O Litoral das Sirtes -

    Julien Gracq

    Guanabara
    1986
    332 páginas
    11h 4m
    ISBN-10: 8570300824
    Português Brasileiro

    Na imaginária região de Orsenna, o jovem Aldo é enviado para inspecionar o Litoral das Sirtes. Em clima de permanente assombro, vai-se delineando um estado de coisas que oculta o inesperado. O silêncio que circunda todos os gestos é apenas um reflexo da opressão instalada em todas as pessoas. Mas das sombras pode irromper um novo alento. "O Litoral das Sirtes", ao mesmo tempo que denuncia o Absurdo que dilacera certas sociedades, é a narrativa de um périplo existencial que vai do torpor ao sobressalto.

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    Ricardo Duarte19/10/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O litoral das Sirtes

    Cheguei a este romance por meio de um ensaio do Antonio Candido, "Quatro esperas" -- "O litoral das Sirtes" é a quarta das esperas de que trata o ensaio. A história se passa numa região fictícia da Europa, a cidade-Estado de Orsenna. Trezentos anos antes, no século XVII, essa cidade entrou em guerra com o também fictício Farguestão, localizado do outro lado do mar. Os combates terminaram em pouco tempo, mas a paz nunca foi oficialmente declarada, de modo que ambos os lados prosseguem "em guerra" até o presente (século XX). O clima na cidade é de estagnação total, como se a vida ali fosse um navio naufragado, cheio de lodo e algas. Certo dia, o protagonista Aldo, de família nobre, se cansa daquele marasmo e decide ir trabalhar na fortaleza do litoral das Sirtes, fortaleza quase desativada da época da guerra. É ali, no litoral, que ele se depara com certos boatos sobre o Farguestão (país cuja história nos últimos séculos é completamente ignorada em Orsenna). Dizem que o Farguestão teria mudado de governo e que estaria se preparando para retomar a guerra adormecida. São esses boatos que fazem a narrativa andar -- e o livro termina sem que se saiba se a guerra foi retomada ou não: vemos a iminência da guerra, os preparativos para a guerra, a espera pela guerra, mas não a guerra. "O litoral das Sirtes" foi publicado em 1951 (o autor, Julien Gracq, ganhou o prêmio Goncourt por ele, mas recusou o prêmio), seis anos após o fim da Segunda Guerra. O que me chamou a atenção é a encruzilhada em que os personagens vão sendo envolvidos: manter uma paz sem vida ou cair numa guerra mortal? Parece não haver outra saída (ou não ser possível conceber outra saída). Assim como no poema do Kaváfis, "À espera dos bárbaros" (a primeira das quatro esperas do Candido), a cultura que está à espera de algo é uma cultura decadente, que não viceja mais. Não há mais forma de eu encontrar uma solução para o pântano em que me afogo; é preciso que uma alteridade radical (os bárbaros, o povo desconhecido do Farguestão) venha me trazer essa solução.

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