Mayombe

Mayombe Pepetela




Resenhas - Mayombe


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Rosa Santana 19/06/2014

MAYOMBE - Pepetela, Dom Quixote, 290 páginas

Esse é o terceiro livro do autor que leio. O primeiro, O Cão e os Caluandas, me deixou encantada com a forma com que o autor montou a narrativa. Fui ao segundo - A Sul. O Sombreiro - que, por outros motivos, tb me encantou. E, agora, vamos a Moyombe! De conteúdo histórico e revolucionário, o romance conta a história da luta do MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola contra os dominadores, portugueses.
Apesar de seu conteúdo um tanto "político", o livro não se encaixa na chamada literatura engajada, aquela panfletária, porque traz valores universais para a discussão. Como por exemplo, as reflexões de Sem Medo, um dos personagens que assume o comando do grupo. Elas são de uma coerência e de uma lucidez que me encantaram. O personagem vive, realmente, o que prega acerca do socialismo, não medindo esforços para demonstrar isso. Gosto muito de personagens assim. São difíceis de ser construídos porque lógicos e, conseqüentemente, necessitam de muito estudo por parte de quem os constrói. O nome dele (ou apelido de guerrilheiro) já diz: o que não teme a opinião dos outros, as convenções sociais que estão cristalizadas no inconsciente coletivo! E essa ausência de temor se revela claramente no final da história, na íntegra.
Outra característica do autor de que gosto muito é a variação do foco narrativo. Aqui várias personagens se colocam como narrador, "revezando-se" nesse papel. E isso fornece ao leitor um leque mais amplo, dado serem as análises e ponderações provindas ora de um, ora de outro, e tendo cada um suas peculiaridades, uns mais práticos, outros mais sensitivos e idealistas. Parece-me, na prática, o socialismo que o autor prega: todos tem os mesmos direitos, inclusive o de se constituírem narradores de sua história e da de seus companheiros!
Os nomes que os guerrilheiros recebem quando são aprovados no MPLA tem carga semântica reveladora, já que, por si só, apresentam dados importantes à caracterização dos seus donos, ganhando, assim, bastante relevo. Como o Sem Medo, há o Teoria, o Novo Mundo, entre tantos outros a desfilar diante de nós, com seus conflitos internos, suas carga de humanidade e sua adesão a um movimento que lhes dará um poder muitas vezes questionado.
O romance faz, principalmente, a análise do tribalismo e da diversidade de mundos o do intelectual, o do homem do povo, o de seres humanos tão distintos, por valores tribais - que fazem uma revolução...

Trechos que destaco:

"Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem esperava ouvir um não. A culpa será minha se os homens exigem pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros; o mundo é geralmente maniqueísta." - 07

"...A certeza de que estava perdido foi tão grande que decidi que o inferno não existia, não podia existir, senão eu estaria condenado. Ou negava, matava o que me perseguia, ou endoidecia de medo. Matei Deus, matei o Inferno e matei o medo do Inferno. Aí aprendi que se devem enfrentar os inimigos, é a única maneira de se encontrar a paz interior." - 37

"Ele tem uma Bíblia... Toda a verdade está escrita, gravada em pedra, nem dois mil anos de história poderão adulterá-la. Felizes os que creem no absoluto, é deles a tranquilidade de espírito! Não queres ser feliz, seguríssimo de ti mesmo? Arranja um catecismo..." - 141

"Tornar-se homem é criar uma casa à volta, cheia de picos que protejam, uma casca cada vez mais dura, impenetrável. Ela endurece com os golpes sofridos." - 153

"Queremos transformar o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade, e a todo momento arranjamos desculpas para reprimir nossos desejos. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúcidos. Só covardia. É medo de nos enfrentarmos, é um medo que nos ficou dos tempos do em que temíamos a Deus, ou o pai, ou o professor, é sempre o mesmo agente repressivo. Somos uns alienados. O escravo era totalmente alienado. Nós somos piores, porque nos alienamos a nós próprios. Há correntes que já se quebraram mas continuamos a transportá-las conosco, por medo de as deitarmos fora e depois nos sentirmos nus." - 208

"Acho que o que nos separa é a linguagem. Não temos a mesma linguagem. " - 235

"Raciocinamos em função da cultura judaico-cristã europeia,em que o homem tem de ser ciumento, porque é o bode do rebanho, e a mulher, sua propriedade." - 212

"Sempre quis ultrapassar o meu lado humano. Ser Deus ou um herói mítico." - 253

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Phelipe Guilherme Maciel 05/06/2018

Este livro conta a história de Ogum. O Prometeu Africano. Será?
"O Mayombe começa com um comunicado de guerra. Eu escrevi o comunicado e...o comunicado pareceu-me muito frio, coisa para jornalista, e eu continuei o comunicado de guerra para mim, assim nasceu o livro." - Pepetela.

