O Túnel -

    Ernesto Sabato

    Carambaia
    2023
    167 páginas
    5h 34m
    ISBN-10: B0CBL31L7M
    Português Brasileiro

    De cunho existencialista, romance de estreia de Ernesto Sabato, um dos mestres da literatura argentina e ganhador do prêmio Cervantes, é narrado por assassino confesso Pode-se que dizer que O túnel é um romance policial pelo avesso. O crime e seu autor são revelados na primeira frase do livro pelo protagonista e assassino, o pintor Juan Pablo Castel. Segue-se um relato angustiado das circunstâncias e engrenagens íntimas que o levaram a matar a mulher pela qual se apaixonou, María Iribarne. Não há detetives, mas uma autoinvestigação que tangencia a loucura, embora recoberta por uma racionalidade aparentemente rigorosa. A Castel falta habilidade para se comunicar e sobram niilismo e repulsa pela humanidade. Sua insatisfação o leva a desejar reter a presença e a atenção de María, o que se revela impossível. A relação entre os dois se alterna entre momentos de ternura e muitas situações de atrito. Com fortes tintas existencialistas, o romance chamou a atenção de Thomas Mann e Albert Camus. Como os anti-heróis de Sartre e do próprio Camus, o protagonista de é um "eu" em processo de desintegração, preso num túnel que não consegue romper.

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    Renata Cereser Sogi picture
    Renata Cereser Sogi14/07/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    O amor, na cabeça de um insano, pode ser o sentimento mais errado do mundo.

    . “O ciúme satisfez-se, mas o vingado estava louco”. (Machado de Assis) O TÚNEL é uma leitura que eu diria ser, no mínimo, desconcertante. Afinal, não é todo dia que a gente encontra um narrador que, logo na primeira página, está disposto a contar como matou uma mulher casada por quem estava perdidamente apaixonado. É assim que começa O TÚNEL, de Ernesto Sabato, já nos prendendo a atenção nas primeiras linhas. O protagonista narrador, Juan Pablo Castel, é um artista plástico na casa dos 40 anos, terrivelmente tímido e desesperado devido ao isolamento, que encontrou em María Iribarne a idealização obsessiva de ultrapassar a solidão. A narrativa de Juan é caracterizada por um estado constante de desorientação perante um mundo, para ele, sem lógica. Ele parece sempre envolto em uma nuvem de prostração, com bloqueio para exteriorizar seus sentimentos. Mais do que uma confissão, o livro é uma espécie de desabafo, mas pela forma como organiza os fatos e relata os sentimentos, Castel não está se justificando ou buscando a simpatia do leitor: só precisa contar o que ocorreu. Ele assume que assassinou a única pessoa que o compreendeu, que poderia ouvi-lo, mas embora sua narrativa seja permeada de sentimentos, nem por isso vê-se em desespero pelo seu ato. Juan Pablo conheceu María em uma de suas exposições. Conta-nos que Maria foi a única pessoa a notar uma minúscula cena em um de seus quadros: uma mulher em uma janela. Fica obcecado por ela, passa a persegui-la, declara seu amor. Seu ciúme é doentio, o amor o deixa angustiado, pois a mente desajustada de Castel transforma María na luz de sua vida para depois rapidamente rebaixá-la a um ser responsável por toda a sua dor. Por sua incapacidade de criar conexões com outras pessoas, isolado em seu próprio mundo, seus pensamentos tornaram-se seu maior inimigo, que acaba levando-o ao extremo da loucura. Como jamais poderia imaginar ser tomado por tamanho ciúme, ódio e angústia, a única ação que lhe pareceu objetiva foi dar fim a vida daquela que julgava ser a raiz de todo o seu infortúnio. Gostei do livro e do estilo de Sabato. Na minha opinião, ele criou um dos romances psicológicos mais bem construídos e impactantes da história da literatura. O TÚNEL tem uma notável construção de personagens, é verdadeiro mergulho nas profundezas da alma humana, fazendo com que os leitores atestem seus próprios medos e fantasmas. Sabato tem um estilo furioso e angustiante, mas vale cada página. “(…) havia um só túnel, escuro e solitário: o meu, o túnel em que transcorrera minha infância, minha juventude, toda a minha vida. E num desses trechos transparentes do muro de pedra eu tinha visto essa moça e tinha pensado ingenuamente que ela vinha por outro túnel paralelo ao meu, quando na realidade pertencia ao vasto mundo, ao mundo sem limites dos que não vivem em túneis; e talvez tenha se aproximado por curiosidade de uma de minhas estranhas janelas e entrevira o espetáculo de minha inescapável solidão, ou tenha ficado intrigada com a linguagem muda, a chave de meu quadro.” O livro termina com uma frase (ou oração?) de Castel, que diz “Senhor, livra-me de mim”. “Deus existe, mas às vezes dorme, seus pesadelos são nossa existência”. (Ernesto Sabato)

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