Biblioteca Universal - Três contos

    Gustave Flaubert

    três
    1974
    137 páginas
    4h 34m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Este livro contém três contos longos, ou três novelas curtas, de Gustave Flaubert (1821-1880): "Uma alma simples", "A lenda de São Julien Hospitaleiro" e Herodíade. A primeira passa-se na Normandia, terra natal do escritor, e conta a comovente história de Félicité, uma empregada doméstica sozinha pelo mundo. Em "A lenda de São Julien Hospitaleiro", domina o clima de conto de fadas medieval, e o tema é a violência e a religiosidade de um jovem caçador e parricida. E, em Herodíade, o autor recua ainda mais no tempo, para o inicio da Era Cristã, e mostra um profeta que é objeto da ira de judeus e romanos e do amor de homens e mulheres. Este passeio compassivo e ficcional de Flaubert ao longo da história da humanidade foi escrito em um período difícil da sua vida. A redação de "A lenda de São Julien Hospitaleiro" foi iniciada em 1875, quando Flaubert estava às voltas com Bouvard e Pécuchet (que permaneceu inacabado). Instigado pela escritora e amiga George Sand, ele criou "Uma alma simples", após a morte da sua amante Louise Collet, e finalmente, em 1877, concluiu o seu tríptico com Herodíade. Três contos é uma bela amostra da capacidade do autor de retratar com riqueza psicológica os personagens mais distintos. Característica levada ao ápice em sua obra-prima, Madame Bovary (vol. 328 da Coleção L&PM Pocket).

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    Guilherme M15/04/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Dois contos e um terceiro

    Última obra completa do autor de “Madame Bovary”, “Três contos” foi publicado em 1877, a três anos da morte do escritor. A prosa de Flaubert é fluida, agradável e extremamente elegante. O primeiro conto (“Num coração simples”) elege como protagonista uma empregada doméstica devota e analfabeta. Como aponta o tradutor Samuel Titan Jr. na apresentação do livro, a força desse retrato singular é tratar “com honras de personagem principal uma figura que, o mais das vezes, seria mais uma na multidão de personagens secundárias que povoam um romance” (p. 9/11). O segundo conto (“A legenda de São Julião Hospitaleiro”) reinventa a história bíblica de um santo com maestria tal que a narrativa ganha vida própria, sem dependência de pesquisa prévia pelo leitor. Isso não ocorre com o terceiro conto, “Herodíade”. Nele, Flaubert narra outro episódio bíblico – a morte de São João Batista – de uma perspectiva também particular, mas inteiramente subordinada ao prévio conhecimento do leitor. Por óbvio, isso não compromete o valor artístico da obra, mas limita o alcance da leitura de cada um. Eu, que pouco conheço da Bíblia, não consegui sustentar o interesse no decorrer desse conto. Naturalmente, o autor sabia que isso poderia acontecer. Em carta ao escritor Guy de Maupassant, revelou: “enfim, começarei minha ‘Herodíade’. Terminei minhas anotações e agora estou desemaranhando meu plano. O difícil aqui é dispensar, na medida do possível, as explicações indispensáveis” (p. 142). Particularmente, acredito que Flaubert não apenas sabia que o conto ficaria insuportável se contivesse todas as explicações bíblicas possíveis, como aceitava que essa não seria uma leitura acessível ou interessante a todos. Ainda assim, os dois primeiros contos são extraordinários e só por si valem a leitura.

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