Dois irmãos

Dois irmãos Milton Hatoum




Resenhas - Dois Irmãos


198 encontrados | exibindo 1 a 15
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |


BelzeGu 13/06/2019

Uma vida na sua vida
É comum viajar para outro mundo no decorrer da leitura de uma obra, mas o que Hatoum faz em "Dois Irmãos" é algo único. Você não só viaja para outro mundo como cria raizes, empatia por alguns personagens e apatia por outros, você ganha um novo lar, uma nova vizinhança, uma nova vida na sua vida. Você nasce, cresce e envelhece com os personagens.
comentários(0)comente



Natália | @tracandolivros 01/06/2019

Dois irmãos
❝Me dá raiva comentar certos episódios. E, para um velho como eu, o melhor é recordar outras coisas, tudo o que me deu prazer. É melhor assim: lembrar o que me faz viver mais um pouco.’❞
.
Yaqub e Omar são irmãos gêmeos, apenas na aparência, porque os gênios são outros; e no fundo mesmo, eles se odeiam. Toda a cordialidade existente entre eles teve fim com o episódio em que os dois gostavam da mesma moça, mas ela escolheu Yaqub. Com raiva, Omar bate no irmão, deixa ele com uma cicatriz no rosto, e assim até a aparência deles tem uma quebra.

Depois desse acontecimento, os pais resolvem que é melhor afastar os meninos e enviam Yaqub para morar no Líbano, após 13 anos ele volta para Manaus, e assim tem início a nossa estória.
.
❝Louca para ser livre.’ Palavras mortas. Ninguém se liberta só com palavras. Ela ficou aqui na casa, sonhando com uma liberdade sempre adiada. Um dia, eu lhe disse: Ao diabo com os sonhos: ou a gente age, ou a morte de repente nos cutuca, e não há sonho na morte. Todos os sonhos estão aqui, eu dizia, e ela me olhava, cheia de palavras guardadas, ansiosa por falar.❞
.
Quando foi lançada a minissérie sobre esse livro houve uma febre, todo mundo resolveu ler ele, e vi muitas opiniões como “melhor livro do ano”, e até mesmo no livro diz que ele é “eleito o melhor romance brasileiro dos últimos quinze anos por críticos literários”. Para deixar claro, não sou uma crítica literária, sou apenas uma leitora, e como leitora eu não enxerguei o que os críticos viram.

Dois Irmãos é um livro com uma premissa interessante, com uma família extremamente problemática, todavia eu não consegui me conectar a ela, e me pareceu que o autor apenas jogou os problemas e não trabalhou eles. Me parece que ele pegou um quadro e apenas jogou umas cores de tinta, mas não se importou em misturar elas e combiná-las. Eu sinto que todos os problemas abordados poderiam ter sido mais aprofundados.

De forma alguma eu digo que este é um livro ruim, a escrita do autor é sensacional e flui super bem, mas não é uma estória que me cativou como aos outros leitores e aos críticos.

site: https://www.instagram.com/p/BiXHiWpHoZr/
comentários(0)comente



Kakau 01/06/2019

Personagens:
Irmãos Gêmeos - Yaqub e Omar
comentários(0)comente



Laura Regina - @IndicaLaura 04/05/2019

Um livro sobre coragem e vingança: “Dois Irmãos” de Milton Hatoum (Companhia das letras ).
A história de dois irmãos gêmeos - Yaqub e Omar - e suas relações com a mãe Zana, o pai Halim, a irmã Rânia e Domingas, a empregada da família.
..
A saga dos jovens numa Manaus em ebulição, efervescente com a transformação econômica e o contraste com o tradicionalismo dos povos indígenas que lá ainda habitavam. A história se passa entre as décadas de 1920 e de 1970, retratando a cidade, suas lendas, os diferentes imigrantes que atraía, suas peculiaridades, seus encantos.
..
Os personagens principais da história são Yaqub e Omar, e ela é narrada em primeira pessoa por um alguém nada confiável (e não falo quem é porque faz parte da beleza da escrita o leitor descobrir de quem é a narração). Sabemos sobre suas infâncias, adolescências, vidas adultas. Também sabemos sobre a família dos gêmeos, como Halim e Zana se conheceram, como Domingas chegou na vida deles, como os três filhos eram tratados pelo casal. E todas as intrigas e mal-entendidos naquela casa.
..
Mas, para mim, o mais impressionante e apaixonante é a ambientação: onde as histórias se passam, as descrições de vários cantinhos da cidade de Manaus, tão bem escritos por Hatoum, com palavras tão poéticas e mágicas que me sintia lá, em plena selva amazonense de décadas atrás.
..
Mais indicações no Instagram @indicalaura

