Elogiados por Flannery O’Connor e Isaac Singer, venerados por Philip Roth e Paul Auster, os contos de Bernard Malamud constituem o melhor da literatura norte-americana. Até hoje inéditos entre nós, estão, finalmente, disponíveis. Nas treze histórias que compõem O Barril Mágico (Livro vencedor do National Book Award) , pode encontrar-se algumas das personagens mais inesquecíveis da literatura, figuras que carregam consigo um destino atávico e arcaico e, ao mesmo tempo, são a expressão da experiência existencial do homem contemporâneo, de um mundo feito de mediocridade e de sonhos nunca realizados, mas igualmente com momentos de ternura e profunda ironia.
O Barril Mágico (Ficção Traduzida) -
Bernard Malamud
Histórias premiadas
Os treze contos de O Barril Mágico deram o National Book Award de 1959 a Bernard Malamud (1914-1986). Depois, em 1966, sua obra-prima O Faz-Tudo (editora Record) rendeu-lhe o Pulitzer Prize e no ano seguinte novamente o National Book Award. Com esses livros Malamud ganhou também a admiração e o respeito de importantes personagens do mundo literário como Flannery O'Connor, Saul Bellow, Philip Roth, Paul Auster, Anthony Burgess e outros. Explica-se: são duas obras fundamentais em sua carreira, dividida entre romances e contos. O próprio Malamud deu a receita de sua escrita primorosa à Paris Review, numa entrevista em 1967: "Eu escrevo um livro ou um conto três vezes. A primeira para entendê-lo, a segunda para melhorar a sua prosa e a terceira para obrigá-lo a dizer o que ainda deve dizer." Está explicado então porque é tão prazeroso ler o autor nova-iorquino descendente de judeus russos. Os contos de O Barril Mágico, ainda que se desenvolvam quase sempre em ambientes de pobreza (às vezes até mesmo de miséria), sujos, feios, malcheirosos, e invariavelmente terminem de modo não muito feliz (ou infeliz mesmo), são extremamente bem escritos e interessantes e trazem personagens absolutamente instigantes para o leitor. Todos judeus, claro. Judeu como o inusitado anjo de asas negras que vive no Harlem e visita o desgraçado alfaiate Manischevitz em "Anjo Levine", talvez a história mais deprimente do livro. Acompanhamos também a via-crúcis de Carl, estudante de pós-graduação em busca de um imóvel para alugar em Roma, em "Eis a chave", uma história cômica e angustiante ao mesmo tempo. Ou ainda o apaixonado Freeman de "A dama do lago": com medo de ser rejeitado pela bela Isabella ele tenta esconder suas origens a todo custo e aí comete o grande erro de sua vida. É verdade que sobre o adolescente George, de "Um plano de leitura para o verão" (um dos mais curtos e leves contos da coletânea), não se pode dizer que o rapaz seja em essência um otimista, mas sua história é uma das poucas que termina, digamos assim, positivamente. Os personagens dos demais contos não são menos curiosos do que George, Levine, Carl ou Freeman: o leitor pode ter certeza disso. Ainda que Malamud quase sempre coloque seus personagens em ambientes hostis ou um tanto estranhos aos judeus (como ocorre nas histórias passadas na Itália), como vítimas da sociedade, de sua própria cultura ou etnia e de seu modo de viver e pensar, ainda que eles raramente sejam felizes no final, eu não ficava tão entusiasmado assim com um livro de contos desde a leitura tempos atrás do excelente Bola de Sebo e Outros Contos (editora Globo), do francês Maupassant. Assim, recomendo com entusiasmo as histórias de Bernard Malamud. Do mesmo modo que faz a escritora Jhumpa Lahiri, autora da Introdução que apresenta a obra aos leitores brasileiros nesta edição da Record. Ou, mais ainda, como escreveu Flannery O'Connor após ler O Barril Mágico: "Descobri um autor de contos que é o melhor em absoluto, inclusive melhor do que eu." Quer mais do que isso? Lido entre 24 e 26/04/2016.
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