A Metamorfose

A Metamorfose Franz Kafka
Peter Kuper




Resenhas - A Metamorfose


300 encontrados | exibindo 1 a 15
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |


Robson 28/03/2011

O pequeno grande livro de Kafka
Em poucas páginas, em um estilo ousado e objetivo, Kafka criou uma das mais perturbadoras obras da literatura mundial.


Tudo começa com a inesquecível cena de Gregor Samsa acordando e percebendo que se transformou em um inseto monstruoso. É interessante notar, que o que mais impressiona aqui é a naturalidade com que o autor retrata toda a situação de Gregor, ele o faz de uma maneira tão sucinta e objetiva que parece que estamos vendo uma pessoa sofrer de resfriado ou algo assim.


Não existe em nenhum momento aquela reação que se é esperada de uma pessoa que sofre de uma terrível transformação física, o que se vê aqui é somente a constatação de que Gregor não poderá naquele dia cumprir o ritual diário de sua vida: acordar cedo, pegar o trem e prosseguir com a sua profissão de caixeiro-viajante. Toda a situação é vista como um obstáculo que impossibilita Gregor de seguir sua vida imediata, cotidiana.


Nada na obra de Kafka é escrito sem muita tristeza e desolação, parece que o que ele realmente pretendia ao escrever o livro, era fazer o leitor acordar de um transe profundo no qual este não se da conta de que de uma hora para outra, todos os conceitos e todas as certezas que temos podem ser subvertidos sem qualquer aviso ou prevenção; é como se Kafka nos desse um tapa na cara (como quem diz: acorde para a vida ou as coisas podem mudar e você pode se ver indefeso subitamente).


Esse sentimento de impotência é ressaltado pelo próprio autor em uma carta: Precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos angustiem profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para florestas distantes de todos, como um suicídio. Um livro tem que ser o machado para o mar congelado dentro de nós.


Então Kafka já havia criado uma narrativa singular, cuja sensação de impotência em relação à história é sempre presente não só para Gregor, como também para o leitor.


O que resta ao leitor é ter que se conformar com a situação cujo ponto de partida ele desconhece, permanece oculto até o último momento. O que permanece é a dúvida, pois tanto Gregor quanto o leitor não sabe o porque do protagonista ter sido transformado em um inseto.


Isso pode servir como uma metáfora para a própria falta de humanidade e espírito caridoso da grande maioria das pessoas, que em certas oportunidades tratam de forma injusta ou até humilhante seus semelhantes, simplesmente porque estes causam problemas.


Isso se reflete em um trecho do livro em que a família de Gregor decide dar fim a toda a situação matando-o (por assim dizer), visto que este último não consegue ajudar no sustento da família, já que não pode trabalhar e garantir mantimentos para esta.


Esse livro funciona como uma espécie de espelho para inúmeras situações que presenciamos em nosso cotidiano, como filhos que resolvem colocar os pais em asilos, porque estes dão muito trabalho e já não ajudam (de uma forma ou de outra), sendo chamados até de parasitas, a questão aqui é a seguinte: como você pode simplesmente desprezar alguém que te ajudou a vida inteira porque tal pessoa não corresponde mais as suas expectativas, e como se sentiria essa pessoa? Se você pensou em um inseto, então estamos na mesma conversa, certo.


Parece-me que existe alguma coisa muito errada nesse utilitarismo cego; deixar uma pessoa de lado simplesmente porque não abraçam nossos anseios e expectativas; deve-se reconhecer que tal pessoa teve durante muito tempo, grande importância em nossas vidas, como no caso de Gregor, parece que o fato dele ter trabalhado e ajudado durante longo tempo sua família, não contribui em nada para este ser tratado como um mero inseto, seria o mesmo que abandonar uma pessoa doente na família ou um amigo, visto que este não pode mais lhe beneficiar, tratando-o como um nada, um inseto.


Ou o que devemos preservar em uma pessoa que nós é importante seja certamente a lembrança, de que essa pessoa é o que ela sempre foi, não o que se parece agora, tendo isso em mente é possível conviver em paz e aceitar essa situação com uma perspectiva diferente da que é mostrada no livro.