site: https://www.instagram.com/indicalaura
comentários(0)comente



Jefferson Vianna 01/03/2019

Um livro que ecoará por um bom tempo na minha memória...
Extasiado, é assim que eu me sinto após finalizar a leitura de “Dois irmãos”, um romance incrível e envolvente escrito por Milton Hatoum. Trata-se de um livro narrado em primeira pessoa, cujo narrador principal convida-nos a adentrar na história de uma família originária libanesa, residentes em Manaus no início do século XX. Uma família desestruturada devido os conflitos de dois irmãos gêmeos, Yaqub e Omar, incapazes de um ato de perdão que poria fim a um emaranhado de problemas familiares e extrafamiliares. O modo como Hatoum constrói cada personagem, permite-nos a apreciação de sentimentos diferenciados, que oscilam entre o amor e o ódio, visto que os detalhes, seja na ambientação e/ou na descrição dos personagens envolvem o leitor, que busca por respostas e anseia pelo desfecho da narrativa. O livro é fluído, muito bem escrito e emociona a todo instante, a escrita de Hatoum apesar de densa tende a ser poética e cheia de personalidade, capaz de seduzir e emudecer. O desfecho é simplesmente tocante e apesar do silêncio a última cena deste livro ecoará por um bom tempo na minha memória. Fascinante! Trechos/frases selecionadas: “A vida vai andando em linha reta, de repente dá uma cambalhota, a linha dá um nó sem ponta.” e “Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras.” Leitura recomendada!
comentários(0)comente



Vida Literária 09/02/2019

Dois Irmãos: A Queda de Uma Família
O romance exala um aroma que inibe o leitor, principalmente aquele que já passou por leituras semelhantes outrora. A literatura já nos presentou com narrativas notáveis quando o assunto é drama familiar. Machado de Assis, por exemplo, escreveu a história de Pedro e Paulo, Eça de Queiroz apresenta a nobreza da família Maia, Gabo inspira o leitor com a família Buendía em Cem Anos de Solidão. Outros escritos, como a Bíblia, relatam a história de Caim e Abel e Esaú e Jacó. No entanto, não há vocábulo que melhor exprima o romance em comparação do que “semelhante”, pois, sem medo, Milton Hatoum vai até a última potência para descrever o esmorecimento de uma prole, a sensação de tensão é ininterrupta, os conflitos são diversos, tudo isso, narrada de uma forma fluida e elegante.

Resenha completa no blog!

site: http://vidaliteraria.net/irmaos/
comentários(0)comente



Acervo do Leitor 18/01/2019

Dois Irmãos de Milton Hatoum | Resenha | Acervo do Leitor
RESENHA – DOIS IRMÃOS

Yaqub e Omar. Dia e noite. Trabalho e noitada. Introspecção e simpatia. Gêmeos, filhos de libaneses, vivendo em uma Manaus pós Segunda Guerra. Uma família destroçada por quem não soube amar, não soube demonstrar e não soube dosar. Uma história inesquecível de perdas, danos e o peso das palavras.

“Alguns dos nossos desejos só se cumprem no outro, os pesadelos pertencem a nós mesmos.”

O simples Halim ama a encantadora Zana, aquela em que sua dor pela perda do pai exigiu três filhos. Do seu desejo nasceram os gêmeos Yaqub e Omar e a jovem Rânia. Como Cain e Abel, Esaú e Jacó os irmãos eram irreconciliáveis. Cresceram disputando as atenções dos pais, da empregada Domingas e da bela Lívia, que brincou com o sentimento dos dois. Uma disputa amorosa que deixou uma marca na face de Yaqub e uma ferida incurável no coração de Omar. A distância entre os dois foi a única solução, e Yaqub foi mandado para o Líbano. Em meio a pedras, ovelhas e solidão um homem foi formado. Omar ficou, sendo criado mimado pela mãe, o filho amado. Em meio a fartura, carinho e falta de limites um homem foi formado.
“Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras.”