Mayombe é o primeiro romance de Pepetela, nome de guerra de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos. Pepetela foi guerrilheiro do MPLA (Movimento Pela Libertação de Angola). É curioso o fato deste livro se chamar MAYOMBE.... Poderia ter um nome muito mais revolucionário, idealista, que traduzisse o esforço de guerra, a bravura dos guerrilheiros, ou o mote da revolução. Porque este livro se chama Mayombe, e não: Morte aos Tugas!?
Acredito que o principal motivo seja que a Mayombe, a grande floresta onde boa parte da trama acontece, é o personagem principal do livro, e a força de onde tudo nasce. E também é importante citar que este é um livro sobre guerrilha que não fala de guerrilha.

Neste livro veremos principalmente a relação dos personagens com a floresta e seus dilemas pessoais, tribais, e a luta dos intelectuais para se encaixar aos ideais revolucionários comunistas. Ações de guerra são raras, Os portugueses e angolanos se enfrentam em duas batalhas durante todo o livro, e os Angolanos fazem algumas poucas ações de guerrilha para desmoralizar o inimigo em outros episódios. Eles estão muito mais em guerra com seus interiores do que com o inimigo.

O foco desse livro é desnudar os personagens. E o mais cômico é que os personagens são desnudados até a alma, e não sabemos o nome real da maioria deles. Todos são apresentados com seus nomes de guerra. Sem Medo, Muatiânvua, Comissário, Das Operações, Teoria, etc. Raros são os personagens que saem do nome de guerrilha e sabemos seus nomes reais. Mas através de um narrador onisciente e de pontos de vista em Primeira pessoa onde o escritor dá voz aos principais personagens, saberemos o mais profundo da alma de cada um deles. Por isso acredito que a guerra pela libertação de Angola contra Portugal é apenas um cenário, e como disse o próprio Pepetela, o livro surgiu de uma obrigação sua de passar um telegrama de guerra. É apenas o rastilho de pólvora que deu origem a tudo. Pepetela atuou na guerra como Comissário, era um dos Intelectuais.

É maravilhosa a consciência política do autor, escancarada nos debates políticos protagonizados principalmente entre Sem Medo, o líder do grupo guerrilheiro e O Comissário de Guerra, que é o intelectual responsável pela educação política do grupo. Outros grandes embates de opiniões são protagonizadas com personagens secundários da mesma forma.
No decorrer das páginas 110 a 155, percebemos claramente que o autor não estava afogado na cartilha Marxista e conseguiu desenhar muito bem o destino fatídico de todo movimento popular que chega ao poder, e as demagogias e paradoxos no discurso mobilizador.
O livro passa a ideia clara de que o MPLA considerava que o MOVIMENTO suplantaria a CRISE TRIBAL complexa de Angola, que já estava desenhada na época da luta armada contra Portugal e que culminaria na sangrenta Guerra Civil Angolana, logo após sua independência.
Os vários pontos de vista dos guerrilheiros que já citei aqui que desnudam suas almas, também esclarecem que a questão tribal não poderia ser resolvida apenas com discursos sobre União Nacional.
O maior inimigo do povo angolano, portanto, não eram os Tugas, mas sim, o próprio povo, fragilizado por séculos de colonização e catequização depreciativa de sua própria história. Eram vítimas e algozes ao mesmo tempo.
Um ponto marcante a se observar é a deposição de André do posto de Líder geral da região, após a descoberta de seus crimes de desvio de verbas, e sexo com mulheres casadas. Em seus pensamentos, ele confidencia ao leitor que basta fazer uma autocrítica, e tudo se resolveria. Não iriam puni-lo como ele deveria ser punido. Além da firme convicção de seu próprio poder, ao ridicularizar o líder comunista Lênin, ele ridicularizava o próprio MPLA.
Esse flagrante caso de corrupção antes mesmo de o movimento se instalar no poder evidencia que o escritor, Pepetela, já percebia desde cedo que o movimento estava fadado ao fracasso de tentar levar a cabo um projeto utópico. Inclusive, já integrante do governo angolano pós Guerra Civil, Pepetela escreveu outros livros que criticam a fome de poder dos novos comandantes da nação, além de fazer uma autocritica a si próprio e aos intelectuais do povo. Pepetela também acaba por se afastar do poder e se dedicar somente a escrita e a profissão de Professor.
Mayombe é o grande personagem principal pois todos se utilizam dela para tudo. Ela é a maior aliada dos guerrilheiros, mas somente após eles próprios aprenderem a tê-la como aliada. Ela, que fornece abrigo e alimentação, também os maltratava e machucava quando estes eram estranhos. Eles a tratam como divindade: O Deus Mayombe. O Deus das matas para os Iorubás (Nigerianos) é Oxóssi. Para os guerrilheiros Angolanos, era Mayombe.
O narrador nos informa que contará a história de Ogum, outro Deus Iorubá, que é o Deus da Guerra, como se esse fosse o Prometeu Africano. Ogum é claramente sintetizado em Sem Medo, o grande guerrilheiro, mas cabe aqui lembrar que Ogum é um Deus Iorubá, ou seja, Nigeriano. Ogum é Ioruba e foi para o Brasil na rota dos escravos, em Angola não é conhecido. Isso é apenas um modo do escritor criar um legado cultural para a África.

