Três contos -

    Gustave Flaubert

    L&PM
    2019
    176 páginas
    5h 52m
    ISBN-13: 9788525438737
    Português Brasileiro

    Publicado pela primeira vez em 1877, Três contos reúne alguns dos textos mais celebrados de Gustave Flaubert (1821- 1880). Um coração simples passa-se na Normandia, terra natal do escritor, e conta a comovente trajetória da solitária criada Félicité. Em A lenda de São Julião Hospitaleiro domina o clima de conto de fadas medieval, e o tema é a violência e a religiosidade de um jovem caçador e parricida. E, em Herodíade, o autor recua ainda mais no tempo, para o início da Era Cristã, e mostra um profeta que é objeto da ira de judeus e romanos, e do amor de homens e mulheres. Este passeio compassivo e ficcional de Flaubert ao longo da história da humanidade foi escrito em um período difícil da sua vida. Instigado pela romancista e amiga George Sand, escreveu Um coração simples após a morte de Louise Colet, sua amante, em 1876. Já a redação do segundo conto foi iniciada ainda em 1875, quando o autor estava às voltas com a escrita de Bouvard e Pécuchet – que permaneceu inacabado. E, finalmente, em 1877, concluiu seu tríptico com Herodíade. Três contos é uma bela amostra da capacidade do autor de retratar com riqueza psicológica os personagens mais distintos. Característica levada ao ápice em sua obra-prima, Madame Bovary, também publicada na Coleção L&PM Pocket.

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    Guilherme M15/04/2024Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Dois contos e um terceiro

    Última obra completa do autor de “Madame Bovary”, “Três contos” foi publicado em 1877, a três anos da morte do escritor. A prosa de Flaubert é fluida, agradável e extremamente elegante. O primeiro conto (“Num coração simples”) elege como protagonista uma empregada doméstica devota e analfabeta. Como aponta o tradutor Samuel Titan Jr. na apresentação do livro, a força desse retrato singular é tratar “com honras de personagem principal uma figura que, o mais das vezes, seria mais uma na multidão de personagens secundárias que povoam um romance” (p. 9/11). O segundo conto (“A legenda de São Julião Hospitaleiro”) reinventa a história bíblica de um santo com maestria tal que a narrativa ganha vida própria, sem dependência de pesquisa prévia pelo leitor. Isso não ocorre com o terceiro conto, “Herodíade”. Nele, Flaubert narra outro episódio bíblico – a morte de São João Batista – de uma perspectiva também particular, mas inteiramente subordinada ao prévio conhecimento do leitor. Por óbvio, isso não compromete o valor artístico da obra, mas limita o alcance da leitura de cada um. Eu, que pouco conheço da Bíblia, não consegui sustentar o interesse no decorrer desse conto. Naturalmente, o autor sabia que isso poderia acontecer. Em carta ao escritor Guy de Maupassant, revelou: “enfim, começarei minha ‘Herodíade’. Terminei minhas anotações e agora estou desemaranhando meu plano. O difícil aqui é dispensar, na medida do possível, as explicações indispensáveis” (p. 142). Particularmente, acredito que Flaubert não apenas sabia que o conto ficaria insuportável se contivesse todas as explicações bíblicas possíveis, como aceitava que essa não seria uma leitura acessível ou interessante a todos. Ainda assim, os dois primeiros contos são extraordinários e só por si valem a leitura.

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