Yaqub está de volta. Em uma Manaus em ebulição ele precisa encontrar seu lugar na família. Na admiração dos professores, no orgulho do pai, no medo da mãe, nos braços de Domingas, na bajulação da irmã, e no ódio do irmão aquele que retornou descobriu que não tinha mais um lar. Omar nunca se foi para retornar, mas nunca esteve presente. No desprezo dos professores, arrependimento do pai, no amor desmedido da mãe, no pavor de Domingas, no desejo da irmã e no ódio do irmão aquele que sempre esteve presente descobriu que não tinha um lar. Yaqub parte para fazer carreira em São Paulo. Omar fica fazendo “carreira” nas boates de Manaus. Sob os cuidados de uma aflita mãe apaixonada duas vidas continuarão a se chocar até quebrarem. A cólera de uma família provará que o ódio é sempre mais fiel que o amor.

“A audácia do Caçula crescia diante do pai. Não se vexava, parecia um filho sem culpa, livre da cruz. Mas não da espada.”

SENTENÇA

Essa obra do brasileiro Milton Hatoum vencedora do “Prêmio Jabuti 2001 de Melhor Romance” é uma história violenta e angustiante sobre criação, escolhas e o poder do rancor. Tendo como pano de fundo a evolução da capital do Estado do Amazonas conta um tenebroso drama familiar envolvendo dois irmãos gêmeos que não souberam perdoar e um mãe que não soube amar. Há uma maestria no uso das palavras em sua sufocante narrativa. Pesado e poderoso.

site: http://acervodoleitor.com.br/dois-irmaos-resenha/
comentários(0)comente



Sarah 08/01/2019

Excelente!
Li este livro pra uma disciplina da faculdade e me surpreendeu bastante. Toda a narrativa é bem articulada, poética, crua e realista. A história é contada por Nael, filho da empregada da casa de uma família que mora em Manaus, composta por Halim, Zana, seus três filhos (Yaqub e Omar, gêmeos, e Rânia) e Domingas, a mãe de Nael (que é filho de um dos gêmeos e não se sabe de qual). Os dois irmãos têm uma péssima relação, com problemas que datam desde a infância, e alteram toda a relação das pessoas da casa. Zana, a mãe, é cega de amores por Omar e a diferença de tratamento deixa marcas profundas em Yaqub, assim como o distanciamento e o desprezo de Halim (o pai) por Omar também lhe deixam fortes mágoas. Os conflitos que se desenvolvem ao longo da história são muito bem construídos e dá pra perceber como o acúmulo de pequenos incidentes podem crescer para grandes incidentes e acabar com as relações entre familiares ao longo de décadas. Hatoum descreve uma família possivelmente real, sem censura e com uma maestria louvável! O formato de relato de memórias casa perfeitamente com a proposta do narrador, de registrar a memória daquela família em uma posição ao mesmo tempo de proximidade e distanciamento (pois ao mesmo tempo que era neto, também era filho da empregada). Maravilhoso! Recomendo aos que não têm medo de refletir sobre a vida e sobre a estrutura familiar.
comentários(0)comente



Paula 07/01/2019

Dois irmãos
Essa é a história de uma família de descendentes de libaneses que vivem em Manaus em meados dos anos 40. Halim e Zana se casam e são muito apaixonados. Embora Halim nunca tenha desejado ter filhos, quando o pai de Zana morre, ela, dominadora como é ao longo de toda a narrativa, determina que eles teriam três filhos. São eles os gêmeos Omar e Yaqub e a irmã Rania. Eles também adotam uma índia, Domingas, que trabalha na casa.
Como o título diz, a trama se concentra na rivalidade entre os dois irmãos. Chamado também de ?o caçula? por ter nascido alguns minutos depois, Omar tivera um problema de saúde era extremamente mimado por Zana. Apesar de o comportamento inadequado de Omar ser muito mais evidenciado pelo autor, essa não é uma história de irmãos opostos, em o bom e sempre bom e vice-versa. Milton Hatoum foi estratégico ao construir a personalidade de Yaqub: o ambicioso aspirante à profissão de engenheiro, o ?calculista?.

Uma história com trama e personagens muito bem construídos. Ótima leitura!
comentários(0)comente



LG 05/01/2019

Delicado para falar de uma família, numa região pouco explorada no imaginário do Brasil. A historia traz o conflito dos dois irmaos, Omar e Yaqub, que afeta toda a familia.

Ressalto aqui estranhesa que e ler sobre a região amazônica e em especial Manaus e seu crescimento.
comentários(0)comente



Raquel 10/11/2018

O retrato de uma família completamente disfuncional
A história da família é narrada por um terceiro, o qual através dos relatos de Halim, da empregada Domingas e por meio da própria observação, enquanto cresce próximo a essas pessoas, junta os fios dessa trama.