Uma divagação afro-religiosa:
Questiono no título dessa resenha se Ogum seria realmente o prometeu Africano... Talvez não. Ogum pode ser Sem Medo. Mas o Prometeu Africano ao meu ver seria Exu. Este é o Orixá perfeito para desobedecer as ordens de outros deuses, seja em proveito próprio ou proveito da humanidade.
Mayombe seria Oxóssi. Sem Medo seria Ogum. Exu seria o Prometeu Africano.

Mayombe é um livro que deve ser lido. É a primeira obra angolana que dessacraliza os heróis. É também um livro contra o dogmatismo político. 9/10 estrelas.

"Angolano segue em frente o teu caminho é só um...
Se você é branco isto não interessa ninguém...
Se você é mulato isto não interessa a ninguém...
Se você é negro isto não interessa ninguém...
Mas o que interessa é a tua vontade de fazer Angola melhor...
Uma Angola verdadeiramente livre e democrática".
(Teta Lando - Musico Popular Angolano)
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Naty 21/11/2016

Além das minhas expectativas. Simples, crítico e diferente de muitos livros que já li.
O livro Mayombe escrito por Pepetela foi uma experiência de leitura bem interessante para mim e satisfatória. Vi muitas pessoas comentando que se tratava de um livro lento e que elas esperavam uma ação que só ocorre no final, mas esse livro vai muito além de pura ação.
Ele desvenda o ambiente africano sob o ponto de vista de diversos personagens ligados ao MPLA (Movimento pela libertação de Angola). Foi nesse livro que percebi a importância e a riqueza de se ver uma história por diferentes perspectivas já que Pepetela adota uma narração em que um narrador onisciente e onipresente se intercala com as personagens.
Sempre estudei a questão da guerra entre tribos na África, mas foi com esse livro que me aprofundei mais no assunto ao pensar nessa sociedade. Além disso, o pensamento marxista é abordado incessantemente. O personagem mais focado foi o sem medo o que não quer dizer que ele é o protagonista. Ele é, mais ou menos, o Pedro Bala de Capitães de Areia.
No entanto, tenho ressalvas a algumas ideias disseminadas pelo Sem Medo o que é um tanto que normal já que todos somos diferentes, mas a diferença de pensamento entre os personagens e o leitor pode dificultar um pouco a leitura e foi o que aconteceu comigo. Isso não tornou a história lenta em nenhum momento e a falta de ação, para mim, foi um ponto positivo porque quebra certos tabus.
As pessoas costumam ver uma guerrilha de libertação e independência como um movimento movido a bala, mas Pepetela mostra que as ideias movem muito mais um movimento que as armas.
O início da narração se dá por Teoria que é mestiço e sofre preconceitos tanto dos brancos quanto dos negros e, por isso, tem um certo complexo inferior que o incita a querer provar sua valentia a todos. Essa parte foi para mim uma certa crítica ao maniqueísmo social em que ou se é uma coisa ou outra, ou negro ou branco. O intermediário é pouco aceito. Isso ocorre muito hoje na política; ou se é de direita ou de esquerda, mas ainda há os que não são nem de um lado nem de outro e Teoria típica essas pessoas. “Estou no Mayombe, renunciando a Manoela, com o fim de achar no universo maniqueísta o lugar para o talvez”.
