Seriam os atos do homem, às vezes os mais cruéis, necessários para elevá-lo à condição verdadeiramente humana? Em A maçã no escuro, Clarice Lispector faz crer que sim, transformando o atordoado Martim em um novo homem após ter supostamente assassinado a mulher. Fugindo do crime, Martim acaba descobrindo-se por inteiro, desprezando os antigos valores estabelecidos em sua vida. Sua fuga, em vez de isolá-lo, remonta à criação do homem, de um novo ser surgido do nada. Em vez de julgar os personagens culpados ou inocentes, Clarice Lispector faz deles aprendizes do mundo, onde cada etapa funciona como uma gênese de um ser recém-criado.
A maçã no escuro -
Clarice Lispector
Que perdurem os ecos do silêncio...
É, após ler os volumes Todos os contos, Todas as crônicas e Todas as cartas, com essa leitura de A maça no escuro completo minha trajetória também por todos os romances da autora, desde o inaugural (para mim e para ela) e marcante Perto do coração selvagem, finalizado no Halloween de 2017. Pois é, há quase 8 anos que (re)conheço Clarice e persigo com ela a essência do humano e o núcleo da vida. Com A maça no escuro, portanto, terminei a ficção adulta da escritora. Resta-me, quem sabe, ler os livros infantis... O livro começa misterioso. Martim, o primeiro protagonista masculino em um romance de Clarice, está fugindo de algo; parece ter cometido um "crime impremeditado"; um homem que "há duas semanas experimentara o poder de um ato". Martim deixa o hotel no qual se encontrava no ínicio da narrativa e chega a uma fazenda onde vive Vitória, a proprietária e Ermelinda, sua prima viúva, além de mais algumas pessoas. É nesta fazenda que se passa a maior parte do romance. A maça no escuro carrega, claro, os atributos do fazer literário todo único e próprio da autora. O texto de Clarice é muito exclusivo dela, e aqui não é diferente. O que ela escolhe enfocar e sobretudo a forma de apresentar esses enfoques através das palavras é algo sem paralelos mesmo. É inescapável que assim seja devido a complexidade temática e o texto tateante e espontâneo da Esfinge. Como bem define Rosiska Darcy de Oliveira durante o posfácio: "Clarice é uma criadora que põe em cena o ato de criar como um músico que improvisa no palco." Uma vez mais, como em tantos outros livros da escritora, o cerne da obra é a obsessiva necessidade de Clarice em questionar, investigar e analisar elementos profundos e imateriais da existência humana. Através principalmente dos três personagens acima mencionados, a autora interpela a vida e o mundo, como se com isso reivindicasse uma elucidação. Assim, o romance tenta tatear o intangível, desde coisas como identidade individual, Deus, o sentido da vida, a liberdade, a realidade, a existência, a incompatibilidade do corpo com a alma, a dissonância entre o ser e o mundo possível, até a linguagem, outro elemento muito caro a Clarice. É comum ver leitores(as) professando que não compreendem as obras da autora. Eu também não compreendo várias coisas dela. Suspeito que talvez a origem dessa incompreensão esteja ancorada no fato de que Clarice jamais diz o que deseja, pois se defronta com um obstáculo insuperável: a linguagem. Grande parte do que Clarice diz se encontra fora da superfície das palavras explícitas. O que ela grita está em camadas subterrâneas de transmissão. Ela até tenta vencer os limites da possibilidade de traduzir o mundo em texto, mas reconhece que a linguagem é aquém da vida; a linguagem é deficiente, inevitavelmente subordinada à realidade infinita em complexidade. Resta ouvir também os ecos até daquilo que jamais é dito. Semelhante a Clarice, no texto acima tão somente tateei a superfície imediata. Arde escrever sobre Clarice e ser insuficiente.
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