Conheci Irene Solá com "Canto eu e a montanha dança", romance (?) em que a autora entrelaçava tempo e espaço e intercalava personagens humanos, animais, vegetais e minerais, sem hierarquia. Ali os capítulos, que admitiam uma única perspectiva por vez, funcionavam tanto isoladamente quanto em conjunto, o que difere bastante de seu romance mais recente "Te dei olhos e olhaste as trevas".
Se em ambos há um aproveitamento poético e criativo das lendas e tradições catalãs, neste último livro a autora radicaliza o método narrativo. A história acompanha um dia na vida de mulheres de uma mesma família, ocupadas com um jantar e uma espera bem específicos. Só que neste dia cabem eras, gerações, tempos diferentes, versões diversas dos acontecimentos; os mundos real, espiritual e imaginário - tudo muito mais misturado que no livro anterior. Confuso, enigmático e excessivo, é um livro que se revela aos poucos.
As vidas desse mulherio são atravessadas por um pacto sombrio, mas também pelos eventos políticos e pelas transformações culturais ocorridos na Catalunha, aos quais são contrastados os saberes cultivados para a sobrevivência ao longo de tantas crises.
É difícil não lembrar de "Cem anos de solidão" ou de "Pedro Páramo", sendo que, no romance de Solá, o feminino se destaca, aparentado não só ao mágico, mas ao humor e a uma natureza mais chã, que incluiu tripas, fedores, sexo e deformidades. O feminino não se opõe ao brutal nem ao racional, mas os amalgama ao físico e ao cuidado.
"Te dei olhos e olhaste as trevas" é um livro que trata da força dos vínculos, das marcas do tempo, da luta pela vida e da teimosia para a permanência, que raramente são leves ou simples. De uma escuridão em que, há muito, transitam as mulheres, e de onde uma beleza ruidosa, primitiva e suja é possível.