Mayombe é a floresta em que eles instalam suas “casas” e atacam o inimigo. É como uma proteção. Pepetela acaba por transformar a floresta em personagem fazendo-a gestar um novo homem para um novo momento histórico de Angola.
O uso de codinomes entre os participantes do MPLA me lembrou capitães de areia. Esse uso, aqui, sempre se relaciona tanto às características do indivíduo quanto ao fato de eles esquecerem, de certa forma, sua vida passada.
Uma frase que me chamou muita atenção foi “ a guerra não se mede pelo número de inimigos mortos, mas pelo apoio popular que tem”. Essa é uma grande verdade e uma das grandes dificuldades desses movimentos; eles têm que alcançar a aceitação de suas ideias para que haja um apoio coletivo e, por fim, a vitória.
Outro ponto central na obra é o tribalismo; as disparidades de pensamento na tribo se devem muito às diferenças tribais entre eles o que dificulta a união em prol de uma causa.
A presença da religião também se faz sentir no livro, mas Sem Medo confronta-a ferrenhamente. Percebe-se aí um cero ódio ao que é do colonizador e, pelo personagem, um julgamento de um pensamento pela ação dos que dizem segui-lo o que não é um pensamento que eu tenho. Para mim, para se julgar uma religião, deve-se entende-la e não olhar as práticas de qualquer um que apareça do seu lado e diga: Eu sigo essa religião.
Um outro excerto que me chamou atenção foi: “Deixa lá o teu umbundo...ou lhe dás um nome na língua dele ou em português, que é de todos. Mas não na tua...Aí começa o imperialismo umbundo”. A língua é outro meio de colonização já que impor a língua é como impor o domínio.
Noutra parte muito interessante, Sem Medo mostra que a maioria dos processos revolucionários começa com uma boa intenção, mas depois acaba caindo nos mesmos erros anteriores, pois o movimento tem que se impor contra a oposição o que acaba tornando-os ditadores e destruindo o dito regime que se iria construir. Esse excerto é esse: “Ora! Vamos tomar o poder e que vamos dizer ao povo? Vamos construir o socialismo. E afinal essa construção levará 30 ou 50 anos. Ao final de cinco anos, o povo começará a dizer: mas esse tal socialismo não resolveu esse problema e aquele. E será verdade, pois é impossível resolver tais problemas, num país atrasado, em cinco anos. E como reagirão vocês?... há que prender as cabecilhas, há que fazer atenção às manobras do imperialismo, há que reforçar a polícia secreta, etc...Da vigilância necessária no seio do Partido passar-se-á ao ambiente policial dentro do Partido e toda a crítica será abafada no seu seio. O centralismo reforça-se, a democracia desaparece. O dramático é que não pode escapar-se a isso...”
A mulher da história, Ondina, não tem voz narrativa o que mostra uma crítica do autor à desigualdade de gênero na época. Além disso, não há diferenças linguísticas entre os diversos participantes do movimento na narração o que reforça a ideia de propor a igualdade entre as pessoas.
Em resumo, gostei muito do livro, mas algumas ideias e algumas cenas de sexo, que não me agradam mesmo dando um toque mais realista à obra, me chatearam. As partes amorosas poderiam ter sido reduzidas, mas repito que não senti lentidão narrativa e sim uma exposição diferenciada de um movimento importane num cenário importante e muito pouco falado.
Parabéns para a FUVEST por adotar um livro como esse. Leitura recomendada e, para mim, enriquecedora.


