, que já é um ótimo nome para servir de impacto, tendo ele aprovado e incentivado a autora a escrever o livro. E, segundo, por ser a autora minha conterrânea, cearense, e contemporânea.

Por ser um livro pequeno, pensei que a história fosse ser simples, mas me enganei: a princípio, pensei que a trama da história fosse parar no protagonista, Samuel, usando de seu "dom" para realizar os casamentos, o que por si só já era uma sinopse interessante: a história de um rapaz que, após a morte de sua mãe, vai para a cidade de seu pai para realizar os últimos desejos de sua mãe. Sem ter onde ficar, se esconde em uma cabeça de santo - o resto do corpo fica no alto de um morro, sem nunca ter sua cabeça sido colocada - onde então passa a ouvir as preces de várias moças da cidade rezando por seus amores. Passando a saber quem gosta de quem, Samuel logo passa a explorar seu novo "dom".

Mas a história se alarga muito mais, e conta a vida de vários outros personagens da cidade de Candeia, além da história da própria cidade, como o motivo pelo qual o santo ficou sem sua cabeça. Assim, o enredo é muito bem construído, e adorei ver como as pontas soltas vão se juntando com a vida de Samuel, principalmente a origem da "Voz" que tanto lhe encanta particularmente.

A leitura é bem rápida, mas nem por isso é desleixada, pelo contrário: vê-se que a autora realmente se dedicou à construção do livro. A descrição das paisagens, desde o sertão até o Cabo Verde, me deixaram fascinadas, e dava para imaginar tudo perfeitamente, como as mornas cantadas pelos africanos...

O retrato da vida simples do sertão, das moças doidas para casarem, da fé cega nos santos; aliadas a uma pontada da fantasia do cordel - como na presença meio fantasmagórica da avó de Samuel - e até de humor (adorei a explicação do nome da Madeinusa) me conquistaram. E, ao longo da leitura, me surpreendi com as histórias que se entrelaçavam, até o final, que foi lindo e digno de todo o resto.

Aliás, fazia tempo que eu não lia um livro que me empolgava tanto, e recomendo-o demais!
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Paulo de Sá 03/08/2014

Faltou verossimilhança
Apesar da sinopse ser bastante promissora, o livro não me agradou muito. A narrativa é confusa e não prende o leitor.
Aline Memória 22/09/2014minha estante
Concordo com a leitora acima, a narrativa me prendeu tanto que só larguei o livro quando o terminei.




Jeniffer Geraldine 14/05/2014

A cabeça do santo Socorro Acioli
Socorro Acioli, jornalista e doutora em estudos de literatura, começou a escrever as primeiras ideais para o livro A cabeça do santo (Companhia das Letras, 2014) na oficina de criação e roteiro Como contar um conto, ministrada por Gabriel García Márquez na Escuela de Cine y TV de San Antonio de Los Baños, em Cuba, no ano de 2006.
Em A cabeça do santo, vamos acompanhar a saga de Samuel pelo sertão do Ceará com o objetivo de cumprir o último pedido que sua mãe, Mariinha, fez antes de morrer e encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Após uma longa viagem a pé, sofrendo com as surpresas do sertão nordestino, Samuel chega em Candeia uma cidadezinha cheia de desesperança, desfelicidade e desgraça. E lá encontra uma gruta para dormir, mas quando acorda ele se depara com uma confusão de vozes femininas na sua cabeça.
A gruta, na verdade, era a cabeça oca de uma estátua de santo Antônio. E as vozes, preces que as mulheres faziam para o santo.

O fato é que as orações das mulheres reverberavam dentro da cabeça do santo e, por algum motivo, Samuel conseguia ouvir. No dia seguinte ele comeu goiaba, folhas, bebeu água da chuva e percebeu que as orações aconteciam de manhã e à tarde. Nem sempre todas as vozes, nem sempre as mesmas palavras, mantinham-se apenas o pedido: elas amavam e queriam casar. (p. 34)

Samuel tinha essa habilidade estranha e incompreensível de ouvir as preces. Não sabia se era por falha do santo, ou engenho do demônio, mas isso mudou a sua vida e de todos em Candeia. A primeira pessoa que conhece é Francisco. Juntos passam a tentar entender como tudo acontecia e claro de que forma podiam se aproveitar da situação. Então, Francisco tem a ideia de cobrar por consultas feitas com o mensageiro de Santo Antônio, promover casamentos e outras formas de reverter o dom de Samuel em dinheiro. Candeia renasce como um milagre do próprio santo que a tinha arruinado.

