Livro: Feito bestas {2021}
Autora: Violaine Bérot {França, 1967-}
Tradução: Letícia Mei
Editora Mundaréu
104p.
"Desde sempre
nós
as fadas.
Desde sempre
acima do mundo de baixo
a observar o que lá se urde.
Nós
as fadas
ocultas na gruta
rentes ao paredão
discretas
curiosas.
Nós
as fadas
que do mundo de baixo
teríamos tanto a dizer."
Numa vila rural incrustada nos Pirineus franceses, um fato inusitado assombra seus habitantes: uma menina de seis anos (aparentemente selvagem) é encontrada aos cuidados do Urso, um jovem com deficiência, de "uma potência aterrorizante e uma suavidade excepcional", que vive isolado com a mãe.
O que mais me cativou foi a forma como a novela é estruturada. Um desbunde! A história nos é narrada a partir dos depoimentos dos habitantes da pequena vila de Ourdouch. A cada capítulo, uma voz registra sua perspectiva sobre o ocorrido, no decorrer da investigação policial instaurada.
Para além dessa polifonia, uma canção muito antiga dá notícias de uma lenda enraizada na memória coletiva local: a gruta do vilarejo abrigaria fadas que roubariam crianças desobedientes ou, melhor dizendo, que cuidariam de crianças não desejadas. É essa a longa canção na abertura de cada capítulo. Como num coro grego, vozes feéricas anunciando a tragédia.
Em poucas páginas, Violaine Bérot nos faz refletir sobre o que é visto como normal ou não na nossa sociedade. Como construímos nossas instituições de vigilância e de controle social. Como lidamos com a diferença. Como tratamos quem está à margem da "civilização".
É uma novela muito bem escrita, com esse tom folclórico/fantasmagórico de que tanto gosto em livros como os da Irene Solà e em filmes como "O Labirinto do Fauno", do Guilherme del Toro.
Coisa finíssima.
"Então, as fadas no meio disso tudo, me autorizar a crer nas fadas, aquilo era uma lufada de ar. De tempos em tempos, em vez de ter pesadelos, eu via as fadas. Elas apareciam para mim. As fadas da gruta, aquelas que cuidam dos bebês. A gente se agarra ao que pode. O mundo real se tornou muito perigoso, o horror podia surgir de qualquer parte, até dos que pareciam irrepreensíveis." p. 98