Alaska 12/11/2016

Mayombe não é apenas um livro, mas uma obra de arte !
sse livro é muito espetacular , é literalmente uma obra de arte ! A obra abre uma janela em relação a visão que temos e o que realmente aconteceu durante o período de guerra da independência de Angola. Durante o período do desenvolvimento da escrita do livro, Pepetela está em guerra como guerrilheiro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), e é nítido no decorrer da leitura de que o autor não diz a respeito da guerra em si, mas enfatiza o viver de cada personagem na guerra, destacando os medos, angústias, sonhos, de cada uma, além de relacionar períodos do passado de grande impacto na vida dos guerrilheiros e refletindo no presente momento de guerrilha. O que torna esta obra literária extremamente interessante, é o fato do narrador se passar por quase todas as personagens, mostrando em cada uma delas o caráter humano se manifestando de diversas formas, fazendo o leitor ter uma visão diferente do que realmente é lutar em uma guerra. De narrativa muitas vezes arrastada, Pepetela introduz uma interpretação complexa, porém completa de muitas personagens, denominando-as até mesmo não por seus nomes, mas por codinomes ? como querendo caracterizar cada uma pelo que realmente é em seu ?nome?-, por isso, quase todas as personagens não são denominadas por seus verdadeiros nomes. No livro, o autor expõe atos de conflitos internos entre o grupo de guerrilheiros (tribalismo), mas todos com um único objetivo, libertação de seu país. Apresenta também o racismo, em que a personagem Teoria dentro do movimento sofre por ser mestiço. A obra traz também com as personagens Ondina e Leli em questão o papel da liberdade feminina, em que reforça o papel das mulheres em seus direitos, ou seja, quebrando o machismo contra as mulheres.
Em relação a narrativa, pode-se dizer que a escrita é um tanto densa, trazendo assim um glossário nas últimas páginas do livro para facilitar no entendimento de algumas palavras, além de expressões de origem angolana utilizadas muito pelas personagens. É interessante ressaltar o porquê do título Mayombe, já que trata de uma história que se passa em um período de guerra, porém é definido pelo autor como uma obra de gênero romântico, o fato é que todo o contexto está ligado ao sentimento de viver esse período, em que o cenário onde se passa os maiores, fortes e mais dramáticos episódios é dentro da floresta Mayombe, pois a mesma abraça os guerrilheiros, servindo de refúgio, esconderijo, escudo e também campo de guerra, em que as personagens não só lutam contra a colonização portuguesa mas também contra o seus próprios conceitos auto aceitação em relação a certas atitudes, sentimentos e nacionalidade. Assim como Pepetela disse em uma entrevista: ?Os grandes heróis desta guerra são seres humanos, são heróis, mas também são frágeis?.
Mayombe é um livro muito rico culturalmente, além de trazer uma visão social abrangente, e principalmente o fato de mexer com o intelecto dos leitores ao interpretar os sentimentos e angústias humanas de forma tão sábia. Mais que um livro .. uma obra de arte !
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Raul G. M. Silva 18/12/2019

Mayombe, muito mais que os olhos podem ver
Mayombe de Pepetela, escritor Angolano e vencedor do Prêmio Camões de Literatura, é uma histó-ria sobre guerra, mas acima disso, é uma história sobre idealismo, sobre convicção em uma luta, so-bre amizade, sobre acreditar em algo e não abrir mão do que se acredita. Algo que, infelizmente, es-tamos vendo desaparecer da nossa época em nome do oportunismo.

O livro conta a história dos guerrilheiros do MPLA (Movimento Pela Libertação de Angola) durante a Guerra Revolucionária pela Independência de Angola nos anos de 1960 do século XX. De maneira que teor político é forte e evidente no enredo, representado pelo dilema de guerrear não apenas pela força física, mas também no campo intelectual que está presente a todo momento no texto. Através da ideia das pessoas que não acreditam na revolução, mas para que a revolução aconteça é preciso que se acredite nela e que o povo a apoie. Claro que aqui a história é romanceada, mas boa parte do idealismo do movimento está impresso a cada página. Embora, eu ache que boa parte desse idealismo é utópico, afinal o MPLA era movido pelas ideias Marxistas e por seu ideal Comunista, um sistema que na minha visão é funcional apenas em tese. Um pensamento que também aparece em várias passagens da história através das reflexões de Sem Medo, uma de suas personagens centrais.

“— Evidentemente! Comissário, compreende-me bem. O que estamos a fazer é a única coisa que devemos fazer. Tentar tornar o país independente, completamente independente, é a única via possível e humana. Para isso, têm de se criar estruturas socialistas, estou de acordo. Nacionalização das minas, reforma agrária, nacionalização dos bancos, do comércio exterior etc., etc. Sei disso, é a única solução. E ao fim de certo tempo, logo que não haja muitos erros nem muitos desvios de fundos, o nível de vida subirá, tam-bém não é preciso muito para que ele suba. É sem dúvida um progresso, até aí estamos de acordo, não vale a pena discutir. Mas não chamemos socialismo a isso, porque não é forçosamente. Não chamemos Estado proletário, porque não é. Desmistifiquemos os nomes. Acabemos com o feiticismo dos rótulos. De-mocracia nada, porque não haverá democracia, haverá necessariamente, fatalmente, uma ditadura so-bre o povo. Ela pode ser necessária, não sei. Outra via não encontro, mas não é o ideal, é tudo o que sei. Sejamos sinceros connosco próprios. Não vamos chegar aos cem por cento, vamos ficar nos cinquenta. Por que então dizer ao povo que vamos até aos cem por cento?” (MAYOMBE, PEPETELA, p. 113).

No entanto, como já falei, Mayombe, apensar de ser uma história sobre a guerrilha, tem seu valor nos ensinamentos que a história de suas personagens deixa para o leitor. É evidente o sofrimento do povo angolano diante da mão de ferro exploradora portuguesa, que durante o a segunda metade do século XIX achou-se no direito de reivindicar soberania sobre o país. Assim como outras potências europeias que dividiram a África ao seu bel prazer. O resultado são todos os problemas que a África enfrenta até hoje. Algo que ocorre aqui na américa latina também.