Infelizmente para Gregor e para o leitor de Kafka, o mundo que Kafka cria se mostra como sendo o mundo real: não é o mundo do era uma vez, mas do é, como se pode ler no texto, este uma espécie significação pura, tudo é o que é, sem nenhuma atenuação, como na própria vida.


Lindenberg.Moreira 12/01/2011

Kafka foi feito para ser lido e relido várias vezes.
Foi meu primeiro contato com Franz Kafka, fico até sem jeito de escrever sobre este livro, de fazer uma resenha, são tantas interpretações possíveis, tantos pontos a serem tocados, é frustante não conseguir ver tudo o que é possível fazendo uma primeira leitura.

Cada leitor vive uma experiência diferente, única, vive um aprendizado diferente.

Para mim, Kafka mostrou um pouco da grande e silenciosa solidão humana, da incapacidade de alguns mudarem suas vidas, da dependência de outros, do valor que é dado, por nós, ao conformismo e ao conforto em todos os seus aspectos. Mostrou como um problema, no caso a metamorfose de Gregor Samsa, transformou as atitudes e jeito de viver da sua família.

O livro foi escrito em 1912 e para um melhor entendimento é necessário conhecer o momento histórico que o contextualiza, um destes momentos é a crise da Bélle Époque que antecede a Primeira Guerra Mundial. Quando Kafka o escreveu estava em meio a uma crise existencial, religiosa e racional, a chamada crise da Modernidade

A leitura é para todos, muitos dirão que é nojento, mas vejam a história com outros olhos, as vezes é preciso reler algum trecho para se extrair a nossa realidade.

Foi o primeiro, e agora lerei todos de Kafka.


@Marlonbsan 17/02/2020

A Metamorfose
Gregor Samsa, um caixeiro-viajante, ao acordar se vê transformado em um inseto. E, a partir daí, narra como tudo em sua volta muda com relação à casa e aos seus familiares, além de tentar entender e aceitar sua nova forma.
O livro é narrado em terceira pessoa e a leitura, de maneira geral, é fluida, tem poucos diálogos e foca mais em contar como acontecem os fatos, desde a Metamorfose de Gregor até o desfecho do livro. Por ser um clássico, a tradução pode ficar meio rebuscada ou até confusa dependendo da versão.
O livro traz questões familiares muito bem desenvolvidas no quesito convívio. Há uma relação de impotência em meio a uma mudança muito brusca com um membro da família, podemos traçar um paralelo da Metamorfose de Gregor com uma doença terminal em que haja uma dependência muito grande de outras pessoas para suas necessidades básicas, além de mostrar como tudo isso os afetam, tanto no dia a dia, como no fato de precisarem trabalhar ou voltar a trabalhar. E claro da própria impotência e aceitação de Gregor com sua situação.
A literalidade do livro expõe que Gregor realmente se transformou num inseto, com patas, seu corpo tem o formato e as características de um inseto. Cabe a nós buscar interpretações e significados nas entrelinhas, supor explicações e expor nossas opiniões de como enxergamos a obra. Mas qual era o intuito real de Kafka? Se cada pessoa que lê enxerga pontos diferentes, interpretam de forma diferente, qual era a interpretação do próprio Kafka? Qual era seu verdadeiro intuito? A única pessoa que poderia responder, com certeza, seria ele e talvez seria diferente do que a maioria supõe.
É um livro que se necessita estar aberto às diversas ideias e tentar buscar nas entrelinhas os significados.

Foto e resenha no meu Instagram @marlonbsan, quem puder, segue lá :D


site: https://www.instagram.com/p/B8rBZ8tDDz0/
comentários(0)comente



Dominique 03/08/2009

Diferente de tudo o que já li...
Estou acostumada a ler um livro e obter as respostas para minhas indagações no final da leitura. Com "A Metamorfose" foi diferente, eu acabei a leitura e milhares de indagações ficaram voando livres na minha mente.

