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    A maçã no escuro - Edição comemorativa

    Clarice Lispector

    Rocco
    2020
    400 páginas
    13h 20m
    ISBN-13: 9788532531865
    Português Brasileiro
    4.1
    1106 avaliações
    Leram2103Lendo304Querem4024Relendo12Abandonos206Resenhas112
    Favoritos33Desejados4024Avaliaram1106

    Para Lúcio Cardoso, em toda obra de Clarice Lispector alguma coisa íntima está queimando. E este é o seu segredo de mulher e escritora. Em A maçã no escuro esta chama queima pacientemente enquanto se narra a trajetória de um homem. Um homem, um crime, uma fuga. Como se fosse possível retroceder os ponteiros do relógio, zerar o tempo marcado e, então, começar outra vez. Martim, um fugitivo, começa a se reinventar, a manufaturar o próprio destino: “Ele se tornou o centro do grande círculo e o começo arbitrário de um caminho.” A maçã no escuro é um romance dos anos 1950. Realizado durante o tempo em que a autora viveu nos Estados Unidos, foi concluído em Washington, em 1956. Mas só seria publicado em 1961, um ano depois de Laços de família, cujos contos primorosos conquistaram um expressivo público para Clarice Lispector. Os dois livros foram escritos simultaneamente e selam o amadurecimento da escritora. Situado entre obras decisivas do percurso literário de Clarice, A maçã no escuro fulgura como um romance denso e habitado por personagens comuns, mas que eleva o enredo a níveis impensáveis de transcendência. Embrionárias estão as questões centrais que vão eclodir em A paixão segundo G.H., depois do qual o romance brasileiro jamais será o mesmo. Clarice inaugura uma outra linha de tradição literária, porque desestabiliza as estruturas romanescas e cria parâmetros totalmente inovadores de representação.

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    Filipe Quevedo25/02/2025Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Que perdurem os ecos do silêncio...

    É, após ler os volumes Todos os contos, Todas as crônicas e Todas as cartas, com essa leitura de A maça no escuro completo minha trajetória também por todos os romances da autora, desde o inaugural (para mim e para ela) e marcante Perto do coração selvagem, finalizado no Halloween de 2017. Pois é, há quase 8 anos que (re)conheço Clarice e persigo com ela a essência do humano e o núcleo da vida. Com A maça no escuro, portanto, terminei a ficção adulta da escritora. Resta-me, quem sabe, ler os livros infantis... O livro começa misterioso. Martim, o primeiro protagonista masculino em um romance de Clarice, está fugindo de algo; parece ter cometido um "crime impremeditado"; um homem que "há duas semanas experimentara o poder de um ato". Martim deixa o hotel no qual se encontrava no ínicio da narrativa e chega a uma fazenda onde vive Vitória, a proprietária e Ermelinda, sua prima viúva, além de mais algumas pessoas. É nesta fazenda que se passa a maior parte do romance. A maça no escuro carrega, claro, os atributos do fazer literário todo único e próprio da autora. O texto de Clarice é muito exclusivo dela, e aqui não é diferente. O que ela escolhe enfocar e sobretudo a forma de apresentar esses enfoques através das palavras é algo sem paralelos mesmo. É inescapável que assim seja devido a complexidade temática e o texto tateante e espontâneo da Esfinge. Como bem define Rosiska Darcy de Oliveira durante o posfácio: "Clarice é uma criadora que põe em cena o ato de criar como um músico que improvisa no palco." Uma vez mais, como em tantos outros livros da escritora, o cerne da obra é a obsessiva necessidade de Clarice em questionar, investigar e analisar elementos profundos e imateriais da existência humana. Através principalmente dos três personagens acima mencionados, a autora interpela a vida e o mundo, como se com isso reivindicasse uma elucidação. Assim, o romance tenta tatear o intangível, desde coisas como identidade individual, Deus, o sentido da vida, a liberdade, a realidade, a existência, a incompatibilidade do corpo com a alma, a dissonância entre o ser e o mundo possível, até a linguagem, outro elemento muito caro a Clarice. É comum ver leitores(as) professando que não compreendem as obras da autora. Eu também não compreendo várias coisas dela. Suspeito que talvez a origem dessa incompreensão esteja ancorada no fato de que Clarice jamais diz o que deseja, pois se defronta com um obstáculo insuperável: a linguagem. Grande parte do que Clarice diz se encontra fora da superfície das palavras explícitas. O que ela grita está em camadas subterrâneas de transmissão. Ela até tenta vencer os limites da possibilidade de traduzir o mundo em texto, mas reconhece que a linguagem é aquém da vida; a linguagem é deficiente, inevitavelmente subordinada à realidade infinita em complexidade. Resta ouvir também os ecos até daquilo que jamais é dito. Semelhante a Clarice, no texto acima tão somente tateei a superfície imediata. Arde escrever sobre Clarice e ser insuficiente.

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