Cada personagem do enredo tem sua própria história, suas próprias características e forma de ver o mundo e a guerra em si. O tribalismo é também um tema recorrente na história, deixando mais uma vez evidente os problemas culturais e territoriais que os povos africanos enfrentam graças ao impe-rialismo europeu.

Teoria, uma das personagens da obra, é um bom exemplo, ele parece viver de certa maneira ator-mentado por ser mestiço, filho de mãe negra e pai branco, acredita não ser digno de participar da revolução, ou pelo menos que os outros o julgam por causa de suas origens. Em vários momentos ele fala sobre esse aspecto de sua persona sempre se colocando como inferior aos seus compatrio-tas, de modo que sempre terá que se esforçar mais que os outros para encontrar seu lugar entre eles.

“Uma vez quis evitar ir em reconhecimento: tivera um pressentimento trágico. Havia tão poucos na Base que o meu silêncio seria logo notado. Ofereci-me. É a alienação total. Os outros podem esquivar-se, po-dem argumentar quando são escolhidos. Como o poderei fazer, eu que trago em mim o pecado original do pai-branco?” (PEPETELA, MAYOMBE, p. 22).

Esse sentimento de Teoria é compartilhado por outros guerrilheiros. É perceptível que o grupo que luta pela libertação de Angola não é formado por um único povo, várias etnias de regiões diferentes o formam, estão meio desunidos e desconfiados, apesar de lutarem juntos e seguirem ordens e res-peitarem a hierarquia de comando não confiam uns nos outros. Isso nos remete mais uma vez a te-mática do tribalismo também. O que me faz pensar em como o processo de exploração da África descaracterizou não apenas as tribos, mas a identidade de cada povo e de cada cultura.

Analisando o contexto do livro, fica evidente que mesmo que tenhamos a colonização portuguesa em comum com Angola, o Brasil teve mais sorte nesse processo, principalmente quando a família real escolhe o nosso pai como refúgio das Guerras Napoleônicas, isso mudou todo o contexto do nosso processo de colonização, algo que não foi ao acaso, mas que nos tornou diferentes das colônias afri-canas, não que nós não tenhamos pago o nosso preço, na verdade pagamos por isso até hoje tam-bém (Vide todo o contexto político-social atual).

Cada integrante da comitiva tem sua própria característica, cada um salta aos olhos do leitor a sua maneira. Já falei sobre Teoria e seus problemas, mas as outras personagens são tão fascinantes quanto. Porém, de longe, a que mais chama a atenção de quem lê a obra é Sem Medo que ao longo do texto vai nos revelando mais sobre si mesmo e sua história e se mostra um líder nato, capaz de perceber a menor perturbação no grupo e ao mesmo tempo buscar uma solução para isso. Ele é tido como um mito, um herói. Chegando mesmo a ser comparado com Prometeu. No entanto, ao mesmo tempo, nos mostra que é um ser humano e, como tal, é cheio de defeitos e mazelas.

Sem Medo representa a razão no seio da revolução, ele não é ingênuo e está ali para lembrar ao lei-tor os problemas que uma revolução pode acarretar e que o regime a ser aplicado nunca funcionou de verdade. Ele lembra a todos que o Socialismo é um modelo que nunca poderá ser pleno, pelo me-nos não enquanto o ser humano for o ser humano. O engraçado é que o cenário que ele descreve em sua fala lembra muito o de 1984 de Orwell.

Outra coisa interessante a se perceber é que a revolução, ou no caso, o movimento em si, não se preocupa apenas com a luta para conquistar a liberdade, existe uma idealização por trás da busca por independência, daí eu ter dito que a obra também é sobre ideais. Os Guerrilheiros entendem que para de ter independência verdadeira e liberdade é preciso ir além da batalha física, a busca pelo conhecimento também é de vital importância para o futuro da nação, visto que se as pessoas têm acesso ao conhecimento não se deixam enganar pelo discurso alheio. O mais interessante aqui é a comparação que podemos fazer entre esse discurso politizado da guerrilha de Angola durante seu processo de independência e o que ocorre no processo de independência do Brasil, até hoje nosso país desvaloriza o conhecimento (agora mais que nunca, já ouviram o nosso atual Ministro da Edu-calçao?) e a educação, não quero dizer com isso que em Angola tudo esteja bem, mas são dois aspec-tos diferentes de dois países em seus processos de independência da mesma nação colonizadora.