Halim é obcecado por Zana, não dá atenção nenhuma aos filhos, os vê como intrusos em sua vida amorosa. Zana é autoritária e tem preferência explícita por um dos gêmeos (Homar), tornando-se alheia às necessidades do marido, do outro filho (Yaqub) e da filha caçula (Rania). Homar e Yaqub desenvolvem personalidades totalmente diferentes e também uma rivalidade interminável.

A cidade de Manaus nos é apresentada através dos passeios por diversos bairros, pela zona portuária e passeios de barco, e também por meio da culinária. Assim como retrata os impactos trazidos pela industrialização do Sul do país e pela criação da nova capital do Brasil.

A história trás também a questão das relações de trabalho na época, por meio da personagem domingas, que descende de um povoado ribeirinho e serve a família em troca de abrigo e comida.

Bem, cabe uma reflexão acerca das relações pessoais desenvolvidas nessa história, que nos mostra as consequências do excesso e da falta de amor e atenção, e também da importância dos pais na formação do caráter dos filhos.

É um livro excelente!!! Recomendo!!
comentários(0)comente



Pateta 22/10/2018

ROUPA SUJA SE LAVA EM CASA?
Cresci com aquela ideia: uma família é um grupo de pessoas onde os próprios laços de sangue já predisporiam seus membros a manter para sempre fortes laços de afeto. A vida ensina que há famílias de todos os tipos, onde as coisas podem ou não se dar daquele modo. A história desse livro é sobre uma família, sua origem e seu destino. Admiravelmente contada, embora nem tudo o que foi contado seja admirável. Uma história difícil de narrar num livro estranhamente fácil de ler. Um livro do qual quase não podemos nos separar. Exatamente como nas melhores e nas piores famílias.
comentários(0)comente



leila.goncalves 12/07/2018

Ódio Fraterno
Publicado em 2000, após onze anos da estréia de Milton Hatoum com "Relato de um Certo Oriente", o romance "Dois Irmãos" gira em torno da conturbada relação entre os gêmeos Yaqub e Omar, manauaras de origem libanesa. Em síntese, o escritor recria a rivalidade "ab ovo", presente no Velho Testamento e já explorada por Machado de Assis em "Esau e Jacó".

Indo de 1910 até a década de sessenta, o livro exibe Manaus após um período de crescente desenvolvimento econômico e cultural provocado pelo ciclo da borracha. Trata-se do retrato de sua decadência e posterior reconstrução que está intimamente ligado a vida de Halim, pai dos gêmeos, e é narrado por Nael, seu único neto. O jovem apesar de jamais ser tratado como parte da família, é filho de Yaqub ou Omar com Domingas, a empregada da casa, que se recusa a tocar no assunto. Envolvido emocionalmente com os acontecimentos, revela-se um narrador tendencioso, capaz de distorcer a história como melhor lhe aprouver.

Além de abordar o ódio fraterno, o livro exibe outros temas paralelos e de caráter universal como a desagregação familiar e a formação identitária além de acontecimentos históricos cuja repercussão vão além das fronteiras da cidade como a Segunda Guerra e a Ditadura Militar, logo, enquadrá-lo unicamente como um romance regionalista é um erro imperdoável.

Outro ponto curioso são os avanços e recuos temporais que Hatoum maneja com destreza, encaminhando o leitor para um desfecho tocante e muito bem escolhido. Com relação a escrita, ela prima por uma linguagem coloquial no qual mesclam-se palavras árabes e indígenas numa intrigante sintonia.

Para os vestibulandos, é imprescindível distinguir as diferenças entre os gêmeos, pois frequentemente essa é a questão mais abordada nos exames. Vai uma ajuda: enquanto Yaqub é um engenheiro tímido e conservador que fez fortuna sem ajuda da família em São Paulo, Omar não passa de um beberrão, boêmio e conquistador que conta com os mimos de Zana, sua mãe, para levar a vida dessa maneira.

O escritor confirmou na série "Livro de Cabeceira" no YouTube que Domingas foi inspirada em Felicidade, protagonista do conto "Um Coração Simples", uma pequena joia legada por Flaubert.

