Caso único na literatura tcheca editada no Brasil, pois nunca antes havia se abordado, ao menos na ficção, o processo de identidade de tchecos que se estabeleceram no Brasil no século XX. O livro, com suas muitas vozes, se alterna entre Praga, São Paulo e o interior do Mato Grosso do Sul (resultado das investidas do empresário Jan Antonín BaÅ¥a, uma figura hoje pouco lembrada, mas significativa o bastante para ter proposto a mudança do governo tchecoslovaco para o interior do Brasil durante a ocupação nazista do seu pais).
Então, pelo menos para mim, o mais interessante no livro é observar a maneira como os tchecos vindos para cá lidam com o "jeito brasileiro de ser", com seu caráter mais expansivo, com as suas contradições sociais e com o seu sincretismo religioso (é bem curioso ver como os personagens lidam com as crenças espiritualistas dos brasileiros, por exemplo, tanto mais porque os tchecos são reconhecidos como o povo menos religioso do mundo).
Parece-me um livro sobre identidade e sobre pertencimento que se alterna entre esses pontos geográficos no Brasil e na República Tcheca. A reflexão de uma personagem: "De repente, soube que da mistura do meu eu brasileiro com uma gota de essência checa nasceria algo absolutamente novo, que me dava ainda esperança de que não iria sufocar na própria indecisão do que fazer comigo mesma".
Em meio a esse processo de autoidentificação, há contas com o passado que precisam ser acertadas e é a antiga história de um romance que acaba por unir os vários elos da trama. O livro tem um "quê" que nós brasileiros associamos facilmente ao Kundera, pela alternância de vozes e pela dimensão um tanto filosófica dos personagens. Leitura muito interessante.