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    Maneiras de transformar mundos - Lacan, política e emancipação

    Vladimir Safatle

    Autêntica Editora
    2020
    176 páginas
    5h 52m
    ISBN-13: 9786586040814
    Português Brasileiro
    4.5
    36 avaliações
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    Neste livro, Vladimir Safatle mostra como o pensamento e a clínica de Jacques Lacan importam para aqueles que querem pensar a política para além do jogo de forças entre instituições e domínios de representação. Examinando os quatro conceitos fundamentais da política para a psicanálise – a saber: identificação, gozo, transferência e ato -, Safatle emprega a psicanálise como dispositivo crítico e prática transformativa contra a dominação conformista que a psicologia de cada época mobiliza como ideologia. Como a família conta em nosso processo de subjetivação, determinando horizontes de produção de autoridade? Como as formas religiosas se entranham em nossos processos de trabalho e produção de valor? Como nossas identidades tornam-se políticas no interior de sistemas de gestão de saber? Como pensar uma noção alternativa de liberdade considerando a experiência concreta de Lacan na organização de sua Escola de Psicanálise, de modo a sincronizar ato psicanalítico e processo revolucionário? Estas são perguntas crucias postas em circulação por este livro. Trabalho necessário tanto para entender como transformar a realidade de opressão, que enfrentamos hoje, quanto para fazê-lo em consideração ao desejo, no horizonte da subjetividade de nossa época.

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    Jess Carmo picture
    Jess Carmo10/06/2024Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Uma ontologia do inexistente é politicamente necessária

