Deriva

Deriva Adriana Lisboa




Resenhas - Deriva


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mathew5150 13/08/2020

Meu primeiro contato com a obra da Adriana...
não foi através de seus romances nem seus contos, e sim através deste livro de poesia. Não sou um grande leitor de poesia, nem sei avaliar versos alexandrinos ou questões do gênero. Porém, a Adriana me passou aquela sensação que tenho quando leio um Leminski, um Marcelino Freire (seus contos são pura poesia): o brincar com as palavras, e esse titubear constante entre a piada, o prazer, o efeito e todas essas coisas que a poesia pode condensar em uns poucos versos.
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Mariana - @epifaniasliterarias_ 21/11/2020

Sobre vivenciar a sensação de estar à deriva [IG: @epifaniasliterarias_]
"Deriva", de Adriana Lisboa, foi meu segundo contato com a autora e as expectativas eram altas, já que li há alguns anos "Sinfonia em branco" (vencedor do Prêmio José Saramago), um livro que me tocou de maneira inexplicável e que é um dos meus favoritos da vida. E digo com tranquilidade que essas expectativas foram superadas. Até mesmo sua obra em prosa é poética, então a experiência com a sua poesia foi encantadora.

Entre o momento em que se abre o paraquedas e o instante em que se atinge o solo, uma medida: deriva. Os versos, aqui, apresentam certas sutilezas, como o vocabulário e os espaços internos entre uma palavra e outra, que fazem ecoar o título do livro. São imagens, momentos, sons, lugares e não-lugares que conduzem o leitor a vivenciar a sensação de estar à deriva - e perceber que o não-pertencimento pode ser a melhor forma de ser e estar no mundo.

"Esfumaçar bordas
destituir centros
incendiar matrizes
um instante de indulto:

estar só no mundo."

Ainda, esse estado de não-pertencer faz com que o eu-lírico perceba seu reflexo como uma neblina no espelho, o que demonstra, sobretudo, seu desejo de não ser definido: "não sei quem plantou / na minha cara uma outra / biografia". Em tempos que instituem padronizações, tempos quadrados, avessos às diferenças, às minorias e à diversidade, faz-se necessário ser também tempo de resistência, a fim de subverter o normativo e esses dias-chumbo que tentam nos sufocar, adoecer e limitar, com uma frequência cotidiana.

"Meu amigo às vezes se diz vencido
ilhado
endividado
aflito
taciturno
furioso
acossado

prende a respiração
sem saber que país o nosso
ou quando
ou como

mas ainda assim
sai à rua
e o mundo se dobra
aos dentes explícitos que ele arrisca
por baixo do veludo do batom."
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