Temos a história de Gregor Samsa que acorda um belo dia e descobre que virou um inseto (presumo uma barata). Ao invés de se preocupar com seu novo estado, ele se preocupa com a temível demissão que teria se não fosse para o trabalho e com o conforto da família, caso fosse demitido. Sua família quando descobre seu estado atual é tomada de repulsa e o excluem da vida familiar. Gregor tem que passar por todas as fases da transformação com suas dificuldades e descobertas sozinho.

Três coisas me chamaram atenção nesse livro:

* A repulsa e a negação de sua família em aceitá-lo como ele era na sua forma atual. Eles apenas viram o exterior de Gregor, não levaram em consideração que apesar de tudo, ele ainda existia dentro daquele ser.

* Seu conformismo anterior a transformação de Gregor e como as dificuldades haviam modificado o ritmo da família levando-os da apatia/prostação para a ação.

* Ao relatar seus medos, dúvidas, desejos, sofrimento, percebemos que a mudança interior de Gregor após a transformação é grande. Ele transpassa todas as fases até chegar a aceitação do que ele tinha se transformado.

Finalmente, a solidão humana é também um dos ítens a ser destacado. As dificuldades e medos que Gregor enfrentou, poderiam ter sido atenuados com a ajuda da família.


nanda 09/06/2009

os talentos e a comunicação
a questão da noite mal dormida me parece de extrema importância.
já no princípio descobrimos essa passagem, seguida de outra em que ele relata acreditar que todo homem deveria dormir o tempo justo.
em diferente ocasião declara ser o provedor de sua família, e que se não o fosse, já haveria de, satisfeito, ter pedido demissão. então, no momento em que se encontra 'impossibilitado' de trabalhar, já não se espanta com sua condição, nem como é visto, porém empenha seu tempo em descobrir-se vivo nesta nova forma.
na medida porém, em que é rejeitado pelo seus, passa a esconder-se, primeiramente para não aborrecê-los, depois, pelo abandono, já que a família não se inteirava de seus sentimentos, aliás achavam que gregor nem os tinha. não satisfeitos, tentam intervir enfim, retirando-lhe todos os movéis do quarto {com exceção do sofá que servia mais para a vergonha do que para a sua proteção}, arrancando também sua identidade.

a partir daí, vive em reclusão e sua nova forma já não tem mais utilidade para ninguém..consideremos agora uma pequena parte deste livro que para mim foi muito marcante: gregor nos conta que seu pai sempre esteve entregue ao ócio, raramente caminhava e ainda assim muito lentamente. entregue ao sofá, ao cansaço. agora, após sua metamorfose, trabalhava e não somente isso, mas era ele quem nem sequer dormia um sono justo e nunca tirava seu uniforme. a inversão dos papéis me pareceu um tanto irônica e triste.

o extremo em que chega sua existência se dá quando nem ao menos mais notam que gregor parou de comer. transformam seu aposento em um depósito, que não recebe mais arrumação nem limpeza {coisa da qual sua irmã se dedicava no começo da obra}.

gregor está entregue, sem razão de ser, motivo de vergonha para a família. mas a força não extinta assume forma quando tenta pela última vez comunicar-se com a irmã, admirado de seu talento, e preocupado, por, de repente, se enxergar nela. uma pobre moça tão talentosa, desperdiçando seu tempo trabalhando pelo sustento e não era nem ao menos elogiada por seu dom. nota-se na passagem em que ele a escuta ao violino e sente denovo o despertar para a vida: 'se era uma fera, porque a música tanto o impressionava ?' e 'pela primeira vez havia de servir-lhe para alguma coisa aquela sua espantosa forma'. gregor tentou salvar sua irmã. na tentativa, então mal sucedida, esgotam-se as esperanças. gregor não era útil, não tinha mais espaço no mundo..era um verme.

essa noite mal dormida {no livro não menciona o porquê}, talvez por grande reflexão de sua existência, ele sente-se mais natural ao descobrir-se inseto, do que enxergar-se como humano.

