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    Senhores do orvalho -

    Jacques Roumain

    Carambaia
    2020
    240 páginas
    8h 0m
    ISBN-13: 9786586398069
    Português Brasileiro
    4.4
    145 avaliações
    Leram167Lendo7Querem318Relendo0Abandonos2Resenhas33
    Favoritos10Desejados318Avaliaram145

    “Eu sou isto: esta terra, e a tenho no sangue. Veja minha cor: parece que a terra soltou tinta em mim e em você também. Esse país é o quinhão dos homens pretos, e todas as vezes que tentaram tirá-lo de nós podamos a injustiça a golpes de facão.” O país é o Haiti e quem fala é Manuel, o protagonista de Senhores do orvalho, de Jacques Roumain, traduzido por Monica Stahel, quase sete décadas depois de sua primeira e única edição no Brasil. Senhores do orvalho foi lançado originalmente em 1944, pouco depois da morte do autor, e é considerado o romance fundador da literatura haitiana moderna, tematizando os elementos fundamentais do cotidiano do povo negro em sua luta por sobrevivência. Estão presentes a agricultura de subsistência, a religião vodu, a cultura africana reprimida pela elite mestiça e, sobretudo, a natureza violentamente devastada, que se eleva da trama com tanta força e complexidade quanto os personagens. Com estrutura aparentada à fábula e aos mitos fundadores, é também uma obra engajada, marxista, às vezes quase programática, sobre as possibilidades de emancipação de uma maioria oprimida pela via do trabalho. O protagonista, Manuel, é um lavrador que volta a seu povoado, Fonds-Rouge, depois de quinze anos nas plantações de cana-de-açúcar em Cuba, período em que conheceu a auto-organização dos trabalhadores e participou de uma greve. Ao voltar para a casa dos pais, encontra-os vivendo privações severas num ambiente castigado pela seca. Manuel é recebido com uma cerimônia vodu de boas-vindas em que ocorre uma briga de loás (divindades do vodu), sinalizando a iminência de um conflito. O herói logo perceberá que a vizinhança é marcada por uma divisão entre grupos hostis, originada por uma antiga disputa de terras de família, que acabou em duas mortes. O primeiro desafio de Manuel será procurar uma nascente de água para criar um sistema de irrigação que volte a tornar férteis as terras de Fonds-Rouge. O segundo é vencer a resignação e a desconfiança mútua no interior da comunidade e unir seus integrantes em torno do trabalho agrícola, requisitos para fortalecê-los frente aos inimigos que representam as elites mestiças: violentos guardas rurais e comerciantes exploradores. A possibilidade de cooperação é simbolizada pelo modo tradicional de organização coletiva do trabalho, pontuado por música e dança – o coumbite. Os conflitos se aprofundam quando Manuel se apaixona por Annaïse, do ramo rival da família, desencadeando um romance ao estilo Romeu e Julieta. No final, Manuel cumpre sua vocação de líder, embora de modo inesperado. A literatura de Roumain é reconhecida por ter introduzido uma voz haitiana própria, ao evocar os ritmos e sonoridades da língua crioula – uma elaboração buscada pelos intelectuais autointitulados indigenistas. Como observa no posfácio a pesquisadora Eurídice Figueiredo, da Universidade Federal Fluminense, “os dois elementos culturais mais fortemente rejeitados pelas classes letradas eram o vodu, considerado uma superstição a ser eliminada, e a língua crioula, considerado um patois, um dialeto que os falantes praticam mas do qual se envergonham”. Foi no vodu e no crioulo que os indigenistas encontraram a linguagem e a cosmologia particulares da literatura haitiana, que já nasceu moderna ao recusar as formas oficiais de comunicação.

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    Resenhas (33)Ver mais
    Ana Sá picture
    Ana Sá04/10/2021Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Livro não surpreende, mas seduz e enriquece o leitor

    Coloco o romance de Jacques Roumain no rol das narrativas que não surpreendem muito o leitor, mas que valem a pena por seu valor literário e cultural. O livro chega a ser previsível, mas é bonito e bom de ler. A leitura flui e encanta em muitos momentos. Trata-se do romance tido como fundador da literatura haitiana moderna (publicado originalmente em 1944), com evidente beleza estética em muitas passagens. Só o enredo já é um baita convite: Manuel retorna ao Haiti depois de 15 anos trabalhando com a cana de açúcar em Cuba, de onde volta influenciado politicamente. Ao se deparar com um lar devastado pela seca e pela exploração da mão de obra dos trabalhadores rurais, a personagem se dedica a promover a união e a revolta do povo do campo. As referências às matrizes africanas da cultura haitiana são um ponto forte do livro. Nesse ponto, foi inevitável notar elos com a cultura negra/afro-brasileira também. Como eu antecipei, é daqueles romances onde há uma surpresa (ou plot?) apenas no fim, mas que leva o leitor pela mão até o fechamento da história. Gostei muito da experiência de leitura! Foi prazerosa! Ah, eu li a tradução mais antiga, intitulada "Os donos do orvalho", e cheguei a este livro por causa da recomendação feita pelo autor de "Torto Arado", Itamar Vieira Jr. Como era de se esperar, não decepcionou!

    35 curtidas

    Estatísticas

    Avaliações

    4.4 / 145
    • 5 estrelas39%
    • 4 estrelas49%
    • 3 estrelas11%
    • 2 estrelas1%
    • 1 estrelas0%
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    Jacques Roumain

    Escritor haitiano nascido em Port-au-Prince. Intelectual e militante, foi um dos fundadores da revista Revue indigène em 1927 e mais tarde a grande inspiração para os haitianos tomarem consciência de sua negritude. Em 1934 ele fundou o Partido Comunista Haitiano. Exilado, só voltou ao país em 1941, ano em que fundou o Instituto de Etnologia do Haiti. Sua obra póstuma, Gobernadores del Rocío (1944) teve grande repercussão no mundo negro. Outras obras suas são La proie et l'ombre (1930), Les fantoches (1931), La montagne ensorcelée (1931) e Bois d'ébène (1945).

    3 Livros
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    Porto Príncipe , Haiti

    Jacques Roumain