Tornar-se Negro (Coleção Tendências #nº 4) - Ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social

    Neusa Santos Souza

    Graal
    1983
    90 páginas
    3h 0m
    ISBN-10: 6559790290
    Português Brasileiro

    Saber-se negro é viver a experiência de ter sido violentado de forma constante, continua e cruel, pela dupla injunção de encarnar o corpo e os ideais do Ego do sujeito branco e de recusar, negar e anular a presença do seu corpo negro. Ante a desvalorização sistemática dos atributos físicos do sujeito negro, seu corpo se opõe à identidade branca, que ele é coagido a desejar. Diante da “ferida” que é a representação da sua imagem corporal, o negro oprimido pela violência racista procura cicatrizar o que sangra. No desejo de embranquecer, deseja a sua própria extinção, e sucumbe no combate contra a realidade do seu corpo, com tentativas de “correção” física e submissão ao código do comportamento tido como branco. Este livro procura romper a precariedade de estudos sobre a vida emocional dos negros. Diante da flácida omissão com que a teoria psicanalítica tem tratado deste assunto, a autora apresenta reflexões profundas e inquietantes sobre o custo emocional da sujeição, da negação da própria cultura e do próprio corpo. O negro que se empenha na conquista da ascensão social paga o preço do massacre de sua identidade. Toma o branco como modelo de identificação, como única possibilidade de “tornar-se gente”.

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    Roseane Corrêa21/07/2018Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Eu me torno a cada dia

    Neusa Santos Souza foi uma pesquisadora muito respeitada. Com cerca de 60 anos de idade, suicidou-se sem antes jamais ter dado sinais de depressão ou de que pudesse um dia recorrer ao gesto extremo de tirar a própria vida. Em seu livro trás para o debate a branquitude, o mito da democracia racial e as sequelas emocionais de negros que rechaçam a própria imagem em busca de um padrão, que não é o negro. Não existe democracia e sim uma ditadura racial onde o referencial é o branco. Neusa, mulher negra, militante, trabalhadora da saúde mental fez o trabalho utilizando o método estudo de caso e a técnica de história -de-vida, assim ela entrevista 10 pessoas negras do Rio de Janeiro que estão em ascensão social. Ler esse estudo é como se estivesse lendo a própria mente. Todas as situações aqui relatadas ou é vivenciada ou testemunhada pela população negra em ascensão. Aqui fala- se em ser negro dentro de uma sociedade branca. O branco é lido como padrão e como única possibilidade de ?tornar-se gente?. Para isso existe o desconhecimento e negação de toda uma história e ancestralidade. Propositalmente a história do povo negro vem sento contada por livros escritos por pessoas brancas onde a trajetória inicia-se com a escravidão, o negro é inferiorizado, subjugado, desumanizado, infantilizado. Ao ascender socialmente, tem-se a intenção de romper com todas essas desqualificações inicia-se o processo de deixar de ser negro. Geralmente esse processo de inicia em casa, na família, no local de convívio: *penteia esse cabelo, tá parecendo uma negrinha *passa um creme nessa perna, tá parecendo nega de morro *se arruma direito tá parecendo um preto ... Ser o melhor é uma das perspectivas pra compensar seu ?defeito? porém ser Branco lhe é impossível então cria-se um ciclo de auto desvalorização, timidez, retraimento, ansiedade, submissão... A identidade negra é um processo em construção. Oxalá estamos mais avançados do que em 1983 quando foi feito a pesquisa. Esse avanço só foi possível quando nós tomamos de assalto o protagonismo de nossa história. Passamos nós a escrever e contar a nossa história. Ainda temos muito que crescer, como conclui a autora ?ser negro não é uma condição dada, a priori. É um vir a ser. Ser negro é tornar-se negro.? Livro essencial para quem estuda auto cuidado, saúde mental da população negra, auto ódio, reprodução de racismo pela população negra... Bons estudos

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