mas uma nova consideração que para mim resume toda essa tragédia, foi a falta de comunicação. até onde gregor tentou comunicar-se, não havia em si temor algum, apenas o já entorpecimento vivido por enterrar seus talentos, mas quando já a voz não se fazia compreensível, partiu-se o elo que ainda o fazia 'existir'. porque existir e viver são duas coisas bem diferentes.. ao não comunicar-se mais com os outros passou a ser ainda menos que um animal, transformou-se num inseto, um parasita a custa de outros, um fardo. como não era compreendido, perdeu-se em si mesmo.

o final, foi para mim brilhante, ao perceber que para os pais não se serviu nada do que presenciaram, destinando a sua filha um mesmo caminho..um sistema imposto em que se poderia originar um novo livro.
comentários(0)comente



spoiler visualizar


Ramiro 11/05/2011

O mundo é cruel com quem é diferente.
comentários(0)comente



Tarcísio 18/08/2010

Definitivamente "A Metamorfose" não é um livro só para ser lido. Ele dever ser também pensado, analisado, refletido. A história, por si só, não é suficiente para justificar a fama da obra e de seu autor, mostrando-se relativamente simples e bem curta.

Mas quando o leitor mais atento e interessado transcende a simples leitura, transpondo a situação vivida pelo personagem principal à vida real, aí sim tem-se uma real e justa impressão sobre a qualidade do texto de Kafka. De forma bastante atemporal, "A Metaformose" nos faz refletir sobre a situação onde uma pessoa respeitada e amada por todos perde essa importância à medida que não se mostra mais útil.

Esta obra de Kafka, escrita no início do século passado mostra-se um exemplo clássico do que hoje chamamos de literatura fantástica, estilo que vem tendo grande sucesso, mostrando-se como leitura obrigatória para esse público. Ainda não está convencido de ler A Metamorfose? Então, lá vai mais um motivo: tem apenas 96 páginas, de leitura extremamente fácil.
comentários(0)comente



Arcany-Ha 10/07/2009

Terrivelmente deprimente. Cumpriu o seu papel na história, mas achei simplesmente intragável..
comentários(0)comente



Bruno 19/10/2009

não me comoveu
Achei interessante a ideia central da obra, mas a história em si não conseguiu me envolver. Talvez seja insensibilidade minha diante do personagem. De qualquer forma, não consigo ver nada de sensacional. Talvez eu só me lembre da história em função da grande expectativa que eu guardava com relação a esse livro.

Tudo bem, devemos analisar o contexto histórico em que o livro foi escrito. Talvez tenha sido algo revolucionário para a época, mas não posso dizer que foi uma obra que me marcou. Não digo que seja um livro ruim. Talvez se vier a lê-lo daqui a alguns anos mude de opinião.

A impressão que ficou é que Kafka criou uma pequena fábula para expor seu desencantamento com a humanidade. E que todos os seus personagens eram meras marionetes servindo a esse intuito. O fato é que há autores - como Dostoiévski e Machado (este alguns degraus abaixo do primeiro) - que apesar de utilizarem descaradamente seus personagens para expor suas teses, o fazem de maneira tão sublime que o interesse pelos seus romances permanece praticamente intacto mesmo se desconsiderarmos o que o autor quis dizer com a sua obra.

É claro que corro o risco de estar falando uma grande besteira. Afinal de contas, não deve ser sem motivo que Kafka seja tão reverenciado. Mas até o momento, não consegui entender o porquê.
comentários(0)comente



Vanessa 15/02/2020

odeio resenhar
essa história foi angustiante, vc realmente sente os anseios e preocupações , uma metafora para vida.
comentários(0)comente



Italo Cintra 08/11/2012

Time Is Running Out
"Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo esse delírio?"

Kafka ganhou notoriedade na literatura alemã do século XX. Com um estilo marcado pelo seu tom imparcial, atenção aos mínimos detalhes e temas que envolvem as deficiências da sociedade, o autor consegue em A metamorfose retratar o homem moderno, com uma filosofia que permanece atual no século XXI.

Gregório Samsa é um homem que pede muito pouco da vida, caixeiro-viajante que trabalha arduamente, não em beneficio próprio, mas em função de sua dependente família, é através dele que garantem sua sobrevivência. Seu pai? Um pobre coitada que não trabalha há cinco anos, sua mãe? Uma velha asmática e incapaz, e por fim sua irmanzinha ainda é jovem e inocente aos seus olhos.

