O Presidente Negro -

    Monteiro Lobato

    Editora Globo
    2009
    208 páginas
    6h 56m
    ISBN-13: 9788525046901
    Português Brasileiro

    Único romance para adultos, lançado em 1926, traz fortes componentes de ficção científica e aborda temas polêmicos como racismo e segregação. Com uma surpreendente capacidade de desvendar o futuro, Monteiro Lobato prevê o advento da internet e a hegemonia da China, quando aquele país era quase feudal. Agregando imaginação e humor, nele o escritor expressa suas opiniões e fantasias sobre os EUA, onde viveria entre 1927 e 1930. Para além de uma fábula futurista, O presidente negro reafirma o talento visionário de Lobato e volta às livrarias no ano em que uma mulher branca e um negro concorrem à indicação do Partido Democrata. Salta aos olhos a coincidência da trama envolvendo os personagens Jim Roy e Evelyn Astor , candidatos à presidência em 2228, com a disputa entre Barack Obama e Hillary Clinton nas eleições norte-americanas.

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    Jairo Escudero28/03/2014Resenhou um livro
    2 (Razoável)

    Mais machista... talvez. Mas nunca, nada mais racista.

    Creio que li O Sítio do Pica-Pau Amarelo quando criança e recentemente me deparei com um artigo que apontava a obra literária juvenil de Monteiro Lobato como racista. Assim como eu, não acredito que outros jovens, independente da época em que leram as aventuras de Emilia, Narizinho, Pedrinho, o Visconde de Sabugosa, Dona Benta e Tia Nastácia, tenham captado qualquer nuance de racismo. Para mim, isso pareceu coisa de adulto metido a crítico literário. Resolvi então ler "O Presidente Negro", para ver se, na obra adulta do escritor, ele era mais explícito com respeito a esse tão delicado tema. Para começar, em termos técnicos literários, a obra é fraca, pois Lobato infringe uma das mais importantes e básicas regras da escrita de ficção: "show, don't tell" ou "mostre, não conte". A história toda é contada por Ayrton Lobo e, dentro de sua narrativa, a história do ano 2228 é contada por Miss Jane. Não há ação, tudo é contado. A falta de verossimilhança é outro sério problema da obra. Isso é evidenciado pelo fato de que Ayrton é, nas palavras do doutor Benson, "um homem comum, de educação mediana e pouco penetrado nos segredos da natureza (p. 37)", e em suas próprias palavras um homem de "estudos ligeiros, ginasiais apenas (p. 37) ... [que não compreende] muito bem, lento que [é] de espírito (p. 39)". No entanto, ele continuamente cita Shakespeare, a mitologia, filósofos, e é profundo conhecedor da história mundial; tudo utilizando-se de um vocabulário extremamente rebuscado que permeia a obra. Cadê a lógica? Quanto ao tema "racismo". TÁ LOCO!!! Racista é pouco! Do jeito que o eugenismo é enaltecido, me admiro que Hitler não tenha usado a obra como "manual" para a eugenia que ele tentou implementar. Inicialmente, é uma história até que interessante com o doutor Benson, sua máquina do tempo (provavelmente inspirado em H.G.Wells) e sua filha Miss Jane. Porém, quando Jane começa a contar a história sobre os Estados Unidos do ano 2228 e o Choque das Raças (título original da obra), tudo empeça a desandar. Logo de início ela propõe que a mistura das raças, "nossa solução [a do Brasil de 1926 e de hoje] foi medíocre. Estragou as duas raças, fundindo-as. O negro perdeu as suas admiráveis qualidades físicas de selvagem e o branco sofreu a inevitável piora de caráter." DÁ PRA ACREDITAR?!?! Negro = Selvagem. Branco = Caráter. Daí em diante, é um tal de o negro fazer tratamento para esbranquiçar a pele e alisar o cabelo, subentendendo-se que nem o negro gosta dele próprio. A história contada por Miss Jane não só contém intrigas raciais, mas também política, política entre os sexos, política entre as raças, traição entre todos, e por aí a fora. E, além de racista, Lobato é também extremamente machista, aludindo, em várias ocasiões, à instabilidade feminina (p. 154 "2+2 não era forçosamente igual a 4. Era igual ao que no momento conviesse.") e a sua submissão ao macho (p. 139 Evelyn Astor "Vejo bem claro agora nosso erro e, embora reconhecendo as queixas que a mulher tem do macho, também reconheço que sem o concurso dele nada valeríamos no mundo"). É interessante observar que, no livro, a ideia de "autorização para reprodução" (pp. 158-159) e a futura conquista da Europa pelos "mongóis" (leia-se asiáticos, chineses até nisso o tom é preconceituoso, sendo que a palavra usada se parece com "mongoloides", palavra que, no Brasil, tem conotação de síndrome de downs), pressagiam as atuais leis de controle populacional chinesas, plenamente implementadas em 1979, e o atual poder econômico da China. Também interessante, é o presságio do trabalho sem deslocação, ou seja o "telecommuting", as pessoas não precisam sair de casa para trabalhar, tudo é feito através da telecomunicação. Talvez o único ponto alto da obra, suas únicas ideias louváveis são o fato de que em 2228 não existem mais moscas (p. 166 "Se ainda houvesse moscas no ano 2228 poder-se-ia ouvir alguma voar na sala.") e, principalmente, a crítica à corrupção, burocracia e "sistemas de parasitismo de outrora e de hoje" brasileiros na denúncia de um "devorismo orçamentário de certas repúblicas «nossas conhecidas», onde fazer parte do Estado é conquistar o direito à inação da piolheira vitalícia dormir, apodrecer na sonolência da burocracia que não espera, não deseja, não quer, não age suga apenas. (p. 117-118)" Em síntese, a obra é um veículo deturpado, um culto às ideias racistas, machistas e arrogantes de um Monteiro Lobato que, pelo jeito, deveria ter se limitado à literatura juvenil, arena na qual seus profundos preconceitos e intolerâncias são menos detectáveis. Uma avaliação de REGULAR, na realidade, é muito generosa!! É claro, com base no meu preconceito contra obras preconceituosas!!!

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