Apesar de começar focado no objetivo de Samuel, o romance nos leva para o centro de Candeia e lá nos deparamos com muitos fatos e surpresas que vai deixando várias pontas soltas na narrativa, mas Acioli acaba amarrando tudo, apesar de fazer isso de uma forma corrida (o livro tem apenas 176 páginas), e no final nos entrega uma boa leitura digna do gênero realismo fantástico e com uma prosa leve e divertida.
Tive uma experiência maravilhosa quando estava lendo o livro, ao inciar a parte Canção (pág 96) começou a tocar Eu preciso de você, da banda Validuaté (natural de Teresina). Além de imaginar o livro sendo adaptado para o cinema, foi a música perfeita para o momento em que Samuel estava passando. Apesar de se achar um rapaz sem fé e desafortunado, ele buscava um objetivo para seguir em frente na vida. A mãe lhe dera um antes de morrer e após a sua aventura em Candeia, ele precisava de algo mais.

- Final, final mesmo, Samuel, é só quando eu baixar teu caixão na cova. Ainda dá tempo.
- Tu sonha muito, Chico.
- Foi a morte que me ensinou. O tempo de sonhar é em cima da terra.
(p. 155)

>> A estátua do santo sem cabeça existe na cidade de Caridade, a 100 km de Fortaleza.

site: http://subindonotelhado.com.br/a-cabeca-do-santo-socorro-acioli.html
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Paula 24/04/2014

Brasileiríssimo.
A cabeça do santo é a estreia de Socorro Acioli, que já publicou alguns livros infanto-juvenis, no romance para adultos. Esta é a história de Samuel, um homem que acabou de perder sua mãe, Mariinha, cujo último pedido antes de morrer foi: acender uma vela para o padre Cícero, outra para São Francisco e outra para Santo Antônio, e ir encontrar o pai, que desapareceu há anos, e também sua avó, lá na cidade de Candeia.

A viagem de Samuel de Juazeiro do Norte a Candeia tem um tom de romaria, mas Samuel nunca alimentou a mesma fé pelos santos de sua mãe. Era por ela que fazia aquela viagem tortuosa, a pé, em condições tão difíceis. Samuel também não tinha mais para onde ir, nem mais ninguém no mundo. A viagem sofrida pelas estradas do nordeste me fez lembrar de outras maravilhosas histórias da nossa literatura: do Vidas Secas de Graciliano, do Alto da Compadecida do mestre Ariano, do ritmo de cordel da narrativa de A máquina, da Adriana Falcão. E foi justamente este tom bem brasileiro, regional, que me encantou nesta história.

Chegando em Candeia, no entanto, nada ocorreu como Samuel esperava: sua avó não lhe recebeu bem, seu pai não foi encontrado, provavelmente estava morto, e Samuel, exausto da viagem, ainda foi atacado por um bando de cachorros loucos. Ferido, encontra abrigo contra a chuva no que só mais tarde descobre ser a cabeça oca de um santo Antônio, caída ao lado da estátua do santo, perto de uma colina. É neste abrigo improvisado que Samuel conhece Francisco, com quem estabelece uma nova amizade, e onde ele começa a ouvir diversas vozes: as orações das moças da cidade, que reverberam dentro da cabeça do santo e que só Samuel pode ouvir. Santo Antônio é mais conhecido por ser o santo casamenteiro, então as orações das moças todas continham pedidos, alguns com destinatário já escolhido, outros sem nenhuma dica para o santo. Mas por que todas as mulheres do povoado queriam se casar? Porque o livro é o retrato de uma "tradição" que ainda persiste em grande parte do Brasil: a de que o único destino de uma mulher é o casamento, "porque no sertão, mulher que não casa é mandacaru sem flor" (pág. 75). A euforia de todas as mulheres da história para encontrar o mensageiro de santo Antônio e com isso "cumprir seu destino" é contada com humor e de forma alegórica, o que torna a leitura do livro bem divertida, mas não pude deixar de fazer esta reflexão durante a leitura. Talvez a história não tenha mudado tanto assim desde os tempos de José Lins afinal. O patriarcado ainda persiste com força como vemos na história, onde o prefeito é o dono da região, agindo de forma quase sempre corrupta e de acordo com sua vontade; onde as mulheres sofrem violência e são discriminadas por isso; onde os pais expulsam suas filhas de casa por uma gravidez inesperada, tudo em nome da moral e dos bons costumes: "Diga a sua irmã que, se isso for bucho, ela vá embora dessa casa amanhã mesmo que eu tô velho demais pra aguentar filha malfalada". (pág. 45)

