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    Te dei olhos e olhaste as trevas -

    Irene Solà

    Mundaréu
    2024
    160 páginas
    5h 20m
    ISBN-13: 9786587955278
    Português Brasileiro
    4.1
    260 avaliações
    Leram342Lendo72Querem938Relendo0Abandonos17Resenhas66
    Favoritos23Desejados938Avaliaram260

    Uma mulher, tão antiga que não se sabe mais sua idade, espera sua partida assistida por suas descendentes enquanto suas ascendentes aguardam-na com festa. Todas são mulheres do Mas Clavell, propriedade nas montanhas da Catalunha, e ali testemunharam o passar dos séculos e compartilharam uma maldição: a ausência. Narradora de atmosferas, Irene Solà nesta obra retoma seu estilo marcante, um deslumbre para o leitor, e continua seu projeto artístico lastreado no folclore, nas tradições e na história da Catalunha, especialmente do ponto de vista feminino. Em Te dei olhos e olhaste as trevas, entre lobos, caçadores, fantasmas e bandoleiros, um pacto lendário estende seu reflexo sombrio sobre gerações de mulheres da mesma família.

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    Aline Aimée Oliveira06/01/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Delírio infernal

    Conheci Irene Solá com "Canto eu e a montanha dança", romance (?) em que a autora entrelaçava tempo e espaço e intercalava personagens humanos, animais, vegetais e minerais, sem hierarquia. Ali os capítulos, que admitiam uma única perspectiva por vez, funcionavam tanto isoladamente quanto em conjunto, o que difere bastante de seu romance mais recente "Te dei olhos e olhaste as trevas". Se em ambos há um aproveitamento poético e criativo das lendas e tradições catalãs, neste último livro a autora radicaliza o método narrativo. A história acompanha um dia na vida de mulheres de uma mesma família, ocupadas com um jantar e uma espera bem específicos. Só que neste dia cabem eras, gerações, tempos diferentes, versões diversas dos acontecimentos; os mundos real, espiritual e imaginário - tudo muito mais misturado que no livro anterior. Confuso, enigmático e excessivo, é um livro que se revela aos poucos. As vidas desse mulherio são atravessadas por um pacto sombrio, mas também pelos eventos políticos e pelas transformações culturais ocorridos na Catalunha, aos quais são contrastados os saberes cultivados para a sobrevivência ao longo de tantas crises. É difícil não lembrar de "Cem anos de solidão" ou de "Pedro Páramo", sendo que, no romance de Solá, o feminino se destaca, aparentado não só ao mágico, mas ao humor e a uma natureza mais chã, que incluiu tripas, fedores, sexo e deformidades. O feminino não se opõe ao brutal nem ao racional, mas os amalgama ao físico e ao cuidado. "Te dei olhos e olhaste as trevas" é um livro que trata da força dos vínculos, das marcas do tempo, da luta pela vida e da teimosia para a permanência, que raramente são leves ou simples. De uma escuridão em que, há muito, transitam as mulheres, e de onde uma beleza ruidosa, primitiva e suja é possível.

    51 curtidas

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