Poesia do cotidiano, cheia de religiosidade e erotismo, muita intertextualidade, principalmente com a Bíblia, mas também com Drummond, o poeta com quem mais ela conversa. Essa matriz erótico-teológica da poeta é a sua principal característica, uma teologia que não é a dos seminários, mas a do dia a dia, que contém elementos tanto da catequese católica como da crença popular, e um erotismo que não romantiza o corpo, mas que o mostra sem fantasias, tal como é. Sua poesia abarca as coisas da vida com muita sutileza, numa linguagem coloquial equilibrada e com muita, muita positividade. É uma poesia alegre, mesmo quando te fala de dor e morte, é uma poesia feliz, mas sem ser de forma alguma inocente. Apresento dois dos meus poemas favorito desse livro como exemplo:
CASAMENTO
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como este foi difícil
prateou no ar dando rabanadas
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
O LUGAR DA NECRÓPOLE
Há quem tendo cantado e batido os dentes no copo
já morreu.
Há quem tendo falado suas dores secretas
está hoje selado sob lápides,
excrescendo sobre mim o seu fantasma
de pessoa verdadeira, rebelada,
de pessoa poética.
Na juventude me comprazia o fúnebre,
as faces lívidas dos poetas doentes.
Hoje, só preciso da vida pra morrer.
Nas metrópoles,
o campo-santo acaba confundido,
rodeado de bares.
E por causa disso iludem-se as pessoas
de ter nas mãos a indomesticável.
O cemitério quer ladeira e montes
para os quais se olha ao entardecer:
um dia estarei lá,
lá longe,
no incontestável lugar.