Húmus -

    Raul Brandão

    Carambaia
    2022
    226 páginas
    7h 32m
    ISBN-10: B0BNCK9G6L
    Português

    Um dos marcos fundamentais da literatura portuguesa do século XX, Húmus completou em 2017 seu centenário, coincidindo com os 150 anos do nascimento de seu autor, Raul Brandão (1867-1930). Obra inclassificável, que se equilibra em algum ponto entre romance, ensaio e prosa poética, é tão reverenciada quanto pouco lida – a edição brasileira anterior saiu em 1921. Esta versão segue o texto de 1926, retrabalhado pelo autor. Em Húmus, referência à matéria orgânica feita de decomposição, que Brandão evoca como fim e recomeço de toda a vida sobre o planeta, o formato é de diário e o cenário é uma vila modorrenta habitada por figuras ancestrais e quase estáticas, absorvidas por rotinas banais. "Seres e coisas criam o mesmo bolor, como uma vegetação criptogâmica, nascida ao acaso num sítio úmido", constata um narrador atormentado pelo absurdo à sua volta. Seu interlocutor é uma figura enigmática e provocadora, o Gabiru, que às vezes se sobrepõe ao próprio "eu" do autor. Outros personagens fantasmagóricos surgem e desaparecem até que uma ideia, a rigor inconcebível, começa a tomar vulto: a supressão da morte. Para muitos críticos, Brandão representa, com Húmus, um dos alicerces inaugurais do modernismo português, ao lado de nomes mais conhecidos, como os poetas Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros, integrantes do grupo ligado à revista Orpheu.

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    Denise Maria Souza João17/07/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Confesso que este livro não foi uma escolha imediata: eu adoro a Carambaia e volta e meia eu entro no site para ver as novidades. Húmus estava lá desde as minhas primeiras visitas, mas não me fisgava. Um dia mudei de ideia. Isto já revela um pouco sobre mim: eu não tenho ideias absolutas, eu mudo o tempo todo. Então tenho que escolher o próximo livro, Húmus está bem visível na estante, uma de minhas últimas aquisições. Faço o que não é costume: abro numa página aleatória e leio isto: "Para não ver, para não ouvir, é que nos curvamos sobre a mesa de jogo. Para te não ouvires a ti mesmo, para não veres o que te gasta a todos os minutos e a todas as horas, usura imensa que não sentes e que te vai levar para o escantilhão sôfrego, que te vai mergulhar no silêncio profundo. Usura de todos os instantes. Gasta-nos, desgasta-nos. E todos os dias acordamos mais velhos, todos os dias acordamos mais inúteis. Todos os dias acordamos com mais fel. E todos os dias com mesuras, sem gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de jogo, não vendo, fingindo que não existe, o espanto que está ao nosso lado, o espanto pior que trazemos conosco. Chama-se a isto o cotidiano. Isto não tem importância nenhuma. Com isso enchemos a vida até chegar a morte. (...)" Pronto, me ganhou! Descobri que Húmus é como eu... rs... um turbilhão de emoções, sensações e pensamentos que se confundem, às vezes de forma coerente, às vezes não; às vezes são tantas reflexões ao mesmo tempo que elas jorram aos borbotões sem filtro, é preciso atenção. Noutras, os personagens são tão palpáveis que é como se estivessem ao meu lado. É uma leitura difícil pela forma narrativa, mas ao mesmo tempo tão fácil pelos conflitos que apresenta! A vila - e suas figuras femininas - é o ponto de partida, o cenário para as reflexões do autor, mas não há uma história: é um verdadeiro fluxo - e refluxo - de consciência. Se não quer quebrar a cabeça, não leia este livro.

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