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    O Litoral das Sirtes -

    Julien Gracq

    Carambaia
    2022
    304 páginas
    10h 8m
    ISBN-13: 9788569002819
    Português Brasileiro
    4
    11 avaliações
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    Uma narrativa onírica combinada a paisagens fantasmagóricas, às vezes assustadoras, constrói o cenário mágico de O litoral das Sirtes, romance considerado unanimemente a obra-prima de Julien Gracq (1910-2007), um dos principais e mais discretos escritores franceses do século XX. O volume, com tradução de Júlio Castañon Guimarães, traz de volta ao mercado editorial brasileiro um escritor há muito ausente, mesmo tendo, à sua época, chamado a atenção de leitores ilustres, como o crítico Antonio Candido. O litoral das Sirtes foi publicado na França em 1951, quando as tendências dominantes da literatura do país eram o existencialismo e o nouveau roman. A obra de Gracq, contudo, não guardava relação com essas correntes, se aproximando da tradição surrealista. O protagonista de O litoral das Sirtes é Aldo, filho de uma família aristocrática do país fictício de Orsenna, cidade-Estado governada por uma Senhoria, instância assemelhada a um conselho de notáveis. Orsenna, que vive um cotidiano de morosa decadência, se encontra há três séculos em guerra com uma nação vizinha, o Farghestão. De tão longo, o conflito estacionou em uma situação de paz virtual. No braço de mar que separa os dois estados, os barcos não ousam passar de uma linha imaginária a boa distância do inimigo. Aldo é enviado como observador civil à fortaleza do Almirantado do litoral das Sirtes, onde sua inquietação inicial é convertida em prudência pelo chefe do destacamento, o capitão Marino. Aldo entra em estado de contemplação entrecortada por conversas com o pequeno grupo de jovens militares do Almirantado e esporádicos momentos de revolta. Paralelamente, correm rumores de conspiração no mundo externo. O cotidiano comporta também encontros sociais. Numa dessas ocasiões, Aldo conhece Vanessa, que traz consigo o estigma de ser descendente de um traidor da pátria. A relação evolui para a intimidade e alguma transgressão. Num importante ensaio intitulado “Quatro esperas”, Antonio Candido inclui O litoral das Sirtes num conjunto de obras de outros escritores (Dino Buzzati, Franz Kafka e Konstantinos Kaváfis) em que a estagnação é elemento central. Para o crítico, há nelas uma atmosfera de “expectativa de perigos iminentes, quase sempre com suspeita de catástrofe”. Sobre o romance de Gracq em particular, Antonio Candido escreve que “a narrativa insinuante e opulenta, flutuando entre imagens carregadas de implicações, escorre como um líquido escuro e magnético no rumo de catástrofes possíveis, à vista de um horizonte selado pela morte”. O litoral das Sirtes guarda ainda outra relação com o Brasil. Numa entrevista no fim da vida, Gracq revelou que uma das fontes de inspiração para o romance foi Os sertões, de Euclides da Cunha, para ele um livro “que é uma aplicação, avant la lettre, das potencialidades do surrealismo”. Além de Euclides, Gracq era admirador devoto de escritores inclinados ao gênero fantástico como Edgar Allan Poe, Jules Verne e J.R.R. Tolkien.

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    Resenhas (1)Ver mais
    Ricardo Duarte picture
    Ricardo Duarte19/10/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O litoral das Sirtes

    Cheguei a este romance por meio de um ensaio do Antonio Candido, "Quatro esperas" -- "O litoral das Sirtes" é a quarta das esperas de que trata o ensaio. A história se passa numa região fictícia da Europa, a cidade-Estado de Orsenna. Trezentos anos antes, no século XVII, essa cidade entrou em guerra com o também fictício Farguestão, localizado do outro lado do mar. Os combates terminaram em pouco tempo, mas a paz nunca foi oficialmente declarada, de modo que ambos os lados prosseguem "em guerra" até o presente (século XX). O clima na cidade é de estagnação total, como se a vida ali fosse um navio naufragado, cheio de lodo e algas. Certo dia, o protagonista Aldo, de família nobre, se cansa daquele marasmo e decide ir trabalhar na fortaleza do litoral das Sirtes, fortaleza quase desativada da época da guerra. É ali, no litoral, que ele se depara com certos boatos sobre o Farguestão (país cuja história nos últimos séculos é completamente ignorada em Orsenna). Dizem que o Farguestão teria mudado de governo e que estaria se preparando para retomar a guerra adormecida. São esses boatos que fazem a narrativa andar -- e o livro termina sem que se saiba se a guerra foi retomada ou não: vemos a iminência da guerra, os preparativos para a guerra, a espera pela guerra, mas não a guerra. "O litoral das Sirtes" foi publicado em 1951 (o autor, Julien Gracq, ganhou o prêmio Goncourt por ele, mas recusou o prêmio), seis anos após o fim da Segunda Guerra. O que me chamou a atenção é a encruzilhada em que os personagens vão sendo envolvidos: manter uma paz sem vida ou cair numa guerra mortal? Parece não haver outra saída (ou não ser possível conceber outra saída). Assim como no poema do Kaváfis, "À espera dos bárbaros" (a primeira das quatro esperas do Candido), a cultura que está à espera de algo é uma cultura decadente, que não viceja mais. Não há mais forma de eu encontrar uma solução para o pântano em que me afogo; é preciso que uma alteridade radical (os bárbaros, o povo desconhecido do Farguestão) venha me trazer essa solução.

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