A história do homem que ouvia as mensagens do santo muda a vida de Samuel, causa rebuliço na cidade, antes abandonada, que passa a receber cada dia mais e mais visitantes em peregrinação, fazendo prosperar todo o comércio local. E nesse sentido este livro é também uma reflexão sobre o surgimento dessas crenças que vão crescendo e se modificando ao serem contadas pelo povo.

Samuel, que no início do livro não acredita em muita coisa, depois de cumprir os pedidos de sua mãe e ter modificado a vida de muitas pessoas, não sem tentar tirar algum proveito por ouvir as orações feitas para o santo, termina por encontrar algo em que acredita, cumprindo também ele o seu destino.

A cabeça do santo é um livro bem gostoso de ler, a história é contada com humor e isso dá uma leveza ao texto que envolve o leitor nesse mundo fascinante e mítico do sertão, por isso acredito que agradará a um público bem diverso. Durante a leitura não pude deixar de pensar que este romance tão cheio de imagens da cultura popular brasileira daria uma ótima adaptação, tanto para o teatro quanto para o cinema. E fiquei feliz de ver umas das escritoras da chamada "nova geração" trazendo suas raízes para a literatura. Recomendo a leitura, é um livro brasileiríssimo.

ACIOLI, Socorro. A cabeça do santo. São Paulo: Companhia das letras, 2014. 170 páginas.

Socorro Acioli nasceu em Fortaleza, em 1975. É jornalista e doutora em estudos de literatura pela Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Foi aluna do prêmio Nobel Gabriel García Márquez na oficina Como Contar um Conto, em Cuba, e publicou diversos livros, entre eles A bailarina fantasma (editora Biruta) e Ela tem olhos de céu (editora Gaivota), que recebeu o prêmio Jabuti de literatura infantil em 2013.

site: http://pipanaosabevoar.blogspot.com.br/2014/04/a-cabeca-do-santo.html
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Leonardo 22/04/2014

Boa vontade, mas história muito fraca
Zé Lorota é um cabra bem mentiroso, todo mundo sabe. Gosta de contar vantagem e sempre inventa, exagera. É um sujeito hiperbólico. Ele vivia dizendo que tinha uma grande história pra contar, uma história cheia de emoções e reviravoltas. Só que ninguém nunca dava bola pra ele. Aonde ele chegava, tentava contar a história, mas não emplacava. Logo alguém desconversava, puxava assunto de política, de jogo, perguntava se ia chover Num sábado, num churrasco, quando ele menos esperava, a oportunidade apareceu. E era mais do que ele podia querer: estavam ali o prefeito, o promotor, o juiz, o padre, todo mundo da cidade que de fato importava. Zé Lorota estava comendo uma coxa de galinha com farofa quando o prefeito o intimou a contar a sua famosa história. Ele se engasgou um pouco de emoção e seu coração disparou. Tomou um copo de cerveja para limpar a garganta e começou a narrar a inigualável aventura nunca antes contada, nem por inteiro nem pela metade do homem que entrou por acaso na cabeça de um santo (uma cabeça gigante de uma estátua de Santo Antonio) e descobriu que podia ouvir as preces das piedosas mulheres daquela cidade suplicando a intervenção do santo para conseguirem casar. O homem teve então a brilhante ideia de ficar rico com aquele estranho dom, e as suas ações resultaram em uma grande confusão que mudou a história da cidade. Quando Zé Lorota abriu a boca para dar início à saga, um grave problema se materializou, trazendo, de imediato, outro a reboque, tão grave quanto o primeiro:

Primeiro problema: Zé Lorota não tinha uma história. Nunca teve. Era tudo lorota. Ele tinha uma ideia homem encontra cabeça de santo e descobre que pode ouvir as preces das mulheres da cidade. Só isso. Como ele nunca havia tido que contar a história antes, ainda não havia parado para pensar que ele precisaria desenvolver seu conto para fazer jus a toda a propaganda que ele próprio havia feito acerca dos méritos da narrativa.