Indubitavelmente, "Dois Irmãos" está entre os melhores romances contemporâneos e merece sua atenção assim como as demais obras do autor.
comentários(0)comente



Letícia 09/07/2018

Trechos
Na vida de Omar aconteciam lances incríveis, ou ele os deixava acontecer, como quem recebe de mão cheia um lance de aventura. E não há seres assim? Pessoas que nem carecem buscar o lado fantasioso da vida, apenas se deixam conduzir pelo acaso, pelo inusitado que assoma nas ventas.
comentários(0)comente



Amanda 24/03/2018

Como estragar os filhos
Muito se fala sobre criação de filhos, falta de limites, obrigações e responsabilidades, sobre a proteção exagerada e o excesso de amor, assim como a falta dele. Sobre tornar o filho o centro da família. Ainda assim muitos pais não enxergam que a criança mimada pode se tornar o adulto transgressor, violento ou eternamente dependente dos pais. Em Dois Irmãos, Milton Hatoum nos apresenta um romance de formação riquíssimo em detalhes e causos do cotidiano de uma família descendente de libaneses em Manaus e as consequências de uma criação irresponsável.

Yaqub e Omar são irmãos gêmeos idênticos, exceto pela personalidade e favores familiares. Yaqub foi enviado para o Líbano quando criança após desentendimentos com o irmão e passou cinco anos sem contato com a família. Enquanto isso, Omar brilhou como a estrela da casa. A criança levada cresceu e se tornou um jovem fanfarrão, alcoólatra, brigão e mulherengo, mimado até os ossos pela mãe Zana.

Quando Yaqub volta do Líbano mostra-se ainda mais retraído, envergonhado, sem muito trato social e, como sempre, ofuscado pelo gêmeo "mais novo", o Caçula Omar. A casa vive em prol de Omar e Zana, que domina o marido, filhos, vizinhos e a cunhantã Domingas. Zana é teimosa, tem uma personalidade intratável, autoritária, cega pelos caprichos do filho e insensível às necessidades de Yaqub, do marido Halim e da outra filha, Rânia.

Rânia, por sinal, é completamente esmagada nesse fogo cruzado entre irmãos. Uma moça sem voz, sem vontades, sem atenções. Halim, por outro lado, apaixonado por Zana até os cabelos, tudo aguenta, tudo suporta por ela. Não interfere na criação dos filhos, prefere beber e jogar seu gamão, cuidar da loja e contar histórias.

Por falar em histórias, Dois Irmãos é narrado em primeira pessoa por um narrador a princípio desconhecido, em forma de relato, e logo percebe-se que, apesar de não sabermos quem está falando conosco, trata-se de alguém próximo à família. Ele reúne os histórias contadas por Halim, por Domingas e Zana, suas próprias experiências e as impressões que os gêmeos e essa família tempestuosa deixaram nele.

Essa é a sacada de mestre de Milton Hatoum: nos deixar curiosos até o final pra saber quem é essa pessoa misteriosa que nos conta de forma tão direta e honesta sobre os acontecimentos ao longo dos anos. O interessante é que o romance acompanha não apenas o crescimento dos gêmeos, mas também do próprio narrador, que muda sutilmente sua visão sobre algumas coisas ao longo da trama, de um olhar mais inocente e doce de criança para descrições mais maldosas e cortantes de adulto que tanto viu essa família aprontar.

Domingas, a índia, merece um enorme destaque aqui, não só pela sua doçura, mas principalmente pela crítica ao trabalho escravo. Suas passagens nos fazem atentar e refletir para esse problema que sempre fez parte da sociedade brasileira. Escravidão não afeta só negros, não representa apenas chibatadas e senzala. A escravidão também está marcada a ferro na alma das várias mocinhas e mocinhos que são criados como parte da família, mas que nunca realmente o foram, treinados a obedecer e limpar, lavar, cozinhar, passar, costurar... a servir em troca de um teto e refeições. Não ter liberdade de ir e vir, não receber o próprio dinheiro, ser explorado também é trabalho escravo.

Os passeios por Manaus que Hatoum proporciona também são um ponto alto do livro. A descrição dos pratos de peixes assados, manjares e refeições manauaras são de dar água na boca e todas as andanças pela cidade, pelos rios em canoas e barcos, bares e casinhas de palafita nos fazem respirar Manaus sem nem precisarmos pagar a passagem de ida.

Mais do que um simples romance cotidiano, Dois Irmãos é sobre o quanto os pais podem e influenciam na moldagem de caráter e personalidade dos filhos, quanto dos sucessos e fracassos são responsabilidade dos genitores. Amor demais estraga, assim como uma planta encharcada de água apodrece. Amor de menos também, como fel na língua, amarga a alma.
comentários(0)comente



198 encontrados | exibindo 1 a 15
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |