Ler "Graça Infinita" é tipo assumir um relacionamento sério, um compromisso bastante duradouro que, por mais que saiba que chega ao fim alguma hora, você não consegue muito bem vislumbrar esse momento nem antever quando acontecerá. Dependendo de como for sua experiência (GI, definitivamente, não é um livro pra todo mundo, ou melhor, pra todos os gostos), também gostaria de evitar o fim por mais inevitável que ele possa ser (mil e tantas páginas: pode não parecer, mas são finitas). De repente você se pega por semanas (meses, provavelmente) a fio andando por aí com um belo calhamaço pesado nas mãos (na mala, na mochila), carregando um romance que pesa como pedra. Nunca a ideia de “tijolo” para descrever um livro foi tão literal. Você ama e odeia o livro por conta disso. O peso extra na mochila nunca te deixa esquecer que ele está ali, insistindo em te puxar. Você abre mão de outras coisas pra carregá-lo, abre mão de outras leituras pra privilegiar o fluxo da narrativa. Das narrativas. Cabe muita coisa num livro desses. Os narradores se alternam, as situações, a memória e o tempo, tudo um pouco entrecortado. Há descrições pormenorizadas de como funciona uma academia de tênis construída para adolescentes de performance de alto nível, o aquecimento, os treinamentos, as táticas, os jogos; páginas e páginas sobre o funcionamento de uma casa de recuperação vinculada a um AA, a rotina, as reuniões, seus problemas práticos e relacionais. Um manual sobre medicamentos e drogas sintéticas, para todos os efeitos. Um manual sobre um jogo absurdo e aparentemente bastante sem graça chamado Eskhaton. Claro que o que interessa, no entanto, são as personagens inseridas nesses espaços - acompanhamos a história de vários deles, todos "mui sui generis", bizarros nos mais variados sentidos. "Bizarro" é uma boa palavra para descrever o enredo, com toda a certeza. Às vezes DFW parece perder a mão e a noção, e exagerar no andar (ou na lentidão) da coisa - mas claro que o faz de propósito. O incômodo e a angústia também fazem parte da experiência, com certeza. Também fazem parte da proposta, do Entretenimento (diferente do Entretenimento fílmico e homônimo do enredo, que promete ser tão arrebatadoramente prazeroso que impossibilita qualquer um que o assista de fazer qualquer outra coisa que não seja assisti-lo). Tudo aqui pode ser percebido como metafórico e proposital, como essencialmente experimental. Às vezes há a tentação de voltar pra Lá Fora, deixar o livro de lado - mas a gente tem é que Aguentar Firme. Continuar Vindo. Continuar Lendo. Porque logo nos Identificamos com muita coisa. Muita coisa. DFW fala de uma sociedade num futuro tão presente que parece sempre pronto a acontecer (isso já há 20 anos, já que o livro foi lançado em 1996). DFW fala sobre todos nós. Expõe muita coisa nossa, enquanto sociedade e também enquanto sujeito. Li o livro em pouco menos de dois meses, em três estados brasileiros, em pelo menos uma dúzia de cidades diferentes. Carregava sempre comigo. As viagens de ônibus me ajudaram a manter um bom ritmo de leitura. Mas li "Graça Infinita", principalmente, logo antes de dormir. Trocava um pouco de sono por um pouco mais de leitura. Um sacrifício nem tão sacrificante assim. Isso, porém, foi significativo na minha experiência pessoal com o livro, com toda a certeza. Tive uma porção de sonhos bizarros por conta dessa rotina de leituras pré-sono. Sonhei com partidas de tênis. Sonhei com o pequeno grande Mário. Sonhei com cadeirantes assassinos. Gately era meu chapa. Hal, meu companheiro de quarto. Sonhei com mortes bizarras, com teatros de fantoches, com pessoas que usavam um véu. Sonhei com pessoas incrivelmente altas e canhotas. Sonhei com reuniões de AA. Sonhei que dirigia um filme. Sonhei que dirigia um guincho. Sonhei com tempestades de neve. Meus sonhos ficaram muito mais sem pé nem cabeça. Vou sentir falta desses sonhos.