Até que certa manhã ele acorda transformado em um inseto gigantesco, a parti daí, a metamorfose do personagem também é responsável pela transformação da família, onde ocorre uma inversão dos papéis, o "peso morto" da história passa a ser o próprio Gregório. Apesar do horror de ser transformado em uma barata gigante, o personagem não pensa em sua condição, lamentando apenas o fato de não poder trabalhar e garantir o sustento de sua família.

De forma sutil o autor convida seus leitores a refletir sobre a condição humana, como a superioridade que o trabalho adquire sobre a vida do personagem, como a visita de seu chefe, homem de negócios, que visa apenas o benefício próprio, apenas com proposito de fiscalizar o funcionário. O personagem não pode ser encarado como vítima ou vilão da história, mas sim, produto de uma sociedade que inibe o desenvolvimento e as aspirações de seus membros ao passo que os explora.


Jefferson 06/06/2012

Estilo literário ímpar.
Nessa breve história classificada como novela, Kafka apresenta o caixeiro-viajante Gregor Samsa, que em uma cotidiana manhã, acorda metamorfoseado em um horrível inseto.

A ideia de Kafka é interessante, pois abre pontos para se refletir, do tipo, "Existe amor incondicional?", "As pessoas mais próximas, que no caso da história são os familiares, podem superar qualquer dificuldade que pode ocorrer com você?", "Quando metamorfoseado, você pensa como tal, ou sua razão permanece imutável?".

Chamo a atenção para a maneira de pensar fria do protagonista mesmo estando em situação tão desesperadora, e varias vezes pensa em coisas fúteis para o momento, como por exemplo, que irá perder o dia de trabalho.

Gregor, mesmo metamorfoseado, tem preocupações com sua família, sobre o que farão sem sua renda para mantê-los, já que o pai, mãe e a irmã, "mamavam nas tetas" dele.

É uma história que me causou incômodo, seja pela situação, seja pelos pensamentos dos personagens. As situações contrastantes entre o pensar e o que está ocorrendo na maior parte das vezes é a responsável por esse incômodo.

Em suma, Kafka revirou o mundo racional e material. Agora entendo de forma mais profunda o sentido do adjetivo "kafkiano".
comentários(0)comente



tatiana 18/12/2009

Uma história inimaginável, kafka critica a sociedade e o superficial laço familiar que nos é imposto.
comentários(0)comente



Ju Dacoregio 15/04/2009

Assim como acontece com todos os clássicos, Metamorfose, de Kafka, se tornou um livro mais citado e comentado do que propriamente lido. Na verdade, é só falar em Kafka que a maioria das pessoas pensa logo em barata. A maioria das pessoas, com um mínimo de cultura, porque o resto não pensa em nada mesmo. Nunca ouviu falar.

A transformação de Gregor Sansa - Barata ou o quê?
Bem, para começar em momento algum do livro, Kafka deixa claro que o inseto no qual Gregor Sansa se transforma seja mesmo uma barata. Mas o bicho é tão nojento (só sente apetite por coisas podres e inspira asco na irmã, que cuida dele) que deve ser mesmo uma barata. O que fica claro é que ele é um inseto e não é bonito. Fica fora de cogitação que ele seja uma joaninha!
Leia antes das refeições se quiser emagrecer
Que os bulímicos e anoréxicos não leiam isso: mas A Metamorfose pode te fazer vomitar, se você ler após as refeições ou perder o apetite completamente, se resolver ler antes!
É de embrulhar o estômago. O livro conta a história de um cara, chamado Gregor Sansa que trabalha como caixeiro vajante para sustentar a família, é todo certinho e tem um chefe muito chato. Numa nada bela manhã, com viagem de trabalho marcada, ele acorda e descobre que não é mais gente. Jápensou, você acordar de manhã e descobrir que não consegue levantar, porque agora você tem um casco?