Desse modo, para um livro sobre Guerrilha a discussão ideológica e filosófica das personagens dá um valor único a obra, talvez seja o aspecto mais valioso do texto de Pepetela, que leva o leitor cada vez mais fundo nos aspectos de constituição do MPLA. Assim, Mayombe se torna um livro que não cansa de surpreender o leitor com sua profundidade, a guerra, a honra, o amor e a política, tudo ganha novos pontos de vista a cada página. Existe no enredo uma poderosa observação sobre cada um desses aspectos que de início são aparentemente supérfluos, mas que vão se mostrando de ex-trema importância para formação de cada personagem, é magistral a forma como o autor vai desen-volvendo cada aspecto da personalidade de cada um é como as relações entre as personagens são colocadas para o leitor de umas forma simples e cativante, é fácil gostar e odiar as personagens e saber por que as admiramos ou não.

Pepetela é genial em suas metáforas e alusões, de uma maneira simples ele nos conta a história da revolução de Angola, explica seu contexto, seus ideias políticos, militares e sociais. Ele explica os pormenores da influência do Marxismo nas ideias revolucionárias, bem como as deturpações feitas do pensamento de Marx e tudo isso de uma maneira compreensível. Você não precisa conhecer mui-to de história, muito sobre Angola ou sobre o Mayombe para compreender como cada coisa funcio-na na história real e na ficção. Isso torna o livro gostoso e instigante de ser lido, a história que tinha tudo para ser chata e monótona é cheia de reflexões e ensinamentos tão tocantes que é impossível parar de ler. Além disso, devemos levar em consideração todo o enredo que também nos faz tentar teorizar o que vem pela frente, no fim mesmo que saibamos o que acontece na história sempre fica-mos fugindo dela teorizando outras tantas possibilidades.

Ao longo do texto vamos sendo informados das histórias de vida de cada guerrilheiro da base, suas origens, tribos, sonhos, mágoas, pontos de vista e opiniões. Tudo isso através de relatos pessoais feitos em primeira pessoa que nos aproximam mais das personagens do que a história principal con-tada em terceira pessoa. Porém a todo instante temos também a figura do Narrador Onisciente que nos traz informações sobre os sentimentos e pensamentos das personagens e sobre os aconteci-mentos da trama, bem como a troca constante de visão. Uma hora estamos com Sem Medo, outra com o comissário João, outra com O Chefe de Operações e outra com Ondina, no entanto é ao redor das figuras do Comandante e do Comissário que a história gira e é onde encontramos o ensinamento máximo da obra, a velha relação entre mentor e pupilo, mestre e aprendiz, professor e aluno e, por que não, pai e filho.

“Eu, o Narrador, Sou Milagre. Nasci em Quibaxe, região kimbundo, como o Comissário e o Chefe de Ope-rações, que são dali próximo. Bazukeiro, gosto de ver os camiões carregados de tropa serem travados pelo meu tiro certeiro. Penso que na vida não pode haver maior prazer.” (PEPETELA, MAYOMBE, p. 34).

O final desse livro foi sem dúvida emocionante, eu imaginei o que aconteceria com Sem Medo na ho-ra que o conheci, mas o que realmente aconteceu era necessário para a trama e para a construção da personagem do Comissário, João. No final, o que ficam são as lições de vida de cada membro da base, de cada história das personagens e o que significou os acontecimentos finais para cada um.

A história real não foi tão benevolente para o MPLA, mas sem sua luta provavelmente Angola jamais teria conquistado sua independência, ainda que tardia, de Portugal. É evidente o quanto o imperia-lismo Europeu foi e ainda é destrutivo para o contexto da África, em muitos lugares ainda hoje sen-te-se os efeitos desses acontecimentos históricos. Mayombe não é apenas um registro da história de Angola, mas também um lembrete da capacidade humana para o bem e para o mal, porém nos mos-tra também um mundo de cinza que está entre o preto e o branco, mostrado através das falhas e imperfeições de suas personagens que são acima de tudo homens e como todo ser humano, imper-feitos.