Segundo problema: Zé Lorota era um sujeito de raciocínio rápido, ah, isso ele era. Isso é um problema? É, porque você já deve ter adivinhado o que ele fez em seguida. Ele não apenas tinha o raciocínio rápido. Era muito vaidoso. Quando disse as primeiras palavras (Tudo começou lá no sertão, muito tempo atrás), o problema da falta da história apareceu, mas foi descartado em menos de um segundo pelo seguinte pensamento: Eu improviso. Vai dar certo.

E foi assim que Zé Lorota contou a sua história. Muito, muito rapidamente, ele criou um passado para Samuel, o personagem principal (ele estava indo a Candeias, a cidade onde ficava a cabeça do santo, em busca do seu pai e de sua avó, para pagar a promessa feita a sua mãe no leito de morte); criou um passado para a cidade (uma cidade moribunda, com a maioria das casas abandonadas, tudo fruto do que se considerava uma grave maldição a cabeça do santo, feita para coroar uma gigantesca estátua de Santo Antonio, para rivalizar com a do Padre Cícero de Juazeiro do Norte, não pode ser colocada no corpo, o que sentenciou o santo a permanecer decapitado.); criou alguns personagens, muita ação.

No começo, tudo parecia ir dando certo. Ele foi abrindo estradas, caminhos, encruzilhadas, sem se preocupar em ligá-las a nada, afinal, estava no começo da história, e se assombrava com a sua própria capacidade de improvisação. Na mesa do churrasco, as pessoas se aglomeravam, atraídas pelo jeito teatral com que Zé Lorota contava sua história.

Zé Lorota foi ficando envaidecido com seus próprios êxitos, e ousava cada vez mais. Começaram a aparecer então pontas soltas na sua história, mas ele não se importava. O ritmo da narrativa foi ficando insano, de tantos fatos que ele empurrava goela abaixo. Uma hora era um radialista que aparecia, depois um coveiro, depois uma velha com poderes sobrenaturais. Não satisfeito com isso, Zé Lorota inventou um cinema na cidade, um prefeito corrupto (se bem que isso não é coisa muito inventada), milhões desviados, direitos de imagem vendidos à CNN, repórteres, bombas, um amor para Samuel, pessoas que passaram quinze anos escondidas e mais, e mais, e mais. A imaginação de Zé Lorota não tinha limites. E quanto mais ele inventava, mais difícil ficava terminar a história. Quanto mais ele inventava, mais gente se aglomerava e maior a expectativa justamente pelo modo como tudo aquilo iria encontrar seu termo. Zé Lorota estava nervoso, com medo de um grande fracasso. Juntou ar nos pulmões e, num fôlego só, lembrando-se de todos os cordéis que já havia lido e das novelas que havia visto, terminou a história da melhor maneira que pôde, com todos os clichês possíveis.

Quando disse e assim termina a história da cabeça do santo, encheu um copo grande de cerveja e bebeu inteiro, de uma só vez, enquanto sondava, com o canto do olho, as reações dos presentes. O prefeito teria gostado? E o juiz? O promotor? A mulher do prefeito?

Essa historinha, caro leitor, é um resumo da minha impressão ao terminar de ler A cabeça do santo, de Socorro Acioli. Quando terminei a leitura, fui ler as orelhas do livro e os agradecimentos e senti-me um pouco intimidado: a autora é doutora em estudos literários e fez um curso chamado Como contar um conto com Gabriel García Márquez em pessoa, em 2006, em Cuba. Mais do que isso, nas palavras da própria autora, as primeiras ideias do romance foram escritas justamente para o curso, e Gabriel García Márquez não só aprovou o projeto, como o incentivou, entusiasmado. Ainda nos agradecimentos, a autora expressa gratidão a três professores que avaliaram o trabalho (o romance, presumo) durante o Exame de Qualificação do seu doutorado em Estudos de Literatura.

