Quarto romance de Clarice Lispector, "A Maçã no escuro" apareceu em 1961, puco depois de "Laços de família", volume que enfeixa algumas das obras-primas de conto em língua portuguesa. "A maçã no escuro", se é possível estabelecer, no caso de Clarice Lispector, esse tipo de divisão, situa-se num momento em que ela, com uma obra já consumada, encontra-se no ápice da realização de suas potencialidades criadoras, pronta para mergulhar na radicalização de certas características de seu estilo, de resto ja bem explícitas, desde a estréia, em "Perto do coração selvagem". Com efeito, em "A maça no escuro", ainda não se observa o abandono total da noção absoluta do gênero 'romance', coisa que logo viria a acontecer com "A paixão segundo GH". Assim, "A maçã no escuro" ainda é um 'romance', mesmo que fulgurantemente impregnado das marcas mais pessoais de Clarice, e mesmo que aberto para o horizonte ficcional descortinado desde "Perto do coração selvagem", saudado por Álvario Lins como "nosso primeiro romance dentro do espírito e da técnica de James Joyce e Virginia Woolf". Ainda um detalhe: não raro apontada como ficcionista que só produzia sob 'inspiração', voltada para o intimismo, na sua prática quase cotidiana do ato de escrever Clarice Lispector desmentia essas classificações. Em carta a uma de suas irmãs, recém -publicada no livro de Olga Borelli "Clarice Lispector": esboço para um possível retrato, ela conta que "A maçã no escuro" só foi considerado pronto após tê-lo trabalhado ao longo de oito versões! Texto deslumbrante, em que a introspecção psicológica, levada ao máximo extremo, conjuga-se habilmente a estrutura da narrativa, como já se disse, tipica do 'romance' enquanto gênero delimitado, "A maçã no escuro" é livro essencial à compreensão da totalidade do percurso criador de Clarice Lispector.
A Maçã no Escuro -
Clarice Lispector
Que perdurem os ecos do silêncio...
É, após ler os volumes Todos os contos, Todas as crônicas e Todas as cartas, com essa leitura de A maça no escuro completo minha trajetória também por todos os romances da autora, desde o inaugural (para mim e para ela) e marcante Perto do coração selvagem, finalizado no Halloween de 2017. Pois é, há quase 8 anos que (re)conheço Clarice e persigo com ela a essência do humano e o núcleo da vida. Com A maça no escuro, portanto, terminei a ficção adulta da escritora. Resta-me, quem sabe, ler os livros infantis... O livro começa misterioso. Martim, o primeiro protagonista masculino em um romance de Clarice, está fugindo de algo; parece ter cometido um "crime impremeditado"; um homem que "há duas semanas experimentara o poder de um ato". Martim deixa o hotel no qual se encontrava no ínicio da narrativa e chega a uma fazenda onde vive Vitória, a proprietária e Ermelinda, sua prima viúva, além de mais algumas pessoas. É nesta fazenda que se passa a maior parte do romance. A maça no escuro carrega, claro, os atributos do fazer literário todo único e próprio da autora. O texto de Clarice é muito exclusivo dela, e aqui não é diferente. O que ela escolhe enfocar e sobretudo a forma de apresentar esses enfoques através das palavras é algo sem paralelos mesmo. É inescapável que assim seja devido a complexidade temática e o texto tateante e espontâneo da Esfinge. Como bem define Rosiska Darcy de Oliveira durante o posfácio: "Clarice é uma criadora que põe em cena o ato de criar como um músico que improvisa no palco." Uma vez mais, como em tantos outros livros da escritora, o cerne da obra é a obsessiva necessidade de Clarice em questionar, investigar e analisar elementos profundos e imateriais da existência humana. Através principalmente dos três personagens acima mencionados, a autora interpela a vida e o mundo, como se com isso reivindicasse uma elucidação. Assim, o romance tenta tatear o intangível, desde coisas como identidade individual, Deus, o sentido da vida, a liberdade, a realidade, a existência, a incompatibilidade do corpo com a alma, a dissonância entre o ser e o mundo possível, até a linguagem, outro elemento muito caro a Clarice. É comum ver leitores(as) professando que não compreendem as obras da autora. Eu também não compreendo várias coisas dela. Suspeito que talvez a origem dessa incompreensão esteja ancorada no fato de que Clarice jamais diz o que deseja, pois se defronta com um obstáculo insuperável: a linguagem. Grande parte do que Clarice diz se encontra fora da superfície das palavras explícitas. O que ela grita está em camadas subterrâneas de transmissão. Ela até tenta vencer os limites da possibilidade de traduzir o mundo em texto, mas reconhece que a linguagem é aquém da vida; a linguagem é deficiente, inevitavelmente subordinada à realidade infinita em complexidade. Resta ouvir também os ecos até daquilo que jamais é dito. Semelhante a Clarice, no texto acima tão somente tateei a superfície imediata. Arde escrever sobre Clarice e ser insuficiente.
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