    Apesar de ser um livro que procura aproximar a teoria lacaniana a processos de emancipação, o livro não apela para a velha narrativa de que uma análise universal resolveria todos os conflitos e contradições sociais. Como diz Lacan, "tudo o que podemos pensar é que os dramas talvez fossem menos confusos". Mas por que a análise, sendo uma prática individual, teria por preocupação o campo social e político? Bem, para a psicanálise lacaniana, "a especificidade do sofrimento psíquico vem do fato de ele mobilizar sintomas, inibições, angústias e reações corporais para expressar impossibilidades sociais de reconhecimento" (p. 14). Nesse sentido, o reconhecimento será um conceito fundamental para compreendermos a especificidade da clínica lacaniana. Entretanto, o uso desse conceito terá uma particularidade na teoria lacaniana, a saber, "trata-se de um reconhecimento sem produção de identidade" (p. 14). Essa concepção do reconhecimento desestabiliza as lutas políticas atuais por não estar "fundada em demandas de reconhecimento de predicados da pessoa individualizada" (p. 14). Para a clínica lacaniana, a personalidade é formada através da socialização do indivíduo no interior de núcleos de interação como a família, as instituições sociais e o Estado. Dessa forma, a personalidade não é algo que nasce com o sujeito, mas um processo reiterado ao longo da vida do sujeito. Outro conceito fundamental para entendermos a intrusão da psicanálise na política é o conceito de gozo. A seguinte citação de Lacan introduz de forma clara a importância do conceito: "A intrusão [da psicanálise] na política só pode ser feita reconhecendo que só há discurso, e não apenas analítico, de gozo, ao menos quando se espera o trabalho da verdade" (seminário 7, p. 90 - apud). O conceito de gozo trata de um retorno de Lacan a Georges Bataille. Para este, o capitalismo se baseia na maximização de prazer e afastamento do desprazer. Ele vai distinguir o gozo dessa ideia de desprazer. O capitalismo desconhece o que é o gozo. O gozo rompe com esse cálculo de prazer e desprazer, abrindo a possibilidade de agirmos para além desse princípio do prazer. É nesse sentido que o além do princípio do prazer ganha uma dimensão ética e política em Lacan. É por isso que o capitalismo nada sabe sobre as coisas do amor, já que o amor não funciona em um infinito contábil. A psicanálise lacaniana é, portanto, indissociável de uma crítica à uma certa economia libidinal que se confunde com o capitalismo. Percebam que toda a construção teórica lacaniana busca retirar o sujeito de uma estrutura egóica. O reconhecimento perde o sentido do que se costuma entender na tradição político-filosófica, a personalidade deixa de ser uma categoria biológica e o gozo já não é mais sinônimo de prazer. Para Lacan, o Eu não é uma estrutura dinâmica, mas uma estrutura rígida e defensiva, sempre acossada pela possibilidade de ser invadida por um outro. Por isso ele é sempre caracterizado como uma instância de desconhecimento, agressiva, narcísica e paranoica. Todas essas características são respostas à fragilidade do Eu. Não é à toa que Lacan vai dizer que "o paciente é prisioneiro de seu ego, no grau exato que causa seu desamparo e revela sua função absurda" (LACAN, p. 34 - apud). Lacan dirá, em relação às dinâmicas de grupo, que "se podemos dizer que o neurótico é egocêntrico e tem horror a todo esforço de cooperar, é talvez por ele raramente se colocar em um meio no qual todo membro esteja no mesmo nível que ele no que se refere às relações ao seu semelhante" (LACAN, p. 52 - apud). Ou seja, ele fala da possibilidade de um novo tipo de vínculo social que não seja uma mera projeção narcísica do Eu. Para ele, esse tipo de vínculo, que tem por característica fundamental certo igualitarismo, tem força clínica e opera no interior da cura. Isso acontece porque as "relações de poder nos fazem sofrer, já que definem as formas de nossa expressão e existência. Sua mudança em situação clínica pode, por outro lado, ter força de cura e transformação" (p. 53). Apesar de não existir uma psicanálise do social, ou seja, da psicanálise não se propor a intervir no campo do social, ela consegue expor a retórica do Capital, "suas estratégias de justificação das exigências de produção e trabalho a partir de um pretenso enraizamento da economia em nossa psicologia" (p. 69). Uma das formas de expor isso, é mostrar que faz parte da retórica do Capital definir a sua forma de produção de riqueza como "expressão da satisfação de interesses e de maximização de prazer, definir os imperativos de concorrência e empreendimento como expressão de traços naturalizados do comportamento humano. [...] É na decomposição de tal fundamento psicológico da economia que a crítica psicanalítica ao capitalismo se insere. Ela nos lembra como o capitalismo coloniza nosso gozo, e nossa única alternativa é retirar tal gozo para fora do modo de produção que o coloniza" (p. 69). . O livro também tem boas considerações acerca da formação do analista. A escola deverá garantir uma transmissão, mais do que um ensino tradicional. Mas o que deve ser transmitido? Bem, Lacan dirá que "há um real em jogo na própria formação do analista". É a transmissão desse real que estará em jogo. A escola de psicanálise deve se organizar em torno da transmissão desse real e procurar diluir os efeitos "imaginários de grupo, ou mesmo dos vínculos simbólicos a sistemas de regras e normas" (p. 94). Não é à toa que Lacan fala sobre a transferência quando escreve sobre a escola. . Outro ponto importante da obra é a resposta que o autor dá a algumas críticas das feministas a Lacan. Para ele, não há um binarismo de gênero na psicanálise lacaniana, mas algo mais brutal, a saber, há um monismo. Dessa maneira, todos os sujeitos estão submetidos às formas do gozo fálico, independente do seu gênero. Entretanto, não há uma adequação possível desses sujeitos a esse gozo. Sempre haverá um sentimento de inadequação do sujeito em relação a esse gozo. Não é à toa que em Lacan tudo o que é interessante não existe. A mulher não existe, o Outro não existe, o gozo feminino não existe... É a sua maneira de dizer que a estrutura que organiza nosso campo de experiência atual nos oprime e nos faz sofrer e que "uma ontologia do inexistente é politicamente necessária" (p. 80).

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    Vladimir Pinheiro Safatle

    Em suas obras o autor propõe uma releitura da tradição dialética por meio da teoria psicanalítica de Jacques Lacan, além da reformulação de categorias clássicas do pensamento marxista, como fetichismo, crítica e reconhecimento. É um dos responsáveis pela publicação de um importante estudo sobre a ditadura militar e suas ramificações no presente, intitulado: O que resta da ditadura: a exceção brasileira (Boitempo, 2010). Publicou também contribuições à filosofia da música, à crítica da cultura e à teoria psicanalítica. Assinou ainda a introdução à tradução brasileira da obra Bem-vindo ao deserto do real! (Boitempo, 2003), do filósofo esloveno Slavoj Žižek.

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    Vladimir Pinheiro Safatle