À la suite d'un chagrin d'amour, Aldo se fait affecter par le gouvernement de la principauté d'Orsenna dans une forteresse sur le front des Syrtes. Il est là pour observer l'ennemi de toujours, replié sur le rivage d'en face, le Farghestan. Aldo rêve de franchir la frontière, y parvient, aidé par une patricienne, Vanessa Aldobrandi dont la famille est liée au pays ennemi. Cette aide inattendue provoquera les hostilités... Dans ce paysage de torpeur, fin d'un monde où des ennemis imaginaires se massacrent, le temps et le lieu de l'histoire restent délibérément incertains dans un récit à la première personne qui semble se situer après la chute d'Orsenna. Julien Gracq entraîne son lecteur dans un univers intemporel qui réinvente l'Histoire et donne lieu à une écriture qui s'impose avec majesté, s'enflamme au contact de l'imagination. Pour "Le Rivage des Syrtes", Julien Gracq obtint en 1951 le prix Goncourt, qu'il refusa.
Le rivage des Syrtes -
Julien Gracq
O litoral das Sirtes
Cheguei a este romance por meio de um ensaio do Antonio Candido, "Quatro esperas" -- "O litoral das Sirtes" é a quarta das esperas de que trata o ensaio. A história se passa numa região fictícia da Europa, a cidade-Estado de Orsenna. Trezentos anos antes, no século XVII, essa cidade entrou em guerra com o também fictício Farguestão, localizado do outro lado do mar. Os combates terminaram em pouco tempo, mas a paz nunca foi oficialmente declarada, de modo que ambos os lados prosseguem "em guerra" até o presente (século XX). O clima na cidade é de estagnação total, como se a vida ali fosse um navio naufragado, cheio de lodo e algas. Certo dia, o protagonista Aldo, de família nobre, se cansa daquele marasmo e decide ir trabalhar na fortaleza do litoral das Sirtes, fortaleza quase desativada da época da guerra. É ali, no litoral, que ele se depara com certos boatos sobre o Farguestão (país cuja história nos últimos séculos é completamente ignorada em Orsenna). Dizem que o Farguestão teria mudado de governo e que estaria se preparando para retomar a guerra adormecida. São esses boatos que fazem a narrativa andar -- e o livro termina sem que se saiba se a guerra foi retomada ou não: vemos a iminência da guerra, os preparativos para a guerra, a espera pela guerra, mas não a guerra. "O litoral das Sirtes" foi publicado em 1951 (o autor, Julien Gracq, ganhou o prêmio Goncourt por ele, mas recusou o prêmio), seis anos após o fim da Segunda Guerra. O que me chamou a atenção é a encruzilhada em que os personagens vão sendo envolvidos: manter uma paz sem vida ou cair numa guerra mortal? Parece não haver outra saída (ou não ser possível conceber outra saída). Assim como no poema do Kaváfis, "À espera dos bárbaros" (a primeira das quatro esperas do Candido), a cultura que está à espera de algo é uma cultura decadente, que não viceja mais. Não há mais forma de eu encontrar uma solução para o pântano em que me afogo; é preciso que uma alteridade radical (os bárbaros, o povo desconhecido do Farguestão) venha me trazer essa solução.
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