Última obra completa do autor de “Madame Bovary”, “Três contos” foi publicado em 1877, a três anos da morte do escritor.
A prosa de Flaubert é fluida, agradável e extremamente elegante.
O primeiro conto (“Num coração simples”) elege como protagonista uma empregada doméstica devota e analfabeta. Como aponta o tradutor Samuel Titan Jr. na apresentação do livro, a força desse retrato singular é tratar “com honras de personagem principal uma figura que, o mais das vezes, seria mais uma na multidão de personagens secundárias que povoam um romance” (p. 9/11).
O segundo conto (“A legenda de São Julião Hospitaleiro”) reinventa a história bíblica de um santo com maestria tal que a narrativa ganha vida própria, sem dependência de pesquisa prévia pelo leitor.
Isso não ocorre com o terceiro conto, “Herodíade”. Nele, Flaubert narra outro episódio bíblico – a morte de São João Batista – de uma perspectiva também particular, mas inteiramente subordinada ao prévio conhecimento do leitor.
Por óbvio, isso não compromete o valor artístico da obra, mas limita o alcance da leitura de cada um. Eu, que pouco conheço da Bíblia, não consegui sustentar o interesse no decorrer desse conto.
Naturalmente, o autor sabia que isso poderia acontecer. Em carta ao escritor Guy de Maupassant, revelou: “enfim, começarei minha ‘Herodíade’. Terminei minhas anotações e agora estou desemaranhando meu plano. O difícil aqui é dispensar, na medida do possível, as explicações indispensáveis” (p. 142).
Particularmente, acredito que Flaubert não apenas sabia que o conto ficaria insuportável se contivesse todas as explicações bíblicas possíveis, como aceitava que essa não seria uma leitura acessível ou interessante a todos.
Ainda assim, os dois primeiros contos são extraordinários e só por si valem a leitura.