Raul G. M. Silva
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Vi 02/12/2016

Mayombe
Um dos melhores livros que já li. Chorei muito além dos sustos, risadas e revoltas. Um livro ótimo e de leitura rápida para quem gosta de ler, pois você literalmente se envolve e desenvolve uma relação única e íntima com cada personagem
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Nat 29/05/2016

Mayombe não é meu estilo de livro e talvez eu nem tivesse dado chance para ele se não fosse por querer conhecer um pouco mais os escritores africanos.
Como o Pepetela foi guerrilheiro, imaginei que esse seria um livro político, que contasse a história da libertação de Angola de Portugal, mas não foi isso.
O livro fala sim da MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) mas esse é só um pano de fundo, e não foi muito trabalhado. A história principal é são as tribos e as diferenças entre elas, preconceitos e discriminação, bem como relações humanas, como namoro e sexo.
Em primeiro lugar, o que é Mayombe? É uma floresta, uma região montanhosa, onde eles se escondem. Eles quem? o grupo de guerrilheiros que acompanhamos durante o livro. Quando uma pessoa nova entra no grupo, ganha um apelido, que vira seu novo nome, ex: Teoria, Sem Medo, Milagre. Então, não sabemos os nomes reais dos personagens.
Temos também muitos diálogos tentando explicar o socialismo, o facismo, enfim, as ideologias deles, mesmo muitos sendo de tribos diferentes e acabarem ali por se juntar num lugar comum.
O personagem principal é o Sem Medo, gostei muito dele, é o que mais fala (e pratica) o socialismo. E o final dele no livro é tocante!
Tem também poucas mulheres, mas dentre elas tem a Ondina: ela é bem forte e decidida, e tem todo um episódio que acontece por causa dela.
Outra característica é que o narrador muda. Vários personagens se colocam como narrador, se revezam nesse papel, o que dá uma visão mais ampla da história. Mas é preciso prestar atenção para não se perder com isso!
Acredito que Pepetela usa esse recurso para expressar mesmo o socialismo que o Sem Medo prega durante o livro, então muitos se revezam narrando!
O livro é bom, mas senti dificuldade para engrenar na narrativa. Por isso, pretendo dar uma nova ao autor.

site: https://www.youtube.com/c/PilhadeLeituradaNat
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Daní Montper 24/11/2009

Maravilhoso
Como sempre Pepetela acerta na mão.
Personagens excelentes!
É histórico e rico da cultura angolana.


SILVIA 28/08/2016

Uma grata descoberta
Meus comentários estão no blog através do link:
http://reflexoesdesilviasouza.com/livro-mayombe-de-pepetela/

site: http://reflexoesdesilviasouza.com/livro-mayombe-de-pepetela/


Fefemachado 11/09/2017

Mayombe
Um livro envolvente, conta a historia dos guerrilheiros do MPLA ( movimento popular de libertaçao de angola), alem de contar o dia a dia desses guerrilheiros também conta problemas internos como dificuldades financeiras que faz com que eles fiquem sem comida, o tribalhismo que deixa o clima sempre de desconfiança no ar.
Concerteza um dos melhores livros que li este ano.
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Rafael Iglesias 04/06/2016

Em busca da terra do talvez
O Mayombe é uma grande floresta tropical com grande concentração de montanhas que localizada em Cabinda, em Angola, mas também abrange o Congo e o Gabão. É esse local o cenário principal que dá nome a um dos livros de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o Pepetela.

Vencedor do Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa, o escritor retrata no livro especialmente os problemas internos do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), do qual ele próprio participou, e que é o grupo que conduziu a revolução pela independência do país e o governa desde então.

"O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira. Clareira invisível do alto, dos aviões que esquadrinhavam a mata, tentando localizar nela a presença dos guerrilheiros. As casas tinham sido levantadas nessa clareira e as árvores, alegremente, formaram uma abóbada de ramos e folhas para as encobrir. Os paus serviram para as paredes. O capim do teto foi transportado de longe, de perto do [rio] Lombe. Um montículo foi lateralmente escavado e tornou-se forno para o pão. Os paus mortos das paredes criaram raízes e agarraram-se à terra e as cabanas e tornaram-se fortalezas. E os homens, vestidos de verde, tornaram-se verdes como as folhas e castanhos como os troncos colossais."

Continue lendo: https://reticenciajornalistica.wordpress.com/2016/06/04/a-terra-do-talvez/

site: https://reticenciajornalistica.wordpress.com/2016/06/04/a-terra-do-talvez/
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André 01/02/2018

8º Livro, Fuvest 2017
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fecan 04/09/2019

Muito bom!
Gostei de ter contato com literatura Angolana. Vale a leitura. Conta um pouco da história do povo na luta pela libertação de Angola, que até então, era colônizada por Portugal.
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Rafa 24/10/2018

Por dentro da cabeça de um soldado
Personagens muito bem desenvolvidos, talvez porque o livro seja bem baseado na experiência de vida real do autor na guerra de libertação da Angola. As descrições de comportamentos humanos são a melhor parte da leitura.
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