Santuário -

    William Faulkner

    Abril Cultural
    1980
    257 páginas
    8h 34m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    A história se passa na época da lei seca americana, no condado fictício de Yoknapatawpha, no Mississípi, e descreve Temple Drake rumo à sua degeneração, a luta infrutífera de Horace Benbow por justiça e Popeye, um sujeito de passado obscuro e aparentemente perigoso.

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    Flávia01/07/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    O INFERNO NÃO REDIMIDO: FAULKNER E A QUEDA DA HUMANIDADE.

    ⚠️ Esta resenha contém informações que podem ser consideradas spoilers ⚠️ Publicado em 1931, “Santuário” é um dos romances mais impactantes e controversos do norte-americano William Faulkner, ganhador do Nobel e um dos grandes nomes da literatura do século XX. Escrito num momento de crise pessoal e financeira, Faulkner admitiu mais tarde que o livro foi concebido com intenção comercial para chocar e vender. E de fato, vendeu. Mas ultrapassou qualquer cálculo de mercado: o que surgiu foi uma obra densa, sombria e radical, que revela o que há de mais perverso numa sociedade sustentada por desigualdades, conformismo e brutalidade. Se à primeira vista “Santuário” parece apenas uma narrativa de crime e degradação (como a maioria das resenhas aqui no Skoob apontam), à medida que nos aprofundamos, o que vemos é um romance sobre falência moral. Faulkner faz aqui uma crítica direta ao sistema judicial, ao ideal da família sulista, à falsa superioridade da elite branca e ao modo como o poder masculino é exercido (e naturalizado) por meio da violência. Seu alvo é um Sul norte-americano decadente, hipócrita, em que honra, justiça e civilidade não passam de verniz. O santuário, no fundo, é irônico: não há nada de sagrado aqui. Só ruína! Mas de fato “Santuário” não é mesmo um livro fácil. Pelo contrário! É um mergulho profundo num universo perturbador, e, aqui, eu alerto: lê-lo é desconfortável (e precisa ser!). Porque Faulkner não escreve para suavizar, mas para desnudar o horror social e humano que preferimos ignorar. Ao tirar o leitor da zona de conforto, ele nos obriga a confrontarmos uma cultura da violência, de mecanismos de opressão e dos abismos afetivos que sustentam o mundo em que vivemos. É literatura feita para ferir, para marcar e, com isso, provocar reflexões e questionamentos. No centro da trama está a violência, e especialmente a violência masculina. Mas o que Faulkner faz não é criar monstros, e sim revelar o colapso da masculinidade tradicional. Os homens do romance não são heróis. São fracos, covardes, impotentes e cruéis. A imagem idealizada do cavalheiro sulista é desmontada por figuras como Goodwin (violento), Gowan (omisso), Popeye (impotente e manipulador) e até Horace Benbow (bem-intencionado, mas ineficaz). Nenhum deles protege, acolhe ou repara. Todos, de algum modo, falham e essa falha não é exceção, mas a regra. As mulheres, por sua vez, aparecem em posições diferentes conforme seu lugar social. Temple, jovem burguesa, ao ser retirada de seu espaço protegido, não encontra acolhimento nem mesmo entre outras mulheres. Inserida num ambiente onde o abuso é normalizado, passa a ser tratada como igual, e não como vítima. Isso revela algo perverso: quando o trauma é regra, ele deixa de chocar. Figuras como Ruby e Miss Reba, que representam aqui as mulheres pobres, exploradas, não enxergam a dor de Temple como exceção, mas como parte do cotidiano. Faulkner denuncia assim não só o abuso em si, mas a normalização da violência, especialmente a sexual e contra as mulheres. E mais: ele expõe como a proteção burguesa é uma ilusão, onde a inocência feminina era tida como um privilégio de classe. Existe um momento quando Temple diz “não posso mais usar essas roupas”, e aqui se expressa a perda da sua identidade e a contaminação irreversível da sua subjetividade. Miss Reba, ao tratá-la como sortuda por ter sido "escolhida" por um homem "rico", revela uma sociedade que romantiza o criminoso bem-sucedido, enquanto esse privilégio que atribuem a ela é só o disfarce elegante de sua objetificação. Outro ponto central neste romance é a crítica ao sistema de justiça. Faulkner não faz panfleto: ele encena dilemas morais profundos. Temple é a mulher que ganha voz, mas a custa de um trauma, traz uma narrativa distorcida pelo sofrimento, e o tribunal ignora isso. A justiça, sedenta por resolver, prefere punir rápido,  e um homem é condenado não só pelo que fez, mas pelo que representa. E isso nos coloca diante de perguntas inquietantes: é justo punir alguém por um crime que não cometeu, ainda que seja culpado de outros? E se ele era co-participante... até que ponto isso justifica atribuir a ele a pena total pelo crime? É neste momento em que a ética entra em colapso. Afinal, onde a verdade é frágil, a vingança veste a roupa da justiça. A grandeza de Faulkner nesta obra está em não oferecer respostas fáceis. Ele não inocenta o culpado, mas tampouco santifica a multidão, e mostra que a justiça feita pelas próprias mãos pode ser brutal, mas desmacara o quanto o sistema institucional também falha. E se o culpado morre, e os outros envolvidos seguem impunes... o que isso diz sobre a verdadeira justiça? E para tornar esse livro ainda mais grandioso, ao final, Faulkner dá uma guinada desconcertante, narrando a história trágica de um homem e sua origem marcada pelo abandono, rejeição e falta de amor. Sem desculpar seus crimes, Faulkner sugere uma pergunta incômoda: e se a violência não nasce apenas da maldade, mas do desamparo? E se o ódio é filho da ausência? Um criminoso, com a sua virilidade esvaziada, cruel, incapaz de amar ou ser amado, encarna a violência que nasce da carência absoluta. Seu destino final, sem glória, sem redenção, nos força a pensar: quem forma um monstro? E Temple? A Temple que volta para casa não é a mesma jovem cheia de ilusões que de lá saiu. Está viva, mas como um corpo vazio. A cena final, ao lado do pai, é pura devastação simbólica. Rodeada por música, elegância, harmonia, ela está longe, ausente, e completamente morta por dentro. A maior tragédia de “Santuário” talvez esteja aí: a morte simbólica de uma mulher jovem. Ela sobrevive, sim, mas carrega em si todas as mortes anteriores de cada um dos personagens dessa trama. É o nada que engole o que restou depois que tudo foi violado. Faulkner não entrega um final de conto de fadas, e “Santuário” está longe de oferecer qualquer conforto. Ao invés disso, ele desmonta ilusões, expõe a brutalidade que estrutura as relações humanas para revelar as contradições profundas do Sul que tanto conhecia. Não há heróis aqui, só o mal-estar inevitável de quem ousa olhar por trás da máscara da civilização. Obs.: Este ano, ao ler “O Filho Nativo”, de Richard Wright, fiquei incomodada com a forma com que ele apresenta a violência do personagem como consequência direta e única do seu passado cruel. Já em “Santuário”, Faulkner aborda esse mesmo passado difícil, mas, em vez de impor respostas, ele desafia o leitor a pensar por si mesmo, e essa liberdade que tece toda a genialidade da obra.

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