"Jogar a coberta para o lado foi bem simples; ele precisou apenas inspirar um pouco e ela caiu sozinha. Mas os passos seguintes se mostraram difíceis, sobretudo porque ele estava incomumente largo. Teria necessitado fazer uso dos braços e das pernas, a fim de se levantar; ao invés delas, no entanto, ele possuía apenas várias perninhas, que se movimentavam sem parar em todas as direções e que ele, além de tudo, não conseguia dominar. Quando queria dobrar uma delas, a mesma era a primeira a se esticar(…"
Aos poucos, Gregor vai, forçadamente descobrindo no que havia se transformado (uma barata ou algo bem parecido). E aí as descrições de suas novas sensações são bem pormenorizadas. Por isso que minhas primeiras reações no início da leitura foram de nojo e embrulho no estômago. Não é exagero quando digo que evitei ler antes do almoço pra não perder a fome. O olfato de Gregor muda, sua voz vai se transformando em guinchos roucos e sua visão se adeqüa melhor a escuridão. Ele sente fome, mas não consegue beber o leite que a irmã dele traz numa tigela. Gregor só passa a se alimentar quando sua irmã leva várias opções de "pratos" para ele escolher. Dentre eles, legumes podres, pão bolorento e queijo velho e apodrecido, além, de comidas frescas e ideais para um ser humano. A escolha dele mostra que, sem dúvida, ele estava se afastando totalmente dos gostos normais de um ser humano:
"Rapidamente, e com os olhos lacrimejando de satisfação, ele devorou, um atrás do outro, o queijo, os legumes e o molho; as comidas frescas, ao contrário, não lhe agradavam; não conseguia suportar nem mesmo o cheiro delas."
Virou barata e faltou ao trabalho
Mas o mais bizarro do livro nem é o fato de um homem ter se transformado em uma barata. Mas o desespero que ele sente, não porque se transformou em um bicho asqueroso e nojento, mas porque teria que faltar ao trabalho e não teria como dar uma desculpa convincente. A preocupação de Sansa é com o trabalho e a família e todo o sentimento de culpa e a vergonha que ele passa a sentir com sua nova condição parece que já existiam antes e são apenas evidenciadas por sua metamorfose.
O paralelo
Claro que é possível fazer um paralelo da metamorfose de Gregor Sansa com qualquer metamorfose que sofremos na vida. Nem todas ruins, mas todas podem ser traumáticas. De crianças para adolescentes: pêlos crescendo, glândulas se tornando aparentes, desejos estranhos, cheiro diferente no corpo. De adolescentes para adultos: responsabilidades a mais, as bochechas fofas desaparecendo, as espinhas dando uma trégua… E, enfim, quando começamos a nos acostumar com nosso corpo e nosso rosto, mais transformação: rugas, flacidez, gordura que não desaparece tão fácil, cabelos brancos, expressão mais dura, bunda mais mole!
Era uma vez uma baratinha
Logo no início de minha leitura de A Metamorfose, ao comentar sobre isso com uma amiga, ela disse : dá uma pena da dona baratinha! Eu ainda estava na fase de sentir apenas nojo. Mas ao longo do livro, vai dando pena mesmo. Pena das baratas e de qualquer ser rejeitado pela sociedade. Vivendo em becos e tocas, em meio a sujeira, tentando adequar suas limitações a esse mundo hostil e fazer o melhor uso possível das vantagens que a natureza lhes deu. Sendo obrigadas a viver escondidas desses predadores, os humanos, que matam pelo simples desejo de não olhar para elas. Alvo de ódios e nojos, instintos assassinos e medos. Vida sofrida a da dona baratinha!
Não me admira ela ter aquele casco duro que faz "creck" quando a gente bate com o chinelo em cima.Na próxima vez que você encontrar uma barata na cozinha,ofereça a ela um pedaço de pudim!

"Encontrei um barata na cozinha
eu olhei pra ela
ela olhou pra mim
ofereci a ela um pedaço de pudim
O curioso foi que ela...
Ela disse sim, vem "kafka" comigo"


300 encontrados | exibindo 1 a 15
1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 |