Quando li isso, pensei: Peraí! Foi este mesmo livro que acabei de ler que foi avaliado (e aprovado) por uma banca de doutores? Porque o elogio de Márquez à ideia é compreensível: a ideia do romance é ótima. Um homem que ouve orações de mulheres pedindo maridos pode render uma excelente história. Foi justamente por conta deste mote que escolhi ler este livro. Mas a autora não foi feliz em transformar a ideia num livro. Ou foi? Meu senso estético travou enquanto eu lia esta obra, que não pude perceber seu valor?

Como ilustrei na história do Zé Lorota, os fatos se sucedem numa velocidade espantosa, como se a autora fosse escrevendo tudo que lhe viesse a cabeça, sem parar para pensar se aquilo se encaixaria na narrativa ou não. Não vou analisar cada aspecto falho do livro, mas acredito que vale a pena ressaltar alguns:

Candeia era quase nada. Não mais que vinte casas mortas, uma igrejinha velha, um resto de praça. Algumas construções nem sequer tinham telhado, outras, invadidas pelo mato, incompletas, sem paredes. Nem o ar tinha esperança de ter vento. Era custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes.

Por conta da maldição do Santo Antonio, a cidade era o que se dizia acima. Eu, que sou do interior, e trabalho muito, muito mesmo, viajando e fiscalizando não apenas cidades pequenas do interior, mas pequenas povoações no interior destas pequenas cidades, consigo muito bem visualizar o que é um local com não mais que vinte casas. Para deixar bem claro, imagine uma rua com dez casas de um lado, dez casas do outro. Pronto. Aí está a cidade. Uma igrejinha no começo da rua. Um bar. Se vinte casas já não seriam suficientes para fazer uma cidade, imagine no caso específico de Candeia, em que as casas eram mortas e pouquíssimos eram os habitantes que ainda resistiam à maldição e permaneciam na cidade. Em outra parte do livro, a autora menciona que provavelmente apenas seis casas ainda eram habitadas. Aí comecei a fazer as contas: (1) a dona do bar, que tem um papel importante na trama; (2) a avó de Samuel; (3) Chico Coveiro, outro personagem importante; (4) Aécio Diniz, o radialista da cidade (sim, uma cidade com seis casas tem uma emissora de rádio que, pasmem, tinha, antes mesmo da chegada de Samuel e do surto casamenteiro que ocorreu na cidade, um programa especial sobre noivas); (5) Dona Rosa e seu moribundo marido, um casal citado no início da narrativa; (6) o funcionário encarregado de manter limpa a casa do prefeito, que, naturalmente, não residia na cidade e aparecia lá uma vez por ano. Sem forçar muito a minha memória (que é ruim) nem consultar o livro, cheguei a seis casas necessariamente habitadas. Não sobrou ninguém na cidade? Claro que sobrou, porque dentro da cabeça do santo Samuel conseguia distinguir pelo menos cinco orações, uma delas da filha da dona do bar. Sobravam, portanto, quatro outras moças querendo casar que não residiam em nenhuma das casas acima citadas.

Mas não é só isso. Depois que a cidade começa a fervilhar por conta dos casamentos que começam a ocorrer graças à intervenção de Samuel, um dos casais resolve simplesmente abrir um cinema! Qual o impacto disso na trama? Nenhum! Mas o cinema faz sucesso e vive lotado todos os dias, exibindo, dentre outros filmes, dia sim, dia não, Casablanca. Sim, o filme clássico, um dos mais amados da história do cinema. Peraí mais uma vez! Minha cidade natal, Paripiranga, tem quase trinta mil habitantes e o dono da faculdade de lá (sim, uma faculdade grande com vários cursos e com muitos, muitos alunos da região) abriu um cinema. Preço baixo, mas sucesso zero. Não houve público. Não houve interesse. Claro, sei que estou sendo um tantinho anacrônico ao comparar realidades distintas, mas uma cidade com seis casas habitadas, cujo movimento naquela época consistia basicamente em ser caminho obrigatório para romeiros rumo a Canindé, lotar sessões e mais sessões de cinema isso sim poderia ser considerado um milagre de Santo Antonio.

Talvez estes exemplos isolados não forneçam elementos suficientes para que você, leitor tenha uma ideia de como é confuso o livro. A Cabeça do Santo não funciona enquanto narrativa. Sabem aquele velho recurso de revelar que aquele personagem que todos julgavam morto há anos (mais de vinte anos, num dos casos) está vivo e esteve escondido, de maneira completamente improvável, pertinho de todos todo aquele tempo? Pois A cabeça do santo, com pequeníssimas variações, utiliza-se do mesmo expediente não apenas uma, mas duas vezes! Mais uma vez: para uma cidade com seis casas habitadas isso soa um tanto estranho, não é?

Após a leitura eu fiquei matutando, matutando, em busca de um sentido que eu não houvesse percebido para toda essa narração hiperbólica. Primeiro, tentei visualizar o livro como um filme, eu assistindo ao lado dos meus irmãos. Só o que me vinha à cabeça a cada vez que uma situação absurda daquelas se sucedia era nós todos exclamando em uníssono: Que filme ruim!

Aí veio outra ideia, essa com um pouco mais de lógica: este livro é a transcrição em prosa de um daqueles livretos de cordel! Para quem já leu, sabe como o cordel é repleto de histórias absurdas, a maioria das vezes sem pé nem cabeça (o que não lhes tira o mérito, deixo claro). A história do cordel tem uma relação próxima com a dos repentes, também tradicionais no nordeste. Há uma tradição oral muito forte, bem como a presença do improviso. Faz parte do objetivo do cordel encantar o leitor também com estas histórias absurdas, já que elas funcionam mais ou menos como fábulas.

Esta foi a única chave de leitura do romance que me fez ver alguma lógica na forma como ele foi contado. Mas não é suficiente para justificá-lo. Se o objetivo da autora foi escrever um cordel em prosa, ela não foi feliz. Falta fluidez na história, faltam personagens carismáticos (algo que não comentarei de maneira mais aprofundada, mas que é lamentável: nenhum personagem é interessante, nenhum personagem é de verdade, todos são rasos e artificiais, inclusive e especialmente o próprio Samuel), falta uma prosa elegante e competente. Falta, em resumo (e sendo bem duro, eu sei), ter sido bem escrito para conquistar o leitor.

Minha Avaliação:

1 estrela em 5.

site: http://catalisecritica.wordpress.com
Aline Memória 22/09/2014minha estante
Uma observação:
Quanto ao sucesso do cinema no interior do Nordeste, veja o filme Cine Holliúdy e perceba a influência que a sétima arte teve no sertão; tendo lotado, sim, várias e várias sessões.
Inclusive, até a metade do século passado, em que a maioria das casas não tinha TV, o cinema nas cidades do interior fez muito sucesso e atraía muitas pessoas. Se na sua cidade natal não foi assim, imagine que os tempos são outros e todo mundo hoje em dia tem uma TV em casa.


Aline Memória 22/09/2014minha estante
Outra observação, em relação a este seu trecho:

"(4) Aécio Diniz, o radialista da cidade (sim, uma cidade com seis casas tem uma emissora de rádio que, pasmem, tinha, antes mesmo da chegada de Samuel e do surto casamenteiro que ocorreu na cidade, um programa especial sobre noivas)"

Na verdade, a emissora não era da cidade de Candeia, onde se passa a emissora, e sim de Canindé.
Isso fica bem claro nas págs. 59 e 60 do livro, em que o nome da rádio é 89.1 Canindé AM. A filial na cidade só abre depois do surto casamenteiro.
E em nenhum momento da história (que eu me lembre) se diz que Abílio Diniz mora na cidade de Candeia.




camila 09/04/2014

Comovente e apaixonante
Com personagens maravilhosamente trabalhados, uma trama cheia de regionalismos deliciosos. A escrita leve, até mesmo para falar das mazelas do sertão, me conduziu levemente ao longo do livro. Destes de sentir saudades depois de terminado. Obrigada Socorro!!
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Renata 09/03/2014

O maravilhoso e a cabeça do santo
A Cabeça do Santo foi o livro que escolhi dentre os lançamentos do mês de fevereiro da Companhia da Letras. Ele me chamou a atenção porque comecei a ler um pouco do estilo do realismo maravilhoso latino-americano. Este livro de Socorro Acioli foi escrito para o curso "Como contar um conto", ministrado por Gabriel García Márquez, o grande nome do Realismo Maravilhoso. Ao ler a sinopse, interessei-me muito pelo romance da autora por causa do enredo curioso e imaginei que pudesse ter alguma influência desse estilo.

O livro conta a história de Samuel, filho de Mariinha, que parte de Juazeiro do Norte rumo a Candeia, para cumprir uma promessa feita à mãe antes de sua morte. Sob o sol forte, Samuel percorre o sertão à caminho da cidade onde mora sua avó e pai, que nunca o conheceram. Ele chega em Candeia como um maltrapilho e, expulso pela avó, acaba arranjando abrigo dentro da cabeça decapitada de uma grande estátua de Santo Antônio. É dentro da cabeça que os fatos fantásticos começam a acontecer. Enquanto permanece dentro dela, Samuel ouve vozes de orações que as mulheres fazem para o santo.

Assim, surge a ideia de utilizar as orações das mulheres para unir os casais da pequena cidade. Suas ações dão certo e ele provoca o primeiro casamento. Os boatos sobre a voz dos santos são divulgados na rádio e a pequena e deserta cidade nordestina começa a ser invadida por mulheres apaixonadas que desejam ter seu desejo realizado por Santo Antônio. Samuel, então, passa a ser o porta-voz do santo e procura realizar os desejos da maioria das mulheres. Candeia, a cidade já quase deserta, revive e o comercio volta a florescer com a chegada de tantos curiosos. Contudo, esse sucesso não agrada o ambicioso prefeito da cidade que desejava, ao expulsar os moradores, vender ilegalmente o terreno da cidade.

O personagem de Samuel possui várias funções dentro desse livro. Além de casamenteiro, ele deve procurar pelo pai com a ajuda da avó enigmática; também é instigado por um misterioso canto em uma língua pouco compreensível que ouve dentro da cabeça da estátua.

Por que pensei em realismo maravilhoso? O enredo do livro parece se inspirar no realismo maravilhoso porque incorpora o maravilhoso no cotidiano. O fato de Samuel ouvir as orações para Santo Antônio dentro da cabeça oca causa um certo estranhamento, mas é verossímil dentro da história. Ou seja, aquilo que é maravilhoso dentro da história é tido como algo natural. Além da cabeça de santo, vemos o maravilhoso na mãe de Samuel, que sabia o dia em que ia morrer, e na avó que parece possuir poderes mágicos. Esses detalhes maravilhosos contrastam com fatos bastante realistas, e os personagens podem duvidar dos fatos reais, mas acredita-se no maravilhoso. É interessante perceber que um repórter da "cidade grande" vai a Candeia investigar os rumores do santo, mas apenas é investigado o motivo pelo qual a cabeça da estátua não está junto ao corpo, ao invés de investigar os boatos sobrenaturais. Além disso, o livro, que é dividido em 4 partes, possui diversas citações de autores latino-americanos, como o próprio Gabriel García Márquez.

O livro é de leitura fácil e leve, fazendo-nos lembrar de um "causo". A história possui muita brasilidade e cor-local. O enredo não é totalmente linear porque nele acontecem alguns flashbacks que não são claramente explicitados e pedem a atenção do leitor.

Particularmente, acho que a história da cabeça do santo não possui uma relação muito firme com o passado de Samuel. Primeiro, ele faz uma peregrinação de 16 dias, passa fome e é mordido por cachorros do mato enquanto procura seu pai, mas - de repente! - o enredo passa a focar no lado casamenteiro do protagonista dentro da cabeça do santo. Essa mudança de vontade do personagem passando fome, para aquele que ganha dinheiro e fama, passa a ser um pouco inverossímil e faz com que o livro perca a continuidade. O desfecho também é um pouco apressado demais e não deixa claro a verdadeira motivação dos personagens. Na minha opinião, o livro peca por ser muito curto, pois a história mágica da cabeça do santo que ressoa orações é fascinante, mas precisava ter sido melhor desenvolvida, para poder detalhar as relações e as motivações de cada um desses personagens dentro da trama.

Curiosamente, descobri que a história da cabeça decapitada de uma estátua de Santo Antônio realmente existe em uma cidade do nordeste brasileiro, que não se chama Candeia, mas em Caridade. Foi esse caso curioso que inspirou Socorro Acioli a escrever essa história. Nosso país possui cada mistério!

site: http://www.agua-marinha.net/2014/03/resenha-cabeca-do-santo-de-socorro.html
Uilians 06/01/2015minha estante
Gostei, mas acho que poderia ser melhor explorado e ampliado. Esperava mais pelo o que falaram